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Estratégias docentes para estimular a aprendizagem significativa

Juliana Maria Carvalho

Professora e redatora

As pesquisas sobre as estruturas e processos cognitivos realizadas entre as décadas de 1960 e 1980 ajudaram de maneira significativa a forjar o marco conceitual das teorias cognitivas contemporâneas. Estas, sustentadas nas teorias de informação, da psicolinguística, na simulação por computador e na inteligência artificial, conduzem a novos conceitos sobre a representação e a natureza do conhecimento e de fenômenos como a memória, a solução de problemas, o significado e a compreensão e produção da linguagem.

Uma linha de investigação impulsionada com grande vigor pela corrente cognitiva se refere à aprendizagem do discurso escrito, que por sua vez desemboca no desenho de procedimentos que tendem a modificar a aprendizagem significativa dos conteúdos conceituais, assim como a melhorar sua compreensão e memória.

É possível identificar aqui duas linhas principais de trabalho iniciadas na década de 1970: a aproximação imposta que consiste em realizar modificações ou reorganizações no conteúdo ou estrutura do material de aprendizagem; e a aproximação induzida, que se ocupa em treinar os alunos no manejo próprio e direto de procedimentos que os permitam aprender com êxito e de maneira autônoma.

No caso da aproximação imposta, as "ajudas" proporcionadas ao aluno pretendem facilitar intencionalmente um processamento mais profundo da informação nova e são planejadas pelo docente, planejador, designer de materiais ou programador de software educativo, pelo que constituem estratégias de ensino. Desse modo, poderíamos definir essas estratégias de ensino como procedimentos ou recursos utilizados pelo agente de ensino para promover aprendizagens significativas.

Por sua vez, a aproximação induzida compreende uma série de "ajudas" internalizadas no leitor; este decide quando e por que aplicá-las e constituem estratégias de aprendizagem que o indivíduo possui e emprega para aprender, recordar e usar a informação. Ambos os tipos de estratégias de ensino e de aprendizagem encontram-se involucradas na promoção de aprendizagens significativas a partir dos conteúdos escolares; inclusive quando, no primeiro caso, a ênfase é posta no design, na programação, na elaboração e realização dos conteúdos a aprender por via oral ou escrita (tarefa docente); no segundo caso, a responsabilidade recai no aprendiz.

As estratégias de ensino podem abordar aspectos como design e emprego de objetivos e intenções de ensino, perguntas inseridas, ilustrações, modos de resposta, organizadores antecipados, redes semânticas, mapas conceituais e esquemas de estruturação de textos, entre outros.

Por sua vez, as estratégias de aprendizagem têm enfoque no campo denominado aprendizagem estratégica e propõem modelos de intervenção que dotem os alunos de estratégias efetivas para a melhora em áreas e domínios determinados (compreensão de textos acadêmicos, composição de textos, solução de problemas e outros). Assim, é possível trabalhar com estratégias como a imaginação, a elaboração verbal e conceitual, a elaboração de resumos, a detecção de conceitos-chave e ideias-tópico ou ainda, com estratégias metacognitivas e autorreguladoras que permitam ao aluno refletir e regular seu processo de aprendizagem.

Classificações e Funções das Estratégias de Ensino

O docente pode empregar algumas estratégias de ensino com a intenção de facilitar a aprendizagem significativa dos alunos. As estratégias selecionadas aqui podem ser introduzidas como apoio em textos acadêmicos, assim como na dinâmica do ensino (exposição, negociação, discussão etc.) ocorrida na classe. As principais estratégias são as seguintes:

  • É importante deixar claro seus objetivos: prepare um enunciado que estabeleça condições e deixe clara a forma de avaliação da aprendizagem do aluno. Resumos, sínteses e abstração da informação relevante de um discurso oral ou escrito devem ser estimulados. Deve-se enfatizar conceitos-chave, princípios, termos e argumento central.
  • Organização prévia: ofereça informação de tipo introdutório e contextual. Essa informação é elaborada com um nível de abstração, generalidade e inclusão superior ao do conteúdo principal. Estenda uma ponte cognitiva entre a informação nova e a prévia.
  • Ilustrações: devem funcionar como representações visuais dos conceitos, objetos ou situações de uma teoria ou tema específico (fotografias, desenhos, esquemas, gráficos, dramatizações etc.).
  • Analogias: são proposições que indicam que uma coisa ou evento (concreto e familiar) é semelhante a outro (desconhecido e abstrato ou complexo).
  • Perguntas intercaladas: perguntas inseridas na situação de ensino ou em um texto mantêm a atenção e favorecem a prática, a retenção e a obtenção de informação relevante.
  • Pistas topográficas e discursivas: são sinalizações que se fazem em um texto ou na situação de ensino para enfatizar e/ou organizar elementos relevantes do conteúdo por aprender.
  • Mapas conceituais e redes semânticas: são representações gráficas de esquemas de conhecimento (indicam conceitos, proposições e explicações).
  • Uso de estruturas textuais: organizações retóricas de um discurso oral ou escrito que influenciem em sua compreensão e memorização.

