Este trabalho foi recuperado de uma versão anterior da revista Educação Pública. Por isso, talvez você encontre nele algum problema de formatação ou links defeituosos. Se for o caso, por favor, escreva para nosso email (educacaopublica@cecierj.edu.br) para providenciarmos o reparo.

Considerações sobre o conto Singular Ocorrência, de Machado de Assis

Carolina Natale Toti

Para levantar uma abordagem possível a respeito do conto Singular Ocorrência – publicado no livro Histórias sem data (1884), três anos depois de Memórias Póstumas de Brás Cubas –, consideramos a proposição de que a chamada segunda fase de Machado – à qual pertence o conto referido – pode se caracterizar por um “desenvolvimento em direção ao pirronismo” (Maia Neto, 2007, p. 22). Buscamos perceber em que medida Singular Ocorrência pode ser compreendido a partir das considerações críticas do ponto de vista cético.

O pensamento cético

Sexto Empírico considera o ceticismo como uma análise antidogmática, um exame de princípios estabilizados, de proposições que se querem verdadeiras sobre a natureza ou essência das coisas. Não se trata de um conjunto de normas que regem a disposição do cético. Para Sexto, o cético não adere nem mesmo ao próprio argumento, “devido à equipolência dos objetos e razões assim contrapostas” (apud Neto, 2007, p. 15). Considera que tanto o argumento que refuta quanto o que é refutado são persuasivos, e por isso os abandona, não alcançando nenhuma espécie de conclusão – nem que afirme certezas e nem que desminta certezas:

A trajetória do pirrônico difere da do dogmático pelo fato de sua investigação (zetesis) não levá-lo a uma doutrina, mas a uma equipolência. Incapaz de escolher entre uma doutrina e sua contrária, o pirrônico suspende o juízo (epoche) e inesperadamente alcança a tranquilidade (ataraxia) que inicialmente pensava encontrar na descoberta da verdade.
(Neto, 2007, p. 16)

Dos vários argumentos céticos de Enesidemo apresentados na obra de Sexto, ressaltamos os mais pertinentes ao propósito deste artigo: o pirrônico enfatiza a suscetibilidade dos órgãos sensoriais – estes variam não somente conforme as distinções naturais de cada indivíduo, mas também conforme as diferentes situações em que se encontram, as oscilações de temperamento, a idade, a disposição física e intelectual. Outro argumento refere-se à transformação de tudo que existe conforme épocas e culturas distintas, sejam dogmas, costumes, ou estruturas sociais. A identidade das coisas parece se caracterizar precisamente pela variação, pela incerteza: “nada de certo se pode estabelecer entre nós mesmos e o que se situa fora de nós, estando tanto o juiz como o julgado em perpétua transformação e movimento” (Montaigne, 1972, p. 281). Essa transformação permanente de todas as coisas invalida o estabelecimento de princípios estáveis, de quaisquer juízos fixos e tampouco verdadeiros: “Nossa razão é sempre iludida pela inconstância das aparências” (Pascal, 1999, p. 47). Estas considerações não implicam uma suspensão generalizada do juízo. O cético não pode negar a percepção de seus sentidos, as aparências das coisas, mas salienta os limites sensoriais dos homens quando, pretensiosamente, tentam desvelar a essência dos seres. Compreende que quaisquer afirmações não expressam um conhecimento sobre a realidade, mas apenas constituem uma descrição das aparências – levando-se em conta a falibilidade dos sentidos para essa descrição.

O narrador-personagem

Tudo que o leitor sabe sobre o ocorrido é contado a partir de um único ponto de vista: o do narrador, que, num diálogo informal dado ao acaso numa esquina com um amigo, resolve contar-lhe “uma coisa interessante” – um evento acontecido há mais de uma década, recordado naquele momento pela passagem de Marocas. A narrativa é uma rememoração de um fato já refletido. O foco restritivo do narrador, em primeira pessoa, inserido num diálogo, enredado na história que relembra, é o suficiente para condicionar a versão do caso, apresentando uma perspectiva parcial e limitada, implicando inevitavelmente “uma relação problemática com a verdade” (Maia Neto, 2007, p. 27). Esse dado é importante porque, se considerarmos que os problemas que estruturam o conto tratam da impossibilidade de explicar um fato, o foco restrito, condicionado e enviesado do narrador é fundamental para a constituição dessa problemática. Tudo na história parece arranjado para acentuar a opacidade do fato, para recrudescer as condições que impossibilitam o conhecimento objetivo da situação, restando apenas pontos de vista subjetivos, relativos à disposição momentânea de cada um, como numa representação das restrições cognitivas humanas. Observaremos os obstáculos que impedem o alcance de uma suposta verdade objetiva. O narrador conta um caso de um amigo seu, o Andrade, num relacionamento extraconjugal com Marocas. Interessado na circunstância que considera inexplicável, o narrador induz o leitor a endossar seu ponto de vista.

“Maria de tal” e “Meio advogado, meio político”

O status social de Andrade é radicalmente distinto do de Marocas. Nascido em Alagoas, de família abastada, chegou já casado ao Rio de Janeiro, em 1859. O narrador conta que certo dia Andrade estava parado em frente a uma loja e, ao ver uma bela mulher, se alvoroçou “porque ele tinha em alto grau a paixão das mulheres” (Assis, 2007, p. 205). Essa moça era Marocas; ela se aproximou de Andrade e, sendo analfabeta, “envergonhada e a medo” (Assis, 2007, p. 205) pediu a este que lhe indicasse o local informado no papel que trazia consigo. Ele a orientou, ela agradeceu e se foi. Na mesma noite, estavam no mesmo ginásio para ver a Dama das Camélias: “Não lhe digo nada; no fim de quinze dias amavam-se loucamente” (Assis, 2007, p. 205). Marocas passou a viver exclusivamente para o Andrade; abandonou os clientes, só se interessava pelo amante e por mais nada. Este a ensinou a ler. Ao juízo do narrador, ela aprendeu rápido, dentre outros motivos, pelo “gosto de obedecer a um desejo dele, de lhe ser agradável” (Assis, 2007, p. 206). Essa passagem, enfatizando o prazer na submissão, além de deixar claro “o próprio discurso estruturado nas entranhas da classe social” (Roncari, 2000, p. 145), faz recordar as Memórias Póstumas de Brás Cubas, mais precisamente o capítulo Orgulho da Servilidade, no qual Quincas Borba explica, conforme sua filosofia humanitista, que os criados se glorificam em servir ao senhor.

No dia de São João, Andrade se retira durante dois dias à Gávea para comemorar a festa com sua família. Marocas ficará sozinha, como ela mesma disse, jantando com um retrato de Andrade, relembrando a situação de Dama das Camélias. A esta imagem especialmente deprimente traçada pela moça, segue-se outra muito significativa. Após falar do comentário desolado de Marocas sobre o jantar com um retrato, o narrador continua:

– Este dito ia-lhe rendendo um beijo; o Andrade chegou a inclinar-se; ela, porém, vendo que eu estava ali, afastou-o delicadamente com a mão.
– Gosto desse gesto.
– Ele não gostou menos. Pegou-lhe na cabeça com ambas as mãos, e, paternalmente, pingou-lhe o beijo na testa. Seguimos para a Gávea.
(Assis, 2007, p. 206)

A admiração e o deleite sentidos pelos homens diante do pudor e do recato feminino envolvem relações tradicionais de poder. O interlocutor afirma seu gosto pelo gesto pudico da mulher antes mesmo que o narrador comente que Andrade também gostou. O beijo paternal que se segue reforça a posição de domínio; e a saída imediata para a Gávea, seguida pela conversa entusiasmada de Andrade com o narrador, deixa ver a disparidade entre as situações dos amantes; ela, solitária, submissa e pobre, vendo o homem por quem se apaixonou relegando-a para um plano inferior e saindo para festejar e se fartar sossegadamente com a família oficial, gozando de seu status, de sua esposa, filha e amigos. Decerto o que Andrade esperava de Marocas era nada menos do que resignação.

Dão-se os festejos; Andrade retorna e, já no escritório, aparece Leandro, um homem definido como “reles e vadio. Vivia a explorar os amigos do antigo patrão” (Assis, 2007, p. 207). Leandro queria dinheiro; o advogado lhe dá e, percebendo um entusiasmo incomum no primeiro, pergunta o motivo. “O Leandro piscou os olhos e lambeu os beiços: o Andrade, que dava o cavaco por anedotas eróticas, perguntou-lhe se eram amores” (Assis, 2007, p. 207). O primeiro confirma e começa a contar o que se passou: na noite de São João, encontrou na rua uma moça que se aproximou dele e o olhou “com tal instância, que ele chegou a atrever-se um pouco; ela atreveu-se o resto” (Assis, 2007, p. 207). Ele faz comentários elogiosos sobre a moça e sua casa, incentivando Andrade a conhecê-las. Andrade demonstra indiferença e, diante disso, Leandro insiste e lhe diz o endereço da casa. Tratava-se de Marocas.

