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No trono da verdade

Mariana Cruz

A Escolástica foi uma tentativa de unir a Teologia ao pensamento dos filósofos clássicos – principalmente Platão e Aristóteles – feita pelas escolas eclesiásticas e universidades europeias, principalmente entre os séculos IX e XVII. Os escolásticos pretendiam dar embasamento filosófico às verdades reveladas nas Sagradas Escrituras e em outros dogmas cristãos. Naquela época, a mensagem do cristianismo, cada vez mais crescente, pregava a igualdade entre os homens. Tal mudança de mentalidade teve como característica a universalização do cristianismo, facilitado pelo aprendizado da língua grega pelos diversos povos, como judeus, cristãos e palestinos. Tal processo é apenas o ponto alto da expansão desse idioma. Bem antes disso, porém, entre o terceiro e o primeiro século a. C., em Alexandria, foi feita a “Versão do 70”, como ficou conhecida a tradução da Bíblia hebraica para o grego, realizada por setenta e dois rabinos considerados sábios.

Com a Escolástica, o cristianismo tornou-se cada vez mais forte e começou a haver uma inversão: os cristãos, antes perseguidos, passaram a ser os perseguidores dos não-cristãos. Até aí nada de se estranhar, pois toda religião em ascensão tem como objetivo arrebanhar o maior número de adeptos para que assim ganhe cada vez mais poder. Tal traço dogmático é característico da maioria das religiões, não apenas do cristianismo – exceto as religiões do Extremo Oriente, como o hinduísmo, pois estas não pretendem impor seu Deus a todos, não se pretendem universais. A imposição de uma verdade parece ser uma característica da nossa civilização: expandir e dominar. É um progresso com o objetivo de dominação do real, que faz com que outras dimensões do real sejam marginalizadas.

Nessa tentativa de fusão entre Filosofia e religião talvez já seja possível detectar o embrião do que hoje acontece quando, para falar sobre qualquer coisa, há que se ter uma base científica. Se antes a filosofia era usada para fundamentar o discurso religioso, hoje a ciência é a bola da vez, utilizada para fundamentar toda e qualquer forma de saber.

O poder outrora exercido pela religião hoje é exercido pela ciência. A nova ordem mundial está sob o comando da ciência e da tecnologia. Assim como acontecia como os dogmas da Igreja Católica na Idade Média, as verdades científicas também não são postas em dúvida. Aquele que o faz não é levado a sério, sendo muitas vezes taxado de irracional. Qualquer nova teoria só é considerada crível se for “cientificamente comprovada”. Tal eficácia ligada à modernização relega o lado humano e todas as “humanidades” ao segundo plano.

Nesse cenário, também a arte é colocada como algo pertencente ao campo da vida privada, pois esta não tem a técnica como prioridade, apenas a utiliza como forma de viabilizar a criação. No mundo atual tudo está voltado para o sucesso técnico. Soa como se tivesse ocorrido um segundo desencantamento (o primeiro teria ocorrido com a extinção da magia, da mística, pela racionalidade); é isso que o sociólogo Max Weber denomina dessacralização. A tecnociência passa a ter importância fundamental na organização da sociedade; os conhecimentos científicos constituem representações daquilo que é possível fazer. Quando uma decisão é iluminada pela ciência, torna-se inquestionável; é uma nova forma de fazer valer o poder autoritário sem que seja necessário utilizar a violência, como muitas vezes a religião outrora lançava mão, condenando à morte aqueles que ousavam ir contra seus dogmas.

As “verdades científicas” do mundo moderno são divulgadas nos meios de comunicação; estes, por sua vez, acabam sendo vistos também como porta-vozes da verdade. Os saberes científicos influenciam determinantemente as decisões a serem tomadas, tanto nos campos políticos e éticos como na vida privada. E aí cabe a pergunta: teria a ciência o direito de ditar o que devemos fazer em todos os níveis, assim como a religião em tempos passados? Praticamente tudo é ditado pela ciência, até as coisas mais simples do nosso dia a dia: o nutricionista diz o que se deve comer, o pediatra nos ensina como cuidar dos nossos filhos; a Psiquiatria mostra o que é ser uma pessoa normal. Levando tal atitude ao extremo, poderíamos questionar a possibilidade de as ciências acabarem com a arbitrariedade de nossas decisões, uma vez que elas introduzem a lógica da necessidade.

O mundo está inserido no domínio da política científica, o que faz com que todas as decisões sejam tomadas visando somente ao favorecimento do progresso científico. Com isso surgem incrementos de recursos para desenvolver cada vez mais as ciências. As decisões políticas são tomadas em nome da ciência. É a chamada política pela ciência.

Antes era a religião, agora a ciência; quem será o próximo a se sentar no trono da verdade?

Publicado em 23/08/2011

Publicado em 23 de agosto de 2011