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Trabalhando A última crônica

Alexandre Rodrigues Alves

Corria o ano de 1986; fazia meu estágio docente no Colégio de Aplicação da Uerj, que na época ficava na subida para a Favela do Morro do Turano, no Rio Comprido, Zona Norte do Rio de Janeiro. Hoje funciona ali o Colégio Estadual Herbert de Souza.

Às sete horas da manhã, eu subia as escadas do prédio no mesmo tropel dos alunos – elevador era só para os professores. A sala ficava no quarto ou quinto andar, na torre, o que fazia com que o fundo da sala fosse arredondado. E era ali que ficavam os professores aprendizes, como eu.

Meu primeiro estranhamento era com a relação de alunos e alunas em sala. Como estudei em um colégio que só tinha (e só tem) homens, custei a me acostumar com a facilidade com que as meninas tratavam certos assuntos com os meninos, abertamente e sem perder o respeito. Tinha também “essas coisas que diz toda mulher”, como cantou Chico Buarque... Falar de anéis, brincos, esmaltes, cabelos, cremes...

Depois, ficava ansioso de pensar no dia em que teria que enfrentar aquela turma: alunos inteligentes, atentos, críticos, de raciocínio muito rápido, cultos... Dar aula praquela turma ia ser uma pedreira...

No passar do semestre, a troca com os alunos se desenvolveu, tirávamos algumas dúvidas, sugeríamos soluções para trabalhos ou redações – especialmente com a turminha do fundo da sala, que ficava mais próxima de nós.

Enfim, meu dia chegou! Quinze dias antes, Gustavo Bernardo (meu professor regente, escritor e hoje professor da graduação da Uerj) definiu comigo o assunto a ser tratado, o texto a ser analisado e traçou comigo o planejamento da aula; na semana seguinte apresentei o esboço da aula e o planejamento. Tudo OK.

Na terça-feira, cheguei à sala tenso, nervoso, suado, mas controlado. Alguns alunos da turma comentaram na escada: “É hoje, hein?” Comecei a aula, li A última Crônica, de Fernando Sabino; falei sobre a Gávea, a definição de crônica presente no texto, o papel do cronista nos jornais; destaquei alguns elementos que considerava importantes, vimos a estrutura e algumas palavras-chave do texto... Em 20 minutos tinha terminado minha exposição, que era para durar 100. Alguma pergunta? Não. Bianca, você tem algum comentário a fazer? Não. Ricardo... Silêncio. Ocorreu-me antecipar a atividade que o planejamento previa para a segunda aula: uma redação sobre o texto. Contar um aniversário especial ou escrever uma carta para o autor da crônica, comentando o que você achou dela, o que o tocou naquele texto...

Pronto, o tempo do primeiro dia de aula se foi... Agora era corrigir as redações para o dia seguinte, para comentar com os alunos a redação que fizeram. Seria o segundo dia.

Em casa, descobri que os textos e as abordagens eram muito mais ricos do que eu imaginara; a percepção e a análise deles davam panos para manga. Na segunda aula, então, discutimos também o papel das notícias de jornal, os pontos de vista que a mídia defende, questões de comunicação de massas, o que representa o cronista para a literatura.

Então me comprometi com a turma a levar para o Fernando Sabino (a quem eu tinha acesso por trabalhos anteriores) as redações dos alunos que quisessem e passassem a limpo.

Uns dez ou quinze fizeram o dever de casa e me entregaram uma cópia corrigida (eu tinha apontado pequenos defeitos, como palavras repetidas, erros de ortografia e concordância, por exemplo).

Quinze dias depois recebi um telefonema do Fernando Sabino avisando que tinha um pacote para mim, que era só ir à sua casa apanhar. Havia um exemplar de um livrinho seu, autografado, para cada um dos alunos que mandaram textos! Faltou dizer: ganhei uma cópia de A última crônica com dedicatória e autógrafo.

Na semana seguinte, foi emocionante a entrega; combinei com Gustavo para ele me dar quinze minutos no fim da aula para fazer a entrega, a fim de não bagunçar a turma. Sinceramente não imaginei que aquela turma tão cética, exigente, crítica, fosse curtir tanto o presente.

Desde que passei a ser professor, na rede pública, várias vezes utilizei esse texto para abordar assuntos como o que é crônica e preconceito racial, dependendo da série em que estivesse trabalhando. E sempre me emocionei com ele, tanto por essa primeira aula no CAp quanto pela crônica em si. Várias vezes me peguei com a voz embargada ao falar sobre ele.

Estou lembrando dessa história porque resolvi trabalhar esse texto há quinze dias, com uma turma de oitavo ano. E pela primeira vez me ocorreu que meus alunos de hoje não teriam o perfil do cronista, que para no bar da Gávea para tomar café enquanto busca inspiração para a última crônica do ano; mas poderiam ser a menininha que, com seu pai e sua mãe, comemorou seu aniversário no fundo do bar, discretamente, comendo uma fatia do bolo simples que estava debaixo da redoma da vitrine, bebendo uma singela coca-cola.

Leia: A última crônica

Publicado em 21 de junho de 2011

Publicado em 21 de junho de 2011

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