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Caraça, sinônimo de preservação

Alexandre Amorim

Se a gente for seguindo a Estrada Real, caminho que bandeirantes, sertanistas, escravos e índios abriram para povoar e extrair riquezas do solo do Brasil, chegamos a Minas Gerais. As duas estradas que saem do Rio de Janeiro levam até Ouro Preto. Mas, se o viajante não se satisfaz com a cidade histórica, pode seguir adiante, pegar o caminho dos diamantes. E aí vai chegar ao Caraça.

Uma vegetação que reúne Mata Atlântica, Cerrado e Campos de Altitude. Cachoeiras, riachos, grutas, montanhas. Uma floresta preservada. No meio dessa floresta, uma igreja neogótica que centraliza uma construção do início do século XIX, onde funcionou um colégio de padres. São mais de 500 espécies vegetais, 120 tipos de orquídeas, mais de 250 tipos de aves, uma fauna de jaguatiricas, esquilos, macacos, gaviões, quatis – bichos que, muitas vezes, podemos ver no jardim em frente aos quartos.

E lobos-guará.

A paz do lugar. Caminhadas leves, trilhas mais íngremes, banhos em água gelada. O V da Bocaina, que deixa entrever o horizonte em meio aos morros de Minas. Ler um livro no jardim, tomar cerveja na cantina, fazer o café da manhã com ovos da granja, no fogão à lenha da cozinha. Visitar as catacumbas, em respeito aos tantos padres que preservaram esse lugar. À noite, se esquentar com a cachaça, com o vinho. Ir à missa ou apreciar o céu estrelado.

E a visita do lobo.

O Santuário do Caraça é lugar de reflexão, diz uma das placas que servem como guias de condutas dos visitantes. Nem precisava dizer. O silêncio e a magnitude do lugar acabam levando a gente a falar mais baixo, andar mais devagar, pensar mais do que tagarelar. Mas também nos levam a um estado de admiração tamanha que se transforma em entusiasmo. E aí esse entusiasmo pode nos levar a caminhar quilômetros em trilhas ou mesmo a cair em uma das piscinas de água gelada e ferruginosa.
Mas a maior animação é esperar a visita... do lobo.

A visita do guará é o ponto alto da estada no Caraça. Mesmo com toda natureza, com todo misticismo e com toda arquitetura do lugar, as conversas entre os visitantes durante o dia são sempre entremeadas pela vinda do lobo, à noite. E todos se reúnem no pátio em frente à igreja para receber o animal de pelo alaranjado, magro, de pernas e costas pretas. Ele chega, subindo as escadas de pedra, para comer a refeição que os padres servem. Vem da floresta, às vezes atravessando o estacionamento, às vezes subindo a ladeira em que Dom Pedro II levou um tombo. Vem devagar, arisco. Não se incomoda com os flashes das câmaras nem com a conversa em volta. Mas qualquer movimento mais brusco o faz fugir. Sua presença é quase mágica: as vozes se calam, os turistas estrangeiros têm dificuldade em entender como um lobo pode conviver com humanos. O padre Tobias, falecido diretor do Caraça, costumava levantar um pedaço de carne e fazer o guará ficar nas patas traseiras, quase em pé, para pegá-lo. Lobo selvagem se comportando como um cão treinado. É difícil definir a relação dos lobos, que há décadas vêm comer aos pés da igreja, com aqueles que trabalham ali. Não se domesticou, mas sua rotina envolve o contato com o homem.

O casal de lobos que domina a floresta muitas vezes vem junto, e um engole a comida enquanto o outro guarda a saída. Essa comida vai ser regurgitada para os filhotes, mais tarde. Isso se uma jaritataca não aparecer e espantar os lobos e roubar a carne. Mesmo sendo várias vezes menor que eles.

No dia seguinte à visitação de lobos, gambás e quem mais chegar, vale a pena ir até ao museu e conhecer a história do santuário.

A lenda diz que o lugar foi fundado pelo português Lourenço de Nossa Senhora, foragido das terras além-mar por um suposto atentado à família real. No Brasil, Lourenço se tornou irmão franciscano em Diamantina. Em 1770, chegou à Serra do Caraça e concluiu o Santuário de Nossa Senhora Mãe dos Homens em 1774, com o intuito de realizar trabalhos religiosos e fundar uma escola. 

Não conseguindo acabar sua obra, deixou a propriedade para o império português, que doou para os lazaristas, também conhecidos por vicentinos. Em 1821, os padres dessa congregação fundaram um colégio interno apenas para meninos. O colégio funcionava como um curso de Humanidades, muitas vezes encaminhando os alunos formados para o Seminário.

A arquitetura do lugar sofreu duas mudanças essenciais, uma por obra da administração francesa: por ser pequena para as atividades do colégio, a igreja barroca original foi demolida e substituída, em 1883, pela igreja neogótica, cujo pico é o primeiro sinal de que o visitante está chegando ao sistema de construções. Apesar da reforma, altares barrocos do mestre Ataíde foram preservados, assim como a pintura de uma ceia peculiar (do mesmo Ataíde), em que mulheres servem bebida e carne em meio a flertes com outros serviçais.

A segunda alteração foi um terrível acidente. Numa noite de maio de 1968, um fogareiro foi deixado aceso na sala de encadernação do prédio que também abrigava os quartos dos alunos, a biblioteca, salas de aula, laboratórios e enfermaria. O incêndio consumiu todo o interior da edificação, mas não houve vítimas. Hoje o prédio funciona como biblioteca e museu, e o fogareiro pode ser visto como peça.

Esse incêndio acabou por transformar o colégio em hospedaria. Não havia mais condições de continuar o educandário e, como muitas pessoas visitavam o lugar pela curiosidade que a tragédia causou, aos poucos o local foi se adaptando às atividades turísticas, sejam elas religiosas, científicas, ecológicas ou recreativas.

Todos sabem que o turismo pode ser depredatório. Latas, garrafas de plástico, lixo de todos os tipos, possibilidade de incêndios e o comportamento daqueles que não conseguem entender que o santuário deve ser preservado são algumas razões pelas quais as já citadas placas com regras de conduta estão espalhadas pelas cercanias das construções. Mas o perigo maior está por trás das serras.

O Caraça está no Quadrilátero Ferrífero, região rica em minerais e que atrai empresas extratoras desde o século XVIII. E, mesmo que o santuário seja protegido pelo Ibama desde 1994, a região sofre um impacto ambiental absurdo. O Caraça é praticamente uma ilha de verde cercada de mineradas por todos os lados. Por isso, o movimento em defesa da Serra do Caraça foi lançado. Preservar o Caraça é preservar arquitetura, fauna, flora e cultura. É, enfim, guardar o que esses padres tentam preservar e ensinar há séculos: humanidade.

Para conhecer mais: http://www.santuariodocaraca.com.br

Publicado em 16/08/2011

Publicado em 16 de agosto de 2011