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O professor na encruzilhada: entre estudantes e a instituição escolar

Lúcio Alves de Barros

Doutor em Ciências Humanas, professor da Faculdade de Educação da UEMG

A Justiça de Minas Gerais colocou fim na discussão jurídica sobre o assassinato do professor e mestre em educação física Kassio Vinicius Castro Gomes, de 39 anos. O estudante Amilton Loyola Caires, de 24 anos, foi considerado inimputável, com base em um laudo de sanidade mental que comprovou sua esquizofrenia. O crime aconteceu em dezembro de 2010, no Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix, considerado uma das mais tradicionais redes de ensino em Belo Horizonte. Explicar à família o desfecho da história será um problema, e não creio que a justificativa possa apagar o giz do quadro dramático que, certamente, não teve início naquela organização escolar. De todo modo, é bom sempre lembrar o acontecimento, não somente pela crueldade e pelo motivo torpe, mas principalmente devido aos inúmeros acontecimentos de violência(s) que vêm acontecendo nas escolas (públicas e privadas), faculdades e universidades. Um argumento me parece bastante forte.

Longe da esquizofrenia do garoto, há tempos assistimos ao descaso, à desvalorização e ao desrespeito com o professor. A mercantilização da educação, que inegavelmente levou o “curso superior” a muitos estudantes, não deixou de produzir efeitos perversos e inesperados. Como é próprio da natureza das relações de mercado, quem possui o capital pode pagar (quase) tudo. Dito de outra forma, caso o estudante faça parte daqueles que têm dinheiro em abundância e se interesse por um diploma de “nível superior” pode facilmente ser médico, advogado, engenheiro e tudo mais. E veja que somente citei as profissões que no passado eram consideradas nobres e que hoje também penam com sua banalização. Com a porta de entrada aberta, qualquer cachorro entra na igreja, e esse é o caso do ensino superior. Já não existe seleção: é preciso antes somente saber se o candidato à vaga pode realmente pagar a mensalidade. Se ele pode bancar o custeio e ainda mostrar que mantém o pagamento sem maiores dificuldades, o mercado cuida do resto.

Aparece aqui a figura potente do cliente, um ser flexível, líquido, medíocre, perigoso, cheio de desejos e poder que, devido ao dinheiro, faz questão de bradar a velha frase: “estou pagando”. E aqui se encontra uma grande barreira no campo da educação, formada por alunos novos e velhos que sabem o valor do capital e das relações que ele é capaz de tecer. E como fazer para reprovar um cliente/capital sem possibilidades de ser violentado simbolicamente ou pragmaticamente? Impossível!

O docente, diante do muro do mercado formado por várias vozes que colocam em xeque o professor, assiste atônito à sua perda de autoridade, do respeito e do equilíbrio emocional e torna-se questão de tempo para que sua economia psíquica termine em tristeza, cansaço, desilusão e desistência. E basta uma palavra, uma reflexão com base em anos de estudos e pesquisas ou uma chamada de atenção por causa de um celular ligado e uma conversa informal e lá se foi mais uma mercadoria que deve ser ensacada e colocada frente ao vendedor para sofrer a recauchutagem ou a imediata troca.

Esse cliente é perigoso; não importa se o docente tem família, história de vida, mérito no trabalho etc. O discente de hoje não quer colocar em prática os próprios esforços. Ele não busca o mérito e a excelência; busca o diploma – o canudo, como se diz – e pronto. E quem atrapalha esses estudantes/clientes? A mercadoria falante e romântica chamada professor, que decidiu não abrir mão de sua autoridade, sapiência, integridade, dignidade, anos de estudos, méritos e princípios éticos.

Esse muro do mercado de diplomas, no qual vemos o professor funcionar como cerca elétrica e cacos de vidro, que o cliente aluno tenta ultrapassar sem dificuldades, ainda sofre de outro problema. Como é de natureza do mercado, o "cliente tem sempre razão", e nesse caso nada como operar com a dúvida. Ao plantar a dúvida, raramente não aceita pelos gerentes, coordenadores, supervisores e diretores, os verdadeiros avatares do capital, o professor recebe a roupagem da culpabilidade que, em geral, é legitimada pelo aparelho autoritário e sem escrúpulos dos proprietários do mercado.

O que causa mal-estar talvez nem sejam os proprietários desses novos e velhos meios de produção de diplomas, mas os próprios docentes, que acabam dando uma de pequena burguesia e operando em desfavor daqueles que antes eram iguais. A dúvida colocada, construída, trabalhada e legitimada acaba em cansaço, em atos litigiosos, discussões, fofocas sem fim e muita tristeza e resignação. O docente, de mera cerca e caco de vidro passa pela incrível metamorfose de ser o único culpado de todas e das várias mazelas e problemas que ainda vão estourar em salas de aula. A educação definitivamente perdeu a essência do cuidado, do respeito ao outro, da diferença e da necessária emancipação humana na busca de mais e mais reconhecimento. Não deve ser por acaso que educadores reconhecidos já decretaram o fim da educação.

As relações sociais, latentes e manifestas, como a do caso do professor assassinado, no mercado educacional hoje são bem claras e só não percebe quem não deseja. De um lado, os estudantes, entendidos como clientes, observadores do marketing educacional e que buscam um local que lhes garantirá menores custos e maiores benefícios em busca do título. Afinal, estão pagando, e quanto mais barato, fácil e rápido melhor, não importando a qualidade e o conhecimento que se transformou em obstáculo na voz e nas ações pedagógicas levadas a efeito pelo professor. Do outro lado temos os proprietários dos estabelecimentos de ensino e de sua pequena guarda burguesa, não raramente composta por professores incumbidos da função de limpar a área, chamar a atenção dos "companheiros”, atender o cliente da melhor maneira possível, dar vida maior à dúvida quando jogada no ar, mostrar serviço forjado por ele mesmo e ganhar dinheiro como se dono ele também fosse da organização.

Nesse campo, abre-se mão dos regulamentos internos, das hierarquias tácitas e das formais. A ideia é legitimar um culpado, um herege, e nada melhor do que aquele que se encontra no meio do processo e que na verdade não passa de um apêndice da organização, que pode mudar quantas vezes quiser as peças do xadrez. Em geral, os professores não nadam contra a maré; a maioria observa o sofrimento do outro e espera sua caída. A desgraça alheia é o meio eficaz para que o igual se sinta melhor e com possibilidades de crescimento em um mercado que não é competitivo, é seletivo. E seletivo porque deve ficar nele somente os que conseguem navegar em tais relações sem que elas atinjam em cheio suas subjetividades. Essa seleção é socialmente produzida. Não adianta ser verdadeiro, competente, honesto, ter um currículo respeitável etc.

Em jogo está a manutenção da clientela, e não é por acaso que um dos problemas que as organizações do ensino privado vêm enfrentando é a evasão dos estudantes. Na economia essa questão é simples: com muitos clientes, mantêm-se altos os preços, inclusive o nível do professorado; com menos clientes, diminuem-se os preços e o nível de formação dos docentes. Na educação a lógica é a do entra qualquer um, mas não vão sair todos aqueles que entraram. E não saem não é porque não suportam a qualificação dos docentes ou o saber organizacional; é porque simplesmente não dão conta de pagar ou usaram do poder da clientela de buscar produtos sempre mais baratos e fáceis de achar no mercado.

De qualquer forma, na caixa-de-pandora em que se transformou a educação superior no Brasil, o docente se vê em uma encruzilhada tensa e perigosa. De um lado, muitos e muitos alunos, salas ainda lotadas e heterogêneas, nas quais não se tem sequer o tempo de saber o nome e a historia do estudante. A educação é em massa e certamente Henry Ford ficaria feliz em relação a isso. De outro lado, aparece a figura fantástica e fantasmagórica desse sujeito taylorista, capitão-do-mato e capataz encontrado no meio dos próprios professores, que – pelo menos na teoria – sofrem os mesmos constrangimentos. E a violência daqueles que nos é igual é sempre pior, pois eles sabem dos jogos, relações e mecanismos da profissão.

Não creio que a presente situação vá mudar tão cedo. Muito pelo contrário, as relações estão ficando mais tensas, e uma espécie de violência simbólica, de educação superior paranoica tem se forjado, porque o docente encarcerado no meio do mundo é como cego em meio a tiroteio. Vai tomar bala para todo lado; algumas perdidas, outras encontradas. Ele vai cair e como bêbado vai se levantar e continuar a buscar novos muros. Tudo termina quando no coração covardemente é cravada uma faca e sem forças ele cai, deixando-nos surpreendidos e à espera da próxima vítima.

Publicado em 16/08/2011

Publicado em 16 de agosto de 2011