Este trabalho foi recuperado de uma versão anterior da revista Educação Pública. Por isso, talvez você encontre nele algum problema de formatação ou links defeituosos. Se for o caso, por favor, escreva para nosso email (educacaopublica@cecierj.edu.br) para providenciarmos o reparo.

Registros e rezistos

Alexandre Amorim

Depois de cinco anos dividindo meu apartamento com duas lagartixas, resolvi fazer uma reforma no banheiro, cômodo preferido das duas. Assim que o pedreiro começou a quebrar os ladrilhos, as duas sumiram. Dias mais tarde, saudoso e solitário, resolvi puxar papo com o pedreiro, já que minhas amigas de sangue frio se esquentaram e me deixaram sem ter com quem dividir minhas ideias.

A primeira conversa entre mim e seu Marcos, o pedreiro, foi assim:

- Seu Marcos, o cano de água passa por essa parede, né?

- É, sim. – ele disse, sem parar de mandar a marreta na pobre parede.

- Não é melhor fechar o registro?

- Fechar o quê?

- O registro, seu Marcos.

- Registro é no cartório. Tem que fechar é o rezisto.

Confesso que minha surpresa me impediu de argumentar. Seu Marcos é pedreiro há quarenta anos e me corrigiu com tamanha propriedade que fiquei uns bons minutos sem reação. E, felizmente, após esses minutos, minha reação foi dizer “tá certo”. Fui até a área de serviço e fechei o rezisto. Fiquei olhando pela janela, imaginando quantos registros a palavra registro tem. Registo, rezistro, rezisto. Pelo menos três, além da formal. E os balconistas de loja de material de construção entendem perfeitamente todos eles. Assim como os escrivães em cartórios, penso eu.

Sendo advogado, peço, leio e dou registro de vários assuntos. Nunca usei as outras formas do termo, porque aprendi assim, da forma culta. E sempre corrigi textos escritos de forma errada. Mas ficar corrigindo as pessoas que falam de outro modo, só se eu achar que elas estão tentando falar como manda a forma culta. Se o seu Marcos acha que registro é uma coisa e rezisto é outra, e ele convive há quarenta anos com essa certeza e sempre conseguiu comprar rezistos e fazer registro de seus filhos, não vou corrigi-lo. Até porque ele tentou me corrigir e eu mesmo não aceitei.

Como o dia estava bom para divagações, continuei pensando sobre o certo e o errado na língua. A tal da forma culta, mantida pelos acadêmicos que, em sua maioria, vêm das classes sociais mais favorecidas, resvala constantemente na forma popular. A língua falada é um grande organismo mutante – às vezes perde um rabo, como lagartixas, e nasce outro. A língua portuguesa, no Brasil, já perdeu e ganhou acentos, hífens, tremas – até letras! E é um tal de perde e ganha, de some e reaparece. Super-homens, esses linguistas; superômis, nós, os falantes...

Nós, uma vírgula. Porque os falantes são diversos, não formam um “nós”, não formam um nó só. São linhas cruzadas, mas pelo jeito todos se entendem. A não ser na questão classista. Um carioca entende o pedido de “um chope e dois pastel” do paulista, um mineiro entende o “isso mermo” do carioca. Mas todos fazem questão de apontar o que seria o erro do outro. E o classismo não é só bairrista. Ocorre bem debaixo das barbas cultas daquele intelectual que corrige o uso indevido de plural/singular do garçom, mas, na mesma mesa de bar, cumprimenta um outro amigo intelectual: “ô, rapaz! Me liga! Vamos se encontrar!”.

Isso sem falar no chato que não erra nada da língua culta e, por isso, se acha no direito de corrigir todo e qualquer falante da língua que ele pretende dominar. Domina, sim, a gramática acadêmica, mas se perde como um cego em tiroteio quando conversa com alguém que usa o domínio popular. Não é chato quem domina a língua culta, mas quem não consegue ver que o mundo não é de todo culto, homogêneo e muito menos obediente às normas que o mocinho chato resolveu seguir.

Voltei para o banheiro. Falei com seu Marcos que tinha fechado o registro. Ele me entendeu e não me corrigiu mais.

Ah, sim. As lagartixas se mudaram para a cozinha. Ainda ontem, conversávamos sobre as vezes em que fui chamado de “adevogado” e elas de “largatixa”. Elas não ligam, nem eu.

P.S. É claro que esta crônica é meu “registro” a favor do livro utilizado pelo MEC. A língua portuguesa é tão rica quanto o número de seus falantes. Aliás, vale a pena ler o capítulo do livro que foi questionado. Clique aqui.

Publicado em 12 de julho de2011

Publicado em 05 de julho de 2011