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Viver pra quê? Qual é a meta? Uma reflexão sobre nossa herança ocidental contemporânea

Marlon Tomazella

Colocação do problema

O que nos move a continuar vivendo? O que faz com que ainda tenhamos vontade? Costuma-se afastar essas questões em prol das necessidades e vínculos que já se impuseram a nós no decorrer da vida, diante dos quais não há como voltar atrás e dos quais não há como se desvencilhar. Afastando-se essas perguntas, suspendendo-as, não criamos condições para lidar melhor com as crises pessoais em que inevitavelmente mergulhamos no decorrer de nossa história. Não encontrar possíveis respostas para essas perguntas – ainda que seja comum e recorrente –, é sintomático do quanto nos falta força criadora e apropriadora sobre nossas próprias vidas. Pois essa força sofre limitações: não controlamos o destino, as fatalidades nem a sorte. É comum ocorrer, por um lado, acomodamento ou resignação diante do estado das coisas; ou, por outro, insatisfação com características depressivas, de ansiedade e angústia, em intensidades que podem inviabilizar as elaborações necessárias para a identificação dos nossos desejos e a instrumentalização de meios para a sua busca e realização – sem contar a ocorrência dos dois: uma acomodação resignada com angústia e depressão, em que o sujeito não tem condições sequer de identificar a acomodação enquanto elemento participante – e até mesmo fundamental – da angústia.

Talvez vivamos na fatalidade da insatisfação, pois temos a tendência de praticar idealizações, ou seja, criar a ideia ou mesmo a imagem mais perfeita ou mais próxima da perfeição em relação àquilo que queremos. Por muitas vezes o problema se torna mais complexo, não conseguimos sequer ter clareza quanto ao que queremos e nos contentamos em seguir vivendo. É o que mais acontece, na verdade.

A necessidade de pensar e buscar agir de forma mais adequada e próxima daquilo que achamos que deve ser o melhor deve nos acompanhar no decorrer da vida; caso contrário, corremos o risco de nos rendermos ao banal, à falta de sentido, e convivermos com ela sem reclamar muito, sem muita intensidade nem aventura; ou tendo crises nocivas, tomando remédios psiquiátricos e fazendo intermináveis terapias. Esta reflexão não tem a intenção de ajudar ninguém, de dizer então o que fazemos com o inevitável da insatisfação que nos perseguirá – ainda que de diversos modos possíveis – até a nossa morte. Ela só pretende tentar pensar no porquê de as coisas serem assim, principalmente para nós, contemporâneos. Isso talvez, de forma indireta, possa ajudar.

Para esta reflexão quero dar os seguintes passos: primeiro, pensar sobre a origem do ser humano a partir de uma característica que o particulariza: sua incompletude. Depois, a partir da condição de ser uma espécie incompleta em sua constituição, fazer uma breve análise da história do Ocidente como uma história de idealizações que visaram suprir essa incompletude. E, por último, pensar em como a dificuldade dessa supressão se agrava nas condições históricas da contemporaneidade.

A origem

Diferentemente de todo o resto da natureza, não temos um percurso predeterminado pela natureza. O que temos de natural é o nosso corpo; somos seres orgânicos. Mas a diversidade de modos de estar no mundo é tão grande que percebemos as mesmas coisas de maneira singular, e essa singularidade do olhar faz com que algo que para um é objeto de repulsa para outro possa ser objeto de desejo. Recordo-me da sequência de livros Esferas, do alemão contemporâneo Peter Sloterdijk, que me possibilita o início desta reflexão sobre a incompletude fatal a que estamos destinados. Em um trecho de um dos três volumes das Esferas, o filósofo, fazendo uso de pesquisas arqueológicas, recorda o processo a partir do qual foi possível que o hominídeo se tornasse humano.

