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Chico de (terno) novo

Alexandre Amorim

Gostaria que o leitor me ajudasse na construção deste texto. São dois favores que peço, na verdade. Primeiro, que lembre da imagem de João Gilberto, o dito pai da Bossa Nova, em um de seus shows. Lembra que ele está sempre de terno e gravata, parecendo dizer que o samba merece um certo formalismo? Pois bem, guarde essa imagem em um canto mais acessível da memória. O segundo favor é que ouça os três últimos discos de Chico Buarque. Não chega a ser um favor, e eu considero mesmo um prazer. Não sou da turma que considera Chico decadente. Aliás, peço esses obséquios ao leitor justamente para mostrar que Chico mudou, mas não necessariamente para pior.

Mudou, pero no mucho. Quem já viu os vídeos do site lançado para promover o novo disco (www.chicobastidores.com.br) nota que o músico/escritor continua bom de papo e de humor. Ali, entre tantas anedotas e conversas, no entanto, surge uma revelação mais importante do que supõe o próprio compositor: pela primeira vez nesses seus últimos discos, Chico gravou o violão. Antes, ele tocava, mas não gravava. A função ficava a cargo de ótimos instrumentistas, como Luiz Claudio Ramos. Chico chama seu violão de “sujo”.

Pois a importância de gravar seu violão talvez resida justamente nessa sujeira. As canções de Chico foram ficando cada vez mais rebuscadas harmonicamente. Já há algum tempo seus arranjos estão limpos, mesmo nos sambas, como “Chão de Esmeraldas” ou “Injuriado”. O disco Uma Palavra, com regravações de músicas mais antigas, é um bom exemplo de sua tendência a burilar mais as harmonias, limpar seus arranjos e dar mais valor à voz, mesmo que limitada. A estética de sua música passou a estar mais relacionada à beleza e ao refinamento do que ser apenas um veículo para suas letras.

Acontece, porém, que suas letras também mudaram. A preocupação com uma harmonia estética (leia-se: preocupação com a beleza formal) também influenciou seus versos. Chico sempre se preocupou com a escrita e a formalidade estética, mas cada vez mais constrói suas letras seguindo um rigor formal, talvez porque as melodias e harmonias o forcem a isso. Neste último disco, um dos versos de “Querido Diário” promete trazer certa polêmica. Veja a estrofe:

Hoje pensei em ter religião
De alguma ovelha, talvez,
fazer sacrifício
Por uma estátua ter adoração
Amar uma mulher sem orifício

Adivinharam qual verso tem tudo para ser polêmico? Claro, “mulher sem orifício” parece, a princípio, ser literatura de baixíssimo calão. Mas, se o leitor se der ao trabalho de ler a estrofe inteira, compreenderá a métrica, a rima, o conteúdo – o rigor formal, enfim. E, é claro, verá a poesia dessas palavras. Chico não é bobo e usa de baixo calão quando necessário (“Geni e o Zepelim”, “Não Sonho Mais”). Aqui, essa mulher se refere a uma santa, tem relação com uma estátua a ser adorada. É a religião sendo citada com profunda ironia (o que talvez tenha aborrecido alguns críticos mais religiosos e ao mesmo tempo mais ignorantes).

Mas, ao mesmo tempo que o compositor une ironia à poesia, suas canções já não soam mais como crônicas geniais. São, hoje, impressões (geniais). Chico, hoje, raramente usa sua capacidade de se travestir, seja de mulher, de pivete, de cafajeste, de operário ou de malandro. Suas letras foram aos poucos se transformando em impressões do autor. Se um dia Chico foi o herói cujo cavalo só falava inglês ou cantou a voz da mulher que esquentava o prato e abria os braços para um homem ordinário ou se até mesmo mostrou em terceira pessoa a poesia na vida de um operário da construção civil, hoje o músico parece preferir mostrar o que sente em relação aos outros, e não a própria vivência da alteridade.

Essa volta à interpretação subjetiva, ao invés da tentativa de viver a alteridade, parece sinal de nossos tempos, ditos pós-modernos. Tudo passa pela interpretação e as canções que soavam como crônicas passam a ser impressões. Não sou daqueles que concorda que Chico está em decadência artística. Sejam crônicas, sejam impressões subjetivas, sua poesia tem a verve de sempre. Se o autor parece mais analítico e de um equilíbrio próximo ao apolíneo, suas letras continuam atravessando a estética e se alimentando dela para trazer conteúdo e lirismo. Se há preferências entre o cronista e o impressionista, é caso de gosto, não de índice de qualidade.

O violão “sujo” de Chico talvez seja uma resposta moleque à sua própria seriedade estética. De qualquer modo, musicalmente, Chico tem se mostrado cada vez mais rigoroso em suas obras. São músicas vestindo traje a rigor. Lembram de João Gilberto de terno? Pois é, parece que Chico resolveu vestir suas músicas com roupagem mais formal. Difícil é manter a gravata e não relaxar para ouvir.

Publicado em 19/07/2011

Publicado em 19 de julho de 2011