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Uma educadora carioca em Portugal

Jussara Santos Pimenta

Doutora em Educação (UERJ), Mestre em Educação (PUC-Rio-2001)

No dia 16 de setembro de 1934 os editores do A Nação informavam aos leitores a próxima viagem que Cecília Meireles e o marido Fernando Correia Dias fariam ao Velho Mundo. Segundo eles, os leitores ficariam privados da colaboração do artista português, que era considerado um dos mais representativos vultos da cultura artística da época. Quanto a Cecília, era apontada como uma das mais brilhantes intelectuais brasileiras. Destacavam a sua individualidade singular no cenário da literatura moderna brasileira, a sua espontaneidade altiva e profunda, a sua cultura invulgar, a capacidade que demonstrava em permanecer ela-própria e de procurar sozinha o seu caminho num país em que os maiores homens se limitavam a mendigar a cultura estrangeira, julgando-se tanto maiores quanto mais semelhantes aos seus modelos escolhidos. Cecília, afirmavam, fugindo ao grande-público, evitava a glorificação fácil da mediocridade feita-multidão e, além de ser ainda escritora de mérito, era também uma educadora, com relevantes serviços prestados à educação.

Atuante nos círculos literários e educacionais dos anos 1930, Cecília foi presença marcante em publicações como Árvore Nova, Terra de Sol e Festa, Diário de Notícias, A Manhã e A Nação. Sua produção literária e pedagógica incluía obras como Espectros, Nunca mais... Poema dos poemas e Baladas para El-Rei, Criança, meu amor e O espírito vitorioso.Era responsável pela criação da primeira biblioteca infantil brasileira, no Pavilhão Mourisco; ao lado dos educadores Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo e Lourenço Filho assinou o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova. Toda essa atuação fez com que a sua produção intelectual e ela própria se tornassem conhecidas pela intelectualidade e pelo público leitor.

Em todas as instâncias, como professora, como cronista, como poeta, conferencista e correspondente de intelectuais ligados à cultura e à educação, participou e marcou ativamente as discussões em torno da Escola Nova e da experiência que vinha sendo realizada no Distrito Federal. Tinha como objetivo traçar projetos e interferir no campo educacional brasileiro – mas mais que isso, visava à difusão de conceitos como feminismo, liberdade, fraternidade universal, paz, desarmamento e não violência. Cecília trazia uma nova sensibilidade em relação a essas questões. Essa era a tônica que distinguiu a sua passagem pelo Diário de Notícias, na “Página de Educação”. Todo o seu pensamento e ação foram motivados por temas educacionais, que se resumiam na reforma do homem com o objetivo de efetuar a reforma da sociedade, e não o inverso. A “Página” tornou-se uma vitrine, um centro difusor das inovações introduzidas pelos reformadores e foi um dos espaços que mais contribuiu para projetar as concepções de sua idealizadora e onde, por seus artigos, ela discutiu, criticou, debateu, apontou e estimulou a mudança dos rumos da educação entre educadores, intelectuais e opinião pública. Em suas crônicas, destacava a necessidade de buscar uma forma mais científica e moderna de conceber a escola, o professor, o aluno, o ensino-aprendizagem, ou seja, todas as esferas do fazer pedagógico. Lembrava aos educadores que a sensibilidade poética não era um luxo, um complemento, mas um elemento essencial da capacidade de lidar com o riquíssimo movimento da vida infantil. Para ela, não havia destino melhor no mundo do que ser poeta. Entendia por poetas não apenas aqueles que sabiam esgrimir palavras, rimando e metrificando, dentro de certos limites silábicos e com determinadas cesuras: o poeta tem que ter uma alma com dimensões diferentes da dos homens comuns. Precisa saber articular numa síntese admirável a amplidão das visões objetivas como também das subjetivas, com todos os seus matizes, todas as suas cambiantes, todas as suas transfigurações: deve ser educador e saber compreender a criança.

Em 21 de setembro de 1934, a bordo do Cuyabá, Cecília e Correia Dias embarcaram na aventura que seriam os vinte e dois dias de mar até Portugal. Correia Dias voltava à sua pátria depois de uma longa ausência e Cecília fora convidada para realizar conferências literárias e educacionais naquele país. O convite partiu de Fernanda de Castro, esposa do diretor do Secretariado da Propaganda Nacional (SPN) português, António Ferro. Lá não encontraria apenas seus vínculos familiares, mas também interlocutores como Afonso Duarte, José Osório de Oliveira e Fernanda de Castro, com os quais entretinha longas conversas epistolares e debatia, há algum tempo, os seus temas de maior interesse no momento: literatura e educação.

A coluna “Crônicas Semanais” do jornal A Nação trazia o relato de viagem, denominado “Diário de Bordo”, publicado dentro de acordos firmados entre Cecília e a direção do jornal pouco antes de a viagem se concretizar. As crônicas eram diárias e ilustradas por Correia Dias. Eram preparadas e enviadas ao jornal que as publicou com um lapso de tempo superior à sua elaboração, entre 14 de outubro a 30 de dezembro de 1934. Como um sujeito produtor e receptor de cultura, Cecília inscreveu nesse relato os usos e costumes da sociedade do seu tempo. Registrando cronologicamente os fatos, trazia aos leitores as suas impressões, suas reflexões e expectativas de viagem e os acontecimentos do dia a dia do navio. Das cidades portuárias em que o navio atraca destacou o casario, os costumes e os contatos feitos nas poucas horas que permanecia em terra firme e colecionou impressões sobre a educação das cidades visitadas, constatando as informações que já conhecia dos jornais, congressos e revistas especializadas.

Cecília dirigia-se a Portugal, um país que não tinha tradição em atrair e nem costumava ser o itinerário buscado pelos educadores-viajantes. A tônica da sua viagem também era diferenciada. Ela não foi em busca dos novos cânones educacionais que estavam sendo difundidos, mas divulgar o que estava sendo construído no Distrito Federal. Era a sua colaboração ao debate internacional no campo da educação. O “Diário de Bordo” divulgava a viagem de uma educadora e, consequentemente, as questões em que ela acreditava e o movimento educacional do qual se colocava como porta-voz.

A viagem também tornava realidade o projeto de integração entre os dois povos, que ela acalentava tanto na “Página de Educação" quanto na Biblioteca Infantil. No período em que dirigiu a “Página”, Cecília principiou as suas reflexões sobre a articulação entre educação e viagem vislumbrando a fraternidade que deveria ser incentivada pelo intercâmbio pedagógico. Segundo ela, “o trânsito das ideias, de uma terra para outra, o conhecimento das qualidades de cada povo e mesmo os seus defeitos, o gosto da visitação e de toda aproximação humana que vence fronteiras e dificuldade de língua conduziria à harmonia entre os povos. Ainda somos quase todos estrangeiros, uns para os outros; as raças e as religiões têm sido obstáculos para o convívio fraterno de que precisamos”, afirmava. Assim, era necessário que se operasse no mundo uma transformação que humanizasse, e essa transformação, para ser profunda e definitiva, teria que ser realizada pela educação. Cecília defendia uma obra educacional que não tivesse como meta a padronização das criaturas, mas o reconhecimento salutar das desigualdades. Além da arte, da ciência, da filosofia e do misticismo, a educação poderia obter resultados satisfatórios por ter múltiplas possibilidades. Para tanto, a educação tem objetivos mais amplos que a simples instrumentalização para ler, escrever e fazer contas. O seu ideal de educação ultrapassa os limites estreitos da sala de aula, derruba fronteiras entre os países, dissolve os estranhamentos de raça, língua, cultura, religião. A educadora afirmava que “para os educadores, a paz é uma finalidade a que devem tender todos os trabalhos humanos”. Ela via a fraternidade e a cooperação entre os povos não como um apelo especial, à margem dos programas escolares, mas, ao contrário, como o objetivo central, o cerne da educação. Para Cecília, o campo da educação não tem limites, e ilimitadas são as oportunidades de tentar o melhoramento humano. As viagens têm sentido educativo, para além do mero divertimento: elas têm a capacidade de fomentar a fraternidade e a cooperação entre os homens. Essas reflexões e o interesse pelo país e pela cultura portuguesa fizeram com que fundasse na Biblioteca Infantil, pouco antes de viajar, o que ela denominou “organização ibero-americana”,com o objetivo de “aproximar as crianças distantes num convívio de doçura profunda, capaz de preparar mais tarde uma união séria e firme de todas as vidas”.