Nas estepes africanas, há mais de 150 mil anos, o hominídeo era uma espécie frágil entre as feras: não tinha força, nem garras, nem dentes afiados e grandes. Na disputa por comida, não tinha como lutar com os grandes predadores. Assim, fazia o que lhe era possível: além de coletar frutos e caçar pequenos animais, assistia ao ataque do grande predador à sua presa, esperava enquanto ela era devorada e o predador se saciava. Em seguida, o predador abandonava a presa e deixava o resto de carne, pelanca e osso. O homem, em sua origem muito nobre, comia então os restos da presa. Por conta da escassez de carne, ele passou a raspar os ossos restantes e descobriu que ali continha alimento: o tutano (ou, popularmente, a parte do boi que chamamos de mocotó). Esses ossos raspados até o miolo correspondem a dados arqueológicos. O tutano é praticamente pura proteína. Com o passar de gerações utilizando essa prática de alimentação, uma das consequências mais decisivas do excesso de consumo de proteína foi o progressivo crescimento do cérebro, que, por consequência, fez com que crescesse gradativamente o tamanho da cabeça dos novos hominídeos. Ou seja, no decorrer de gerações os bebês foram nascendo cada vez mais prematuros, para que fosse possível que eles saíssem da barriga da mãe, por conta de suas cabeças cada vez maiores. Até que se chegou à gestação que conhecemos, de nove meses, pois, segundo certas teorias científicas, o tempo de gestação originário desse pré-humano era de 21 meses. Desse modo, um elemento que caracterizaria originariamente o ser humano é a sua condição de nascer prematuro. A imensa cabeça dos bebês humanos em relação ao corpo teria aí sua explicação, assim como a necessidade de cuidados durante tantos anos para que o indivíduo da espécie adquira condições de buscar sozinho seus meios de vida. Pois, diferentemente das outras espécies, em que a autonomia dos recém-nascidos ocorre muito rapidamente, tudo acontece de forma muito diferente conosco: o bebê humano é o mais frágil dos bebês na natureza e é o que mais tempo persiste sendo bebê e criança. Continuemos essa reflexão sem Sloterdijk.

Como estratégias de vida que foram possíveis a partir do crescimento do cérebro, desenvolvemos habilidades que nos auxiliaram a não sermos extintos: desenvolvemos linguagem, para fazer o outro compreender o que precisamos e nos auxiliar naquilo que não temos condições de conseguir sozinhos. O desalento diante de nossas fragilidades e da violência da natureza nos fez buscar alguma justificativa para o sofrimento, pois passamos a demandar explicações para continuar tendo coragem; os instintos não bastavam mais para seguir adiante: criam-se os mitos e se diviniza a natureza. A animalidade em nós ainda tão viva causa horrores na relação entre os de nossa espécie; trata-se da tirania e do desejo de expansão do poder que estão presentes em tudo que é vivo, causando a necessidade de um mínimo consenso para conviver (ainda que imposto autoritariamente); cria-se alguma primeira tábua de leis para tentar regrar essa tão recente anomalia que era o humano: com isso, temos os princípios da moral. Não satisfeito em comer, se reproduzir e dormir, o homem passa a ter necessidade de memória, pois não pode se esquecer das palavras das quais ele depende para sobreviver nem dos mandamentos básicos a que ele deve obedecer para não ser punido pelo grupo, com dores, ostracismo ou até mesmo com a morte. A demanda por memória se vincula também à necessidade de narração do vivido. A mitologia é a narração de uma história por meio da fantasia solta para explicar os fenômenos naturais e os acontecimentos em geral. Mas mesmo antes dela o homem já se viu na necessidade de registrar por meio da imagem algo que ocorreu que lhe foi marcante, uma caça, um ritual, uma cópula. Gravando na pedra ou com algum tipo de corante, ele desenha, tenta reproduzir o real, quer imitar o ocorrido, carrega consigo a sua macaquice mimética originária, porém acrescentada de uma memória mais sólida e de instrumentos que passam a extrapolar a mera tentativa de narração e registro, passando a criar, por meio dos seus registros, o que não estava no real: ele passa a fazer arte.

Sua condição animal originária sofre de vez rompimento irreversível, e esse ser, anômalo em meio à natureza, desenvolve características e habilidades que não lhe são inatas; ele precisa aprender a ser humano, precisa aprender a conviver, a não dar ouvidos tão facilmente aos seus impulsos por satisfação animal, precisa aprender a ser essa novidade humana. É justamente essa novidade que se mantém aberta, que não é determinável: a pluralidade de caminhos de vida no âmbito humano é infinita; por não ser predeterminado por natureza, ele passa a ter necessidade de criar metas, inclusive para se reconhecer como alguma coisa em particular.

A pergunta pelo “que é humano” norteia a história da civilização ocidental e sempre esteve rodeada de ensaios, tentativas e experimentos para sua determinação que envolveram projetos de sociedades, religiões, morais, artes e distintas formas de busca pelo conhecimento. É nessa indeterminação que ainda vive a subjetividade contemporânea, só que numa situação de crise mais aguda. Para pensarmos no porquê do agravamento da crise, façamos primeiro uma análise histórica de alguns dos ideais que compuseram a civilização ocidental.

O Ocidente e a história de suas idealizações

Se olharmos pra trás, podemos citar, somente a título de ilustração, uma série de tentativas de estabelecer meios e fins para que de fato alcançássemos nossa destinação humana. Trata-se de uma história de idealizações, que podem ter as mais salutares ou prejudiciais consequências para a concretude da vida de povos e épocas, assim como de indivíduos. Quero fazer esta digressão para tocar na questão levantada no início: o que justifica uma vida individual, como lidar com a fatalidade da recorrência da insatisfação e suas variações, no tédio, na angústia ou depressão? Pois é por esse caminho que pretendo pensar no porquê desta nossa fatalidade.

Ao se pensar no projeto civilizatório da Grécia antiga, podemos, como exemplo, lembrar A República, de Platão, onde é traçado o projeto de constituição de uma sociedade perfeita, em que o lugar que cada um ocupasse dentro dela correspondesse à harmonia que deveria ocorrer entre as diferentes virtudes no interior da alma de cada um. Pensar num novo modo de sociedade torna necessário pensar um processo formativo dos indivíduos, para que eles compreendam a pertinência do projeto e identifiquem suas inclinações predominantes para poderem assumir o papel no interior da sociedade que mais lhes diga respeito. A partir da ideia do Bem, Platão norteia a finalidade de sua república; a identificação das oposições entre bem e mal seria um pressuposto para delinear os novos caminhos. A capacidade para essa determinação estaria vinculada ao poder do conhecimento que conseguiu realizar esse projeto e que deveria governar a nova sociedade. O governante deveria ser aquele que se encontrasse mais próximo do conhecimento mais perfeito sobre a verdade e essência das coisas, ou seja, quem legisla e quem governa deveria ser filósofo. A idealização de uma sociedade onde todos pudessem tomar parte na parcela que lhes cabe do bem comum teria como meta uma sociedade feliz, em que cada um pudesse ocupar um lugar necessário em seu interior, tendo consciência de que existe um logos, uma ordenação, um sentido que sustenta o porquê de as coisas serem assim.

Alguns séculos depois, o cristianismo exacerba a magnitude da idealização a partir da criação de uma justificativa para a vida terrena que residiria em outro lugar, num além-mundo, em que o sofrimento, componente inevitável da vida, não existisse. Ou seja, ao invés da criação de um projeto de vida e organização para a sociedade humana, assume-se a fatalidade do incorrigível desta vida com uma compensação após a morte, por meio da salvação da alma e da promessa da bem-aventurança eterna junto de Deus. A frágil consciência humana recebe um alívio diante de tantos fatos que apontam para a persistência da infelicidade e do sofrimento: suportemos esse martírio e esse vale de lágrimas, pois o reino de Deus seria justamente daqueles que sofrem, que são injustiçados e subjugados.

Na modernidade aparecem mudanças decisivas quanto à compreensão do humano, que passa pela primeira vez a ser compreendido como sujeito, como uma subjetividade autônoma e livre, capaz de conhecer por si mesmo e determinar seus atos de acordo com o aperfeiçoamento de sua capacidade de pensar e agir moralmente. Retoma-se o projeto de construir um presente e um futuro para o homem a partir de suas próprias capacidades, sem a dependência de instâncias sobrenaturais. O valor da capacidade humana de se autodeterminar passa a ser o lema do movimento chamado de Esclarecimento, vinculado ao desenvolvimento cognitivo que se desdobrasse em intervenção técnica no mundo para que o homem se apoderasse das forças da natureza para o seu desenvolvimento e progresso. Novamente o conhecimento e a moral são os pilares a partir dos quais se pensa ser possível cultivar o homem para que ele atinja sua plena realização.
Como forma de reivindicar outra perspectiva sobre o que constitui mais propriamente o humano, também no século XVIII, o Romantismo alemão salienta que seria uma maneira superficial e equivocada lidar com as aspirações humanas a partir dos pressupostos do Esclarecimento, pois o homem não atingiria sua plena realização sem o cultivo de seus sentimentos, desejos e inclinações imediatas. As chamadas “paixões” ganham no Romantismo um estatuto de importância talvez nunca antes conferido a elas. Seus porta-vozes não se contentam em escrever filosofia da forma tradicional; eles eram jovens apaixonados que faziam música, poesia, literatura e arte em geral. Criavam seus grupos a partir da identificação recíproca desse ideal, inauguravam um modo de pensar a partir de fragmentos, ao invés das exigências lógicas de qualquer caráter sistemático; vislumbravam no cultivo do amor e das paixões o ápice da realização da destinação humana, que deveria, acima de tudo, ser artista. Veneravam a natureza, as paisagens idílicas e o espírito das raízes culturais do seu povo. Mas esse entusiasmo literário não durou mais do que algumas décadas; a partir dele não era possível pensar num âmbito social e político, pois um dos seus pressupostos era uma postura anti-institucional que prezava acima de tudo o cultivo da individualidade.