“Tão atordoado, que muita coisa lhe escapou”

Andrade perde a razão, ficando completamente desnorteado; “não soube o que fez nem o que disse durante os primeiros minutos, nem o que pensou nem o que sentiu” (Assis, 2007, p. 208). Até que consegue perguntar se Leandro dizia a verdade, “mas o outro advertiu que não tinha nenhuma necessidade de inventar semelhante coisa; vendo, porém, o alvoroço do Andrade, pediu-lhe segredo, dizendo que ele, pela sua parte, era discreto” (Assis, 2007, p. 208). Será mesmo que Leandro “não tinha necessidade de inventar” essa “anedota erótica”? Não se poderia imaginar que o relato não passou de algumas fantasias de um “pobre diabo”? O amante propõe então vinte mil-réis a Leandro para que este o acompanhe até a casa da moça e confesse diante dela o que acabara de contar. Este aceita a proposta; ambos vão até a casa de Marocas; Andrade percebe que ela empalidece ao ver o outro. “– É esta senhora? perguntou ele. – Sim, senhor, murmurou o Leandro” (Assis, 2007, p. 208). O amante paga imediatamente o “pobre diabo” e o manda sair.

A cena que se seguiu, foi breve, mas dramática. Não a soube inteiramente, porque o próprio Andrade é que me contou tudo, e, naturalmente, estava tão atordoado que muita coisa lhe escapou. Ela não confessou nada; mas estava fora de si.
(Assis, 2007, p. 208)

Após esta “verdade comprada por ‘vinte mil-réis’” (Roncari, 2000, p. 150), ao leitor é impossível saber o que realmente se passou. O narrador mesmo afirma não saber, admite seu ponto de vista restrito, uma vez que nem o próprio Andrade soube, “tão atordoado” que estava, “muita coisa lhe escapou”; de Marocas, tão “fora de si” quanto o amante, o leitor sabe apenas que “não confessou nada”. Este momento remete diretamente a um dos problemas levantados pelos céticos: a intervenção do temperamento na capacidade dos sentidos. Como o juízo se forma somente a partir da apreensão dos órgãos sensoriais, uma vez que a capacidade dos sentidos tem limite e que a disposição deles varia e se conturba conforme os diversos estados físicos e subjetivos, resulta daí que não há conhecimento objetivo sobre as coisas; há antes representações relativas. Nessa passagem do conto, os estados subjetivos de Andrade e Marocas são de tal forma levados ao limite que a situação acaba por escapar até mesmo à memória. É um momento em que tudo foge à razão; ninguém sabe o que se passou e não há modos de sabê-lo. As opiniões acabam relativizadas. “Sexto Empírico observa que o juízo varia em função de predisposições tais como ‘ódio ou amor... confiança ou medo, tristeza ou alegria’” (Maia Neto, 2007, p. 154). O narrador diz que Andrade insultou Marocas e saiu, enquanto esta se atirou ao chão ameaçando se matar. Essa atitude de Andrade supõe que ele estava convicto da traição. Mas ele não dispunha de provas concretas do fato; apenas deixou-se guiar pela aparência pálida da amante quando ela viu o Leandro, além, é claro, da confissão deste. Esse consentimento nas aparências é outra das questões colocadas pelo ceticismo: o cético não nega o que seus sentidos percebem, mas considera que os limites deles inviabilizam qualquer conhecimento verdadeiro, seja sobre a aparência, seja especialmente sobre a essência. Andrade viu Marocas empalidecer – a aparência indica uma hipótese, mas nada prova, tanto que a perturbação do amante não termina aí; ele permanece conjeturando diversas possibilidades que ora afirmam, ora negam o fato.

O narrador acredita na traição de Marocas: “como duvidar, se ele tivera a precaução de levar a prova até a evidência?” (Assis, 2007, p. 209). Enquanto Andrade se martiriza, insatisfeito com as aparências, tentando ultrapassá-las, na expectativa de descobrir a verdade, hesitando transtornado entre inúmeras possibilidades imagináveis. Essa agitação é o ponto de partida da trajetória pirrônica (zetesis) – algo vivenciado também pelo dogmático, com a diferença de que o primeiro não chega à verdade, enquanto o segundo julga encontrá-la, sendo por isto mesmo chamado dogmático (Maia Neto, 2007, p. 16).

Do furor passou à duvida; chegou a imaginar que Marocas, com o fim de o experimentar, inventara o artifício e pagara ao Leandro para vir dizer-lhe aquilo (...). E agarrado a esta inverossimilhança, tentava fugir à realidade.
(Assis, 2007, p. 209)

O que o narrador chama de realidade é apenas sua opinião. O que ele concebe como “inverossimilhança” é, nesse momento, a realidade de Andrade. As perspectivas permanecem relativizadas. O narrador “cogitava na aventura, sem atinar com a explicação” (Assis, 2007, p. 209). O interlocutor interpreta o ato como “nostalgia da lama”. Esta última explicação pressupõe uma noção tradicional de identidade, baseada na constância, na permanência. Andrade havia regenerado Marocas, eximindo-a da prostituição e do analfabetismo. Tudo parecia convergir para uma reabilitação moral: o recato, a paixão sincera pelo amante, a resignação normal das mulheres; nada presumiria uma traição, “a não ser a comprovação mais uma vez da determinação férrea de uma crença arcaica que fundava o preconceito: a de que ninguém foge à sua origem” (Roncari, 2000, p. 148). É interessante perceber que o narrador, que somente “cogitava na aventura, sem atinar com a explicação”, discorda da “nostalgia da lama”. Voltaremos a isto.

Marocas, desolada, desaparece. Sua criada, apreensiva, procura Andrade para tentar encontrar a moça. Muito se procurou, mas nenhum vestígio apareceu. A última referência do narrador às conjeturas perturbadas (zetesis) de Andrade não indica que o amante chegou a alguma conclusão, mas sim que as opiniões variavam conforme o estado emocional: “depois tornava a afirmar a aventura, e provava-me que era verdadeira, com o mesmo ardor que na véspera tentara provar que era falsa; o que ele queria era acomodar a realidade ao sentimento da ocasião” (Assis, 2007, p. 210). Aqui o narrador afirma, do mesmo modo que o ceticismo, a debilidade da razão ante as variações do temperamento, percebendo o quanto o estado subjetivo do amante estava preponderando sobre qualquer tentativa de julgamento objetivo. Os sentimentos controlavam a realidade – conforme eles se alteravam, a realidade assumia nova feição. Não há realidade, as perspectivas sobre uma mesma situação se relativizam não somente de pessoa para pessoa, mas, como no caso de Andrade, de sentimento para sentimento.

Após receberem notícias sobre o possível paradeiro de Marocas, Andrade e o narrador a descobrem em uma hospedaria. O interlocutor pergunta se houve explicação; o narrador diz: “– Coisa nenhuma. Nenhum deles tornou ao assunto; livres de um naufrágio, não quiseram saber nada da tempestade que os meteu a pique. A reconciliação fez-se depressa” (Assis, 2007, p. 210). Talvez seja possível conjeturar que Andrade sofre aqui uma crise cética, pois parece percorrer ao menos um esboço da trajetória pirrônica: primeiro fica perturbado entre várias hipóteses (zetesis); depois, sem chegar a nenhuma conclusão, encontra Marocas e suspende todas as conjeturas (epoche), abandonando suas aflições (ataraxia).

Andrade comprou uma casa para Marocas e teve um filho com a moça. A criança “morreu de dois anos” (Assis, 2007, p. 210) e o pai faleceu depois. A mãe, por sua vez, se reputou viúva. O narrador indaga a opinião do interlocutor sobre o fato. Este, assumindo uma opinião comum, preconceituosa e dogmática, aposta na “nostalgia da lama”. O narrador discorda, afirmando que “nunca a Marocas descera até os Leandros” (Assis, 2007, p. 211). O outro lhe pergunta então por que ela o fizera naquela noite. A explicação do narrador se refere precisamente ao porquê ter acontecido logo com o Leandro: “Era um homem que ela supunha separado, por um abismo, de todas as suas relações pessoais; daí a confiança” (Assis, 2007, p. 211). Mas, em relação à causa, à razão do ato, ele segue cogitando “na aventura, sem atinar com a explicação”. Deste modo, pode-se dizer que o narrador, apesar de acreditar na traição de Marocas, parece traçar alguns contornos gerais do pensamento cético: primeiro porque ele se limita a cogitar, a refletir, a imaginar que se trata de uma “aventura”, sem “atinar”, isto é, sem encontrar pelo conhecimento, pelo juízo, alguma “explicação”, deixando, desta forma, de julgar. Depois porque afirma os limites cognitivos de Andrade, percebendo como este construía a realidade conforme as oscilações dos sentimentos. Assim, ele não só reconhece os limites do próprio conhecimento, abdicando do juízo e se limitando a cogitar, como também problematiza a objetividade do julgamento de Andrade (sujeito), da mesma forma que a inteligibilidade de Marocas (objeto).

Marocas parece representar sobretudo a condição de que “o que há de mais profundo em nós é no fim de contas a opinião dos outros” (Candido, 1970, p. 27) – sendo esta mais uma das considerações céticas, uma vez que aponta para o problema da percepção subjetiva “dos outros” e da opacidade do “que há de mais profundo em nós”. A subjetividade da percepção de Andrade, somada à opacidade de Marocas, resulta na redução da moça a uma mera opinião. Marocas traiu o Andrade? Se sim, por quê? O que pensava naquele momento? O que sentia? Quem sabe a verdade sobre a atitude de Marocas? Andrade, que até perdeu o rumo e não chegou a nenhuma conclusão? Leandro, que foi pago para confirmar? O narrador, que cogitava na aventura? O interlocutor, que acreditava na “nostalgia da lama”? Trata-se de intrincada discussão, também levantada pelos céticos, sobre a impossibilidade de ultrapassar as aparências, de arrancar as máscaras e alcançar a face, a essência. Esses problemas, que buscam descobrir a verdade sobre o que aconteceu, a essência do ato de Marocas, acham-se cercados pelos limites do conhecimento.

Podemos talvez conjeturar que, em Singular Ocorrência, o estranhamento dos personagens diante do ato de Marocas decorre antes de uma moral patriarcal que percebe seus costumes desestabilizados – esperava-se naturalmente a resignação da moça; mas ela não se resignou –; aparece assim uma fenda, uma quebra no que até então era considerado natural (resignação). De súbito percebe-se que o natural, ou, mais precisamente, o que é concebido como natural, não passa de um costume, sujeito a transgressões, desvios e variações. Esse conto parece mostrar que, uma vez rompido um dogma – a moral patriarcal estabelecida –, o que se suscita é uma gestação, um esboço de uma reflexão cética, pois é justamente com a variação dos dogmas que o ceticismo se preocupa. O problema da natureza como costume remete ao pensamento antidogmático de Pascal: “Temo que tal natureza não seja ela própria nada além de um primeiro hábito” (Pascal, 1999, p. 57). Se a natureza é um hábito, se o que se acreditava permanente se mostra incerto e volúvel, percebemos a instabilidade, a incerteza, a falta de fundamento fixo ou o vazio próprio da existência, o que afirma os limites do conhecimento. O ato de Marocas não se deixa alcançar por qualquer explicação, do mesmo modo que toda a existência, em sua instabilidade, nos escapa e não se deixa fixar para qualquer apreensão.

Uma possibilidade

O conto mostra uma perspectiva dogmática que, vendo suas verdades estilhaçadas, fica perplexa, não consegue explicar e estranha a situação. Poderíamos aqui, muito brevemente – apenas para suscitar um problema que, se aprofundado, renderia outro artigo –, conjeturar uma possível perspectiva antidogmática sobre o ato de Marocas, tendo por base o pensamento de Montaigne.

Ante de tudo, é preciso ter em mente a compreensão de Montaigne sobre a falta de fundamento, o vazio da existência, dada sua instabilidade e indeterminação. Pelo narrador sabemos muito pouco sobre a condição de Marocas, mas o suficiente para perceber que se tratava da escória da sociedade: pobre, analfabeta, prostituída, sozinha, sem família. O que certamente não faltava em sua vida era a instabilidade, a ausência, o nada, o vazio, “vazio que o quadro do amante na parede não preenchia” (Roncari, 2000, p. 152). Marocas nada possuía além de seu próprio corpo. Ora, se ela de fato, naquela noite em que o nada predominava, estando absolutamente só, inquieta e insatisfeita, entregou-se a um homem qualquer, não fez nada além do que fala Starobinski, referindo-se ao pensamento de Montaigne:

Esse nada é ao menos nosso; é nosso corpo, atravessado de prazeres e de alegrias, atacado de doenças e de dores. Sabores se oferecem a nós continuamente, e seríamos tolos se não os aceitássemos e não os experimentássemos. (...) O consentimento ao nada da existência nos permite gozar de toda presença que nos aparece.
(Starobinski, 1992, p. 86)

Se não podemos estabilizar, apreender e controlar o curso da existência – se este nos escapa a todo instante e nada nos deixa, indiferente às nossas necessidades –, o melhor a fazer é nos entregarmos ao que temos: o corpo, o sensível, o aparente. “A lição do ceticismo, para ele [Montaigne], é precisamente o retorno às aparências” (Starobinski, 1992, p. 86). Se Marocas realmente traiu, ela tinha bons motivos para isso. Essa moça vivenciava todas as desgraças de ser mulher e pobre, inserida numa sociedade patriarcal, com tudo que isso acarreta de vulnerabilidade, de instabilidade e de vazio; e, sobretudo, nada possuía além do próprio corpo. Se “o consentimento ao nada da existência nos permite gozar de toda presença que nos aparece”, podemos supor que talvez Marocas tenha consentido em sua própria nulidade, entregando-se ao deleite do que lhe apareceu. E, afinal, por que não poderia ter ela “em alto grau a paixão” dos homens?

A admissão de que se dispõe unicamente da aparência, ligada ao abandono de toda pretensão de alcançar a essência, culmina, em Montaigne, nesta “lição” da entrega às aparências. Desse modo, deixa-se de buscar uma face atrás da máscara, ou melhor, as noções de máscara/face se perdem, já que se admite que o que temos é somente a aparência:

uma das grandes novidades do Machado de Assis é a ausência de uma cara atrás da máscara. (...) As aparências satisfazem. Isso conta na questão da referência aos moralistas dos séculos XVII e XVIII. (...) No limite, a máscara poderia desaparecer, e apareceria a verdade. Em Machado de Assis, não. Existem relações mais sofridas ou mais felizes com as aparências, mas estas não se suprimem. Em lugar do desmascaramento, uma contabilidade imparcial dos prazeres e desprazeres das diferentes relações com as aparências, o que era e é moderníssimo.
(Schwarz, 1982, p. 334-335)

Dessa perspectiva, um pensamento cético certamente não se preocuparia em desmascarar Marocas, porque não presume nenhuma verdade encoberta passível de revelação. Talvez apenas admitisse o aparente: um corpo entregue às vãs possibilidades de si mesmo. É possível que o ceticismo seja percebido nesse conto como uma reflexão antidogmática, uma demonstração da falência e da insuficiência das pretensões dos dogmas de uma moral, além de uma representação dos limites do conhecimento e da vaidade da nossa condição.

Referências

ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Abril Cultural, 1978.

ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Singular Ocorrência. In: ASSIS, Joaquim Maria Machado de. 50 contos de Machado de Assis. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

CANDIDO, Antonio. Esquema de Machado de Assis. In: CANDIDO, Antonio. Vários escritos. São Paulo: Duas Cidades, 1970.

MONTAIGNE, Michel de. Ensaios. São Paulo: Abril Cultural, 1972.

MAIA NETO, José Raimundo. O ceticismo na obra de Machado de Assis. São Paulo: Annablume, 2007.

PASCAL, Blaise. Pensamentos. São Paulo: Abril Cultural, 1999.

RONCARI, Luiz. Ficção e história: o espelho transparente de Machado de Assis. In: Teresa: revista de Literatura Brasileira, [1/1]; São Paulo, p.139-154, 2000.

SCHWARZ, Roberto. Mesa-redonda. In: BOSI, Alfredo (Org.). Machado de Assis. São Paulo: Ática, 1982. Coleção Escritores Brasileiros: Antologia e Estudos, 1.

STAROBINSKI, Jean. Montaigne em movimento. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

Publicado em 13/09/2011.

Publicado em 13 de setembro de 2011