Depois de 22 dias de mar, Cecília Meireles e Correia Dias desembarcaram em Lisboa em 12 de outubro de 1934  e foram calorosamente recebidos pelos intelectuais lusitanos. Os jornais locais fizeram ampla cobertura do desembarque e das atividades desenvolvidas pelos jornalistas brasileiros. Cecília proferiu cinco conferências em Portugal: a primeira, Notícias da poesia brasileira, foi realizada em Lisboa, em 4 de dezembro e reapresentada na Universidade de Coimbra dez dias depois, a convite dos estudantes. Nela fez uma retrospectiva da moderna literatura brasileira e divulgou poetas desconhecidos em Portugal: Oswald de Andrade, Murilo Mendes, Raul Bopp, Mário de Andrade e Jorge de Lima. A primeira oportunidade de se referir às conquistas educacionais do Distrito Federal aconteceu em 12 de dezembro, no Liceu Feminino Maria Amália Vaz de Carvalho, onde tratou das modernas orientações pedagógicas brasileiras e da Biblioteca Infantil. Em seguida, em 17 de dezembro, tratou do folclore brasileiro, apresentando aquarelas que retratavam os costumes da população de origem africana no Brasil. O texto da conferência foi publicado pela revista Mundo Português em 1935, com o título Batuque, samba e macumba. Em 18 de dezembro, apresentou a conferência O Brasil e a sua obra de educação na Faculdade de Letras de Lisboa, onde discorreu sobre as reformas de Fernando de Azevedo e de Anísio Teixeira. Durante o período em que permaneceu em Portugal, participou de eventos em sua homenagem em várias ocasiões, entre elas em uma festa no Club Brasileiro de Lisboa, organizada pela diretora da revista Portugal Feminino, que agradeceu a simpatia que Cecília sempre demonstrara pelo intercâmbio literário feminino luso-brasileiro promovido pela revista.

Cecília e Correia Dias regressaram ao Brasil, a bordo do Bagé, nos primeiros dias de 1935. Como contribuições do movimento escolanovista português, a educadora trouxe para o debate educacional brasileiro as experiências de Afonso Duarte, Faria de Vasconcelos e os jardins-escola de João de Deus como as mais importantes e significativas em termos de pedagogia. Por meio das conferências que proferiu, sob a forma de crônicas e de artigos publicados na imprensa, informou os seus leitores, professores e estudantes brasileiros sobre as experiências desenvolvidas naquele país. A viagem contribuiu para reforçar seu prestígio profissional, e Cecília obteve maior reconhecimento público, especialmente em Portugal.

Do outro lado do Atlântico estavam as suas raízes familiares e os amigos com quem estabeleceu frutífera rede epistolar e de relações profissionais que se estenderia pelas três décadas seguintes de sua vida. Essa amizade se concretizou sob a forma de inúmeras obras, entre as quais a antologia Poetas novos de Portugal, organizada e prefaciada por Cecília. Aquele convite recebido em meados de 1930 contribuiu para a concretização de um sonho antigo da educadora: conhecer a terra de seus avós e de seu marido e materializar seu projeto de integração entre os povos dos dois lados do Atlântico a partir da compreensão de qual era ou deveria ser o papel da cultura, da educação e dos educadores na consecução desse objetivo.

Bibliografia

PIMENTA, J. S. As duas margens do Atlântico: um projeto de integração entre dois povos na viagem de Cecília Meireles a Portugal (1934). 2008. 374 f. Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2008.

PIMENTA, J. S. Fora do outono certo nem as aspirações amadurecem. Cecília Meireles e a criação da biblioteca infantil do Pavilhão Mourisco (1934-1937). Dissertação de Mestrado. Departamento de Educação/PUC-Rio, 2001.

Publicado em 13/09/2011

Publicado em 13 de setembro de 2011