É também na Modernidade que surgem as teorias políticas contratualistas, segundo as quais se pensa a possibilidade da sociedade a partir de um contrato originário que garantisse a cada um o que fosse seu. Nesse cenário se consuma a organização dos principais Estados nacionais europeus, para em seguida se estabelecerem as bases do liberalismo burguês em oposição ao antigo regime monárquico, em prol de um ideal de sociedade justa em que reinasse a igualdade, a liberdade e a fraternidade entre os homens – ideais estabelecidos a partir da postura tida como “esclarecida”, característica da modernidade.

No século XIX, o Idealismo alemão encarna talvez o ápice do engajamento da racionalidade para entender os processos históricos como um todo a partir de sua idealidade, ou seja, o ideal seria justamente o que está em processo, de forma concreta e efetiva, histórica, e que, ainda que com aparentes estagnações e retrocessos, visto de forma global, corresponderia à realização da Ideia, que envolveria o crescente desenvolvimento das relações humanas em prol de uma sociedade mais justa e para o contínuo desenvolvimento do conhecimento que fosse capaz de fazer compreender a necessidade histórica de todos os acontecimentos, para que, por meio de conflitos e contradições, a humanidade se mostrasse num caminho para o seu aperfeiçoamento. A história passa a ser vista como manifestação de um ordenamento que tende a se desdobrar e se aperfeiçoar.

É no século XIX que as Ciências Humanas alcançam sua autonomia, e o caráter cada vez mais especializado do conhecimento passa a prescindir de qualquer pretensão metafísica que dê conta de inserir os diversos âmbitos de atuação humana (não só no campo das ciências) no interior de uma totalidade que abrangesse as diferenças e apontasse para uma meta comum, de modo que os homens pudessem se identificar em meio a um processo provido de unidade e sentido.

O ideal comunista irrompe com toda a sua força nesse século, pois, por conta dos avanços técnicos e científicos que possibilitaram a Revolução Industrial, as formas de trabalho passaram a assumir características antes impensáveis, como a da tarefa e do lugar ocupado na sociedade pela figura do proletário. Criam-se as massas de miseráveis em cidades cada vez mais populosas em péssimas condições de trabalho, e com isso passa a haver a reivindicação pela criação de outra forma de sociedade, que fosse além da justiça pregada pelo programa burguês, pois o burguês é quem passou a enriquecer por meio da posse dos meios de produção e, a partir do livre mercado, expandiu seus negócios, ao mesmo tempo que mantinha o funcionamento das máquinas por meio de salários baixíssimos e da disseminação da pobreza. O comunismo levanta sua voz em busca de um novo ideal de sociedade pautado, acima de tudo, numa justiça social que se alicerçasse no reconhecimento que o sujeito tivesse de si a partir do seu próprio trabalho, ao invés de não se reconhecer nele, e se transformar numa das tantas engrenagens desumanizadas da máquina de produção do capital.

Nós, contemporâneos

É no final do século XIX que, em meio à especificação crescente das Ciências, surge a psicanálise; e com ela a compreensão de elementos sobre a subjetividade humana que não receberam (ou nem mesmo puderam receber) muita atenção no decorrer da tradição ocidental. Quando iniciei o retorno às origens para falar sobre o ente pré-humano, fiz uso de um filósofo atual, que está vivo, e que escreveu as Esferas no final do século XX, pois o pensamento sobre a origem animal do homem é algo razoavelmente novo na história do Ocidente, que sempre compreendeu a humanidade como um ente privilegiado por origem. Em geral, pensou-se na essência do homem, não a partir do ensaio de uma genealogia, como fez Sloterdijk, mas a partir de uma natureza previamente dada.

A identificação da presença do instinto na formação de nossas características psíquicas é um mérito de Freud, conquistado a partir de estudos e métodos que garantissem às suas pesquisas o único critério de legitimidade de um conhecimento no final do século XIX: a cientificidade. Para além da identificação do instinto, poderíamos, obviamente, de forma superficial e en passant, salientar o valor de traumas vivenciados pela perda de objetos de prazer, e de como boa parte deles pode interferir diretamente no comportamento e na personalidade do indivíduo, só que de forma, no mais das vezes, inconsciente. A identificação do poder do inconsciente abala as estruturas da longa história de autoidentificação do homem, pois suas características mais fundamentais sempre estiveram circunscritas à sua consciência. E, a partir do momento em que se atenta ao fato de que a maior parte dos fenômenos psíquicos não passa pelo estado de consciência, toda a concepção humanista que entendeu o homem como consciência responsável, moral e conhecedora sofre abalos irreversíveis.

Para além de Freud, a presença de pensadores como Nietzsche, por exemplo, atenta para o quanto a história da humanidade se pautou em ideais questionáveis para tentar se sustentar, para viabilizar a criação de um sentido. Mas na contemporaneidade não dá mais para encarar o universo como os gregos: um universo fechado em si mesmo, dotado de uma ordem intrínseca, de modo que o homem fosse visto ocupando um lugar adequado diante da natureza, em harmonia com ela, assumindo o seu lugar natural, e ao mesmo tempo, estabelecendo sua diferença originária. A visão de mundo cristã, que por muito tempo deu conta de prover a existência de sentido (ainda que desvalorizando-a em prol de outra prometida e melhor), perde sua força gradativamente, e o número de ateus e cristãos “não praticantes” cresce a cada dia, de modo que vivemos numa sociedade cada vez mais laicizada e sem o sagrado – sem contar obviamente as exceções do oportunismo de certas igrejas que surgiram recentemente, que fazem uso da miséria e desgraça alheia para angariar fiéis, de forma distinta da religião tradicional, em que os sacerdotes acreditam de fato na doutrina que pregam. Não há mais como defender a autossuficiência de um sujeito como o sujeito moderno a partir do momento que se pensa na vigência soberana de elementos inconscientes no interior de cada um. E muito menos na vigência de alguma racionalidade que compusesse a aparente confusão dos processos históricos.

No século XX as coisas pioram: as vanguardas artísticas do início do século, com suas obras absurdas e desfiguradas, apontam para a total perda de referências da humanidade em relação à sua própria história e às suas formas familiares de reconhecimento e identificação; duas guerras mundiais colocam em cheque todos os ideais humanistas que nortearam as sociedades ocidentais (a ponto de, em 1948, ser necessário redigir uma carta dos direitos humanos, depois de tanta desumanidade em escalas tão grandes); a economia se torna cada vez mais abstrata e complexa com a virtualização do capital nas bolsas de valores e do mercado financeiro, evidenciando-se suas deficiências nas crises internas ao próprio sistema de circulação e crescimento do capital, como a crise de 1929, a crise imobiliária de 2008 e as atuais, que assolam a União Europeia e os Estados Unidos. As formas de trabalho se transformam a tal ponto que se torna difícil a identificação de classes específicas, do modo como era possível para Marx. O rádio, a televisão e, mais recentemente, a internet transformam as relações humanas e familiares, dificultando a cultura humanista centrada na leitura dos clássicos e a possibilidade de uma racionalidade a partir da qual pudesse surgir consenso para a organização política, pois a manipulação da opinião pública por meio das diversas mídias e a invasão das casas com as informações mais contraditórias e distintas deixam margem para um sem-número de influências antes impensáveis na história da humanidade.

Em suma, vivemos numa época em que foram perdidos os fundamentos que, de alguma forma, sempre deram conta de sustentar o sentido da existência humana, identificando seu lugar e sua tarefa. Vivemos numa época em que as referências que sempre tiveram força para orientar as ações de nossos antepassados já não servem mais. Vivemos num momento de perigo, de crise, pois talvez nunca tenhamos tido um mar tão aberto. Mas o problema é que o excesso de possibilidades pode inviabilizar a ação, causar estagnação, perdição, vigência da banalidade. Uma justificação metafísica para explicar nossa condição de insatisfação não nos convence mais: não temos mais um logos pra ordenar a existência e lhe prover de sentido; não temos mais Deus, não temos mais sequer a nós mesmos com a segurança e confiança que os modernos tinham, de serem sujeitos íntegros, inteiros, autossuficientes. Somos resultado de crises irreversíveis, temos consciência da falta de metas da humanidade, da dependência de habilidades criativas oscilantes individuais para tentar dar sentido ao que escolhemos e fazemos; de que somos compostos em nossa maior parte por elementos que não estão ao alcance nossa consciência. Os grandes projetos de sociedade fracassaram. A religião e a moral não dão mais conta de garantir a segurança do nosso agir; temos que nos virar sozinhos, sabendo que não há certezas quanto a coisa alguma.

Por isso afirmei mais atrás que a condição contemporânea se agrava quanto à busca por sentido e à intensificação da vontade. E por isso as perguntas iniciais se repetem: se não há mais a esperança em algum grande projeto de sociedade; se não há mais a crença em alguma recompensa sobrenatural; se o mundo, ao invés de ordenado, é visto cada vez mais como um caos absurdo; se perdemos a solidez das sustentações e nos acercamos do abismo no qual, ao invés de recebermos alguma resposta, somente ouvimos o eco de nossas próprias vozes retornando da impessoalidade dos penhascos frios e de vales silenciosos, o que ainda pode nos motivar a continuar vivendo? O que pode nos prover de vontade? De desejo?

Toda essa retomada histórica, a meu ver, não é argumento suficiente para a diminuição do desejo. A crise de desejo é só uma das possibilidades de manifestação do niilismo que surge a partir da desilusão diante do mundo, que é característica da contemporaneidade: a sensação nostálgica pelo tempo em que havia um sentido prévio ao qual se segurar. Pois esse niilismo pode se expressar também de outra forma. Diante da total abertura de possibilidades, com a perda da terra firme, temos talvez, mais do que nunca, a possibilidade de realizar experimentos conosco que envolvem aventuras e desbravamento de mares nunca antes navegados. Chegamos ao ponto em que o que nos resta para continuar vivendo com desejo e amor pela vida é a consciência mesmo de que, independentemente do caminho que resolvermos trilhar, tratar-se-á de uma atitude criativa, inventiva, poética – no sentido de criação de formas – arriscada, incerta. Pois, se não há mais garantias de que tal ou tal caminho é certo ou não, estamos relegados (para o regozijo de uns e desespero de outros) a tal nível de experimentação, em que a consciência da finitude atinge uma magnitude que pode fazer com que nos apeguemos ainda mais à vida, pois assumimos a responsabilidade de fazer algo de significativo para nós mesmos durante estas breves décadas de vida antes de morrermos. Mas esse “algo significativo” agora já não precisa passar pelos macroprojetos de sociedades ou de salvação, pois “salvar-se” passa a significar, a meu ver, aprender a encarar a vida a partir do micro, da verdade das relações que estabelecemos, do valor dos nossos vínculos afetivos, do sentimento de prazer em descobrir ações que nos proporcionem significados pessoais, da coragem em abandonar projetos e criar novos em meio à busca por si mesmo, como criadores de valores próprios, de uma vida singular e, quem sabe, de obras que testemunhem a beleza trágica de nossa breve aventura numa época em que não existem mais consolos metafísicos que deem conta de nos justificar. Talvez as coisas possam mesmo ficar mais bonitas diante desse abandono e solidão transfigurados em criação e amor.

As idealizações continuam sendo uma fatalidade para nós; é inevitável. Mas pelo menos talvez possamos lidar de outra forma com elas, com a consciência de que, independentemente do que idealizarmos, trata-se de uma invenção, e não da exigência de respostas definitivas – as quais já não faz mais sentido exigir. Com isso talvez nos tornemos mais humildes quanto às pretensões de nossos anseios por satisfação e aprendamos a lidar com os altos a baixos dos graus da vontade de viver de forma um pouco mais serena.

Publicado em 16/08/2001

Publicado em 16 de agosto de 2011