Diversas estratégias de ensino podem ser utilizadas antes (pré-instrucionais), durante (coinstrucionais) ou depois (pós-instrucionais) de um conteúdo curricular especifico, seja em um texto ou em uma dinâmica de trabalho docente. Nesse sentido, é possível fazer uma primeira classificação das estratégias de ensino com base em seu momento de uso e apresentação.

As estratégias pré-instrucionais em geral preparam e alertam o estudante em relação ao que e como vai aprender (ativação de conhecimentos e experiências prévias pertinentes) e permitem que ele se localize no contexto da aprendizagem pertinente. Algumas das estratégias pré-instrucionais típicas são: os objetivos e a organização prévia.

As estratégias coinstrucionais apoiam os conteúdos curriculares durante o processo de ensino ou da leitura do texto de ensino. Suas funções podem ser: localização da informação principal; formação de conceitos com base nos conteúdos; delimitação da organização, estrutura e inter-relações entre esses conteúdos e manutenção da atenção e motivação. Aqui podem ser incluídas estratégias como: ilustrações, redes semânticas, mapas conceituais e analogias, entre outras.

Por sua vez, as estratégias pós-instrucionais se apresentam depois do conteúdo que se há de aprender e permitem ao aluno formar uma visão sintética, integradora e inclusive crítica do material. Em outros casos, permitem-no valorizar sua própria aprendizagem. Algumas das estratégias pós-instrucionais mais reconhecidas são: perguntas intercaladas, resumos finais, redes semânticas e mapas conceituais.

Outra classificação valiosa pode ser desenvolvida a partir dos processos cognitivos que as estratégias estimulam para promover melhores aprendizagens. São estratégias criadas para ativar (ou gerar) conhecimentos prévios e para estabelecer expectativas adequadas nos alunos. Nesse grupo podemos incluir também outras estratégias que se concentrem no esclarecimento das intenções educativas que o professor pretende conseguir no término do ciclo ou da situação educativa.

Dessa forma, a ativação do conhecimento prévio pode servir ao professor em duplo sentido: para conhecer o que sabem seus alunos e para utilizar tal conhecimento como base para promover novas aprendizagens. Esclarecer aos alunos as intenções educativas ou objetivos vai ajudá-los a desenvolver expectativas adequadas sobre o curso e a encontrar sentido e/ou valor funcional às aprendizagens decorrentes. Podemos dizer que tais estratégias são principalmente do tipo pré-instrucional; recomenda-se usá-las principalmente no início da classe. São exemplos: as pré-interrogativas, a atividade geradora de informação prévia (a chuva de ideias, por exemplo), o estabelecimento de objetivos etc.

Estratégias para orientar a atenção dos alunos

São aqueles recursos que o professor utiliza para focalizar e manter a atenção dos alunos durante uma aula, discurso ou texto. Os processos de atenção seletiva são atividades fundamentais para o desenvolvimento de qualquer ato de aprendizagem. Nesse sentido, devem ser propostas preferencialmente estratégias do tipo coinstrucional, já que podem ser aplicadas de maneira contínua para indicar aos alunos sobre que pontos, conceitos ou ideias devem centrar seus processos de atenção, codificação e aprendizagem. Algumas estratégias que podem ser incluídas nesse grupo são: as perguntas inseridas, o uso de pistas ou chaves para explorar a estrutura do discurso – oral ou escrito – e o uso de ilustrações.

Em um próximo artigo, pretendo analisar as estratégias para organizar a informação a ser passada aos alunos e as que relacionam os conhecimentos prévios com a nova informação, além de apresentar um quadro-síntese do que foi exposto.

Publicado em 19 de julho de 2011

Publicado em 19 de julho de 2011