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Negrinha – um manifesto antirracista de Lobato

Mariana Cruz

Estava trabalhando nas aulas de Filosofia que ministro no Ensino Médio a noção de verdade, para o segundo ano, e no terceiro ano discutia o problema do racismo, conforme está indicado no currículo mínimo de Filosofia. A fim de tornar as aulas mais dinâmicas e interessantes, sempre tento aproximar os temas abordados da realidade dos alunos ou então lanço mão da arte para ajudá-los a entender certas questões. Foi pensando em como tratar esse dois temas que cheguei ao conto Negrinha,de Monteiro Lobato, onde ambos os aspectos – racismo e a relatividade da verdade –, como tantas outras coisas, estão presentes no texto. Aliás, uma das histórias mais tristes que já li.

Negrinha – a menina que dá nome ao conto – fica órfã aos quatro anos; sua mãe era uma ex-escrava que, após a Abolição, torna-se criada na casa de dona Inácia, mulher excelente aos olhos da Igreja e um verdadeiro diabo para a menina a quem tratava aos beliscões, cocres e outras agressões físicas e verbais.

Apesar de ser uma ficção, o conto mostra pelo buraco de fechadura como ficou a situação de alguns negros pós-Abolição, que, apesar de libertos por um decreto, ainda estavam agrilhoados, vistos como peça na mentalidade de brancos reacionários. Muitos deles eram antigos senhores que se tornaram patrões e continuaram com o mesmo tipo de tratamento escravocrata, como era o caso de dona Inácia:

Vinha da escravidão, fora senhora de escravos — e daquelas ferozes, amigas de ouvir cantar o bolo e estalar o bacalhau. Nunca se afizera ao regime novo — essa indecência de negro igual a branco e qualquer coisinha: a polícia!

Lobato usa de ironia para mostrar o quanto dona Inácia era bem-vista pela igreja, numa clara demonstração de relatividade de pontos de vista que se pode ter acerca de uma mesma coisa:

Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, amimada dos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo reservado no céu. Entaladas as banhas no trono (uma cadeira de balanço na sala de jantar), ali bordava, recebia as amigas e o vigário, dando audiências, discutindo o tempo. Uma virtuosa senhora em suma — “dama de grandes virtudes apostólicas, esteio da religião e da moral”, dizia o reverendo.

O que ia de encontro à forma cruel com que tratava Negrinha:

O 13 de maio tirou-lhe das mãos o azorrague, mas não lhe tirou da alma a gana. Conservava Negrinha em casa como remédio para os frenesis. Inocente derivativo:

– Ai! Como alivia a gente uma boa roda de cocres bem fincados!...

Tinha de contentar-se com isso, judiaria miúda, os níqueis da crueldade. Cocres: mão fechada com raiva e nós de dedos que cantam no coco do paciente.

Tais passagens são apenas uma amostra da riqueza de elementos contidos na história que podem ser trabalhados com os alunos. Além disso, estudar textos em sala traz outras vantagens. Nesse tipo de aula, geralmente peço para os meninos fazerem um círculo, distribuo uma cópia por aluno e peço que cada um leia um parágrafo. Interrompo apenas para ressaltar ou explicar alguma passagem ou palavra mais complicada. Sempre há aqueles, porém, que não querem ler em voz alta. Não os obrigo, mas tento mostrar a importância de tal tipo de leitura, digo que não há problema em errar e chamo atenção dos outros alunos para não galhofarem diante de alguma palavra pronunciada equivocadamente por algum colega. E eu também me coloco a ler. No caso específico de Negrinha, o inesperado aconteceu: mesmo já tendo lido o conto diversas vezes, sempre fico tocada com as crueldades de que a menina era vítima. Assim, ao dar esta aula para a segunda turma, eis que chegou a minha hora de ler; esqueci-me onde estava e deixei-me levar pela história. Quando dei por mim, minha voz travou, senti o nariz ardendo, baixei a cabeça, ia começar a chorar. Não podia desmontar assim diante da turma; então, disfarçadamente, pedi para que Nicole, a aluna que estava à minha esquerda, seguisse a leitura. Deu para disfarçar, pensei, “ainda bem que não perceberam”. Devem ter só achado estranho o fato de eu ter parado no meio da frase. A leitura seguiu, e lá para o final do texto escutei umas fungadas em sala – sinal de que não fora a única a me emocionar com a história – bem como algumas expressões de revolta: “que mulher ruim!”; “ah, se fosse comigo...”. Vi o quando foi proveitoso e frutífero trabalhar com o texto em sala.

Sei da acusação que cai sobre Monteiro Lobato de ter passagens racistas em alguns livros seus. Desconheço tais passagens. E, por ironia, considero Negrinha uma das críticas da literatura mais contundentes ao racismo e contra os maus-tratos sofridos pelas crianças. Apesar de ser ficção, não deixa de ser a denúncia de uma situação que não deveria ser exceção naquela época.

Após a leitura, os alunos reuniram-se em grupo para debater o texto e responderam a algumas questões sobre ele.

Na semana seguinte à atividade, uma aluna que havia faltado aproximou-se de mim e disse discretamente: “poxa, professora que pena não ter vindo, disseram que a senhora até chorou...” E eu certa de que ninguém tinha notado...

Por ora, fique com a leitura de Negrinha. Eaproveite para deixar aflorar suas emoções, já que você não está diante de uma sala repleta de alunos.

Ficha técnica do livro:

  • Título: Negrinha
  • Autor: Monteiro Lobato
  • Gênero: Conto (1920)
  • Editora: Brasiliense

Publicado em 05/07/2011

Publicado em 05 de julho de 2011