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1967 – O ano que explodiu a MPB

Alexandre Amorim

Uma noite em 67, documentário dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil, mostra as cinco canções finalistas do Festival de MPB daquele ano na TV Record. Até aí, o público não precisaria sair de casa para ver o filme se sua conexão com a internet fosse boa o suficiente para acessar o YouTube. Todas as músicas estão lá. Mas o filme traz bônus interessantes. A costura entre as músicas, as entrevistas da época e as entrevistas atuais com compositores e participantes da produção do festival dá uma ideia dos bastidores dessa disputa. E, pelas afirmações do então diretor responsável, Paulo Machado de Carvalho, a intenção dos produtores da TV Record era criar nos festivais uma pequena trama, com mocinhos e bandidos. Mas o êxito dessa ficção foi parcial, e a culpa desse quase malogro foi de Edu Lobo. Senão, vejamos.

Em quinto lugar, a canção Maria, Carnaval e Cinzas. Roberto Carlos ainda não era rei e tinha que se submeter às vontades de seus patrões da Record, defendendo uma música bonita, mas fadada às vaias, justamente porque o público não conseguia entender o garoto papo-firme cantando um samba triste que previa as dores futuras da pequena e pobre Maria. O público era levado a pensar assim: Jovem Guarda não canta temas sociais, MPB não usa guitarra, Chico Buarque não se envolve com essa gente esquisita. Mesmo assim, Roberto, de gravata borboleta e cabelos bem penteados, era visto como parte dos mocinhos, principalmente para o público feminino e jovem.

Apesar do quarto lugar, Caetano era só alegria. Certo do valor de seu movimento tropicalista e rindo largo por conquistar aos poucos a plateia, o baiano provou que Alegria, Alegria não se limitava ao arranjo moderno, mas amalgamava marchinha e guitarra, Brasil e Coca-Cola, crônica e teclado elétrico. A MPB – e seus fãs – se rendiam ao pop, que o próprio Caetano define muito bem no documentário. Mesmo assim, Caetano deveria ser visto como componente do grupo dos bandidos. Usava uma banda argentina de rock e cabelos de caracóis maiores do que o aceitável.

O moleque Chico, disfarçado atrás de seus olhos e sorriso de bom moço, esperava que o sucesso de 1966 de A Banda passasse. Sua Roda Viva, música político-existencial, ficou em terceiro lugar, mesmo que muitos considerassem que merecia mais. Na letra, a mesma metáfora da viola como instrumento de resistência que Edu Lobo usaria em Ponteio. Ao contrário de sua canção do festival anterior, a música defendida pelo compositor junto com o MPB-4 era claramente desconfortável em sua letra e melodia. Chico Buarque anunciava que o papel de mocinho não lhe cabia e que ele preferia ir contra a corrente.

Os braços abertos de Caetano, recebendo sorridente a ovação do público, podem se comparar ao braço estendido de Gil no final de Domingo no Parque, entoando uma melodia emocionada e sem letra, expressando sua geleia geral, revigorando a MPB e o Nordeste com a juventude dos Mutantes. O segundo lugar do festival de 67 é uma construção harmônica, melódica e poética de rara presença na MPB. A música cresce, mistura ritmos nacionais ao arranjo roqueiro e traz uma letra tão calcada no cotidiano quanto inspirada em sentimentos humanos complexos, como paixão e ciúme.

A abertura do documentário apresenta Edu Lobo e Marilia Medalha como protagonistas. Na verdade, eles são as vozes da protagonista, que é Ponteio. A música abre e fecha o filme, anunciando que aquele violeiro aguarda o momento em que terá sua viola e poderá demonstrar sua força e sua arte. E aí está a importância de Edu Lobo ter ganho o festival de 67: ele não era bandido, mocinho, bossa nova ou jovem guarda. A MPB foi usada por Edu para anunciar a vontade do artista de se pronunciar, não importando rótulos. Mesmo com seu rosto juvenil e cabelo liso, que se encaixariam perfeitamente na figura do mocinho, o compositor não se deixou ser afetado por simplismos, apresentando uma música que era, na verdade, uma declaração de intenções: expressar-se. Ter sua viola para cantar.

As cinco finalistas de 67 são ótimas canções, defendidas por excelentes artistas, cada um a seu modo. Cabe ao público entender suas diferenças, que só enriquecem a MPB.

Publicado em 05/07/2011

Publicado em 05 de julho de 2011