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As vias musicais

Alexandre Amorim

No carro, parado. A Rodovia Washington Luís, de vez em quando, traz essa surpresa: um ou dois quilômetros de automóveis enfileirados que, ao contrário de sua função, não se movem. Ouço músicas que gravei em um pendrive enquanto, pelo engarrafamento, eu vejo o mundo, cheio de pessoas e sinais. Imagino que outras pessoas dentro de outros carros possam estar impacientes, querendo chegar em casa. Eu, que não tenho pressa, penso que nesse meu trajeto não há pontes, o que me desagrada. Pontes são quase sempre bonitas. E são, também, uma imagem bonita, que vários poetas usam. Na objetividade reinante do mundo concreto, as pontes seriam apenas mais um amontoado de concreto e vigas. Mas, observando do carro parado, a ponte não é para ir nem pra voltar: a ponte é somente pra atravessar.

Lembro de pontes com trilhos de trem. De viagens que fiz de trem. Bons tempos. Hoje, trem não tem mais. Estradas de ferro são vagas lembranças de músicas antigas. O trem também é uma imagem. O concreto, parece que vai se desfazendo. Trem, lugares distantes, boas músicas, memórias. Memória, que é uma ponte. A ponte é até onde vai o meu pensamento. Nesse momento, alguém buzina. É hora de passar a marcha e andar mais três ou quatro metros para a frente. Parece um paradoxo: estava voando parado e agora, que voltei à realidade, ando lentamente para ficar parado de novo. Há sempre um lado que pesa e outro lado que flutua.

Depois da buzina, me indigno de ter obedecido a alguém que me fez mover tão pouco, só porque buzinou. Ouvir a buzina e obedecer parece me equiparar ao gado que se move por um berrante. Mas compreendo quem quer andar um pouco mais, sair do lugar. E esqueço buzina e berrante. Uma canção, não tão popular assim, fala da imaginação. Agora, sim, ouço alguém que concorda comigo e diz: o mundo de dentro da gente é maior do que o mundo de fora da gente. Parece infinito, que nunca acaba porque nunca começou. Alguém nesse engarrafamento saberia dizer onde seu mundo de dentro começou?

Alguém me ultrapassa pelo acostamento da estrada. Acelera e pede pressa. Eu me recuso. Faço hora, vou na valsa. A vida não vai fugir, nem eu fujo dela. Tenho raiva de quem usa o acostamento, secretamente xingo o sujeito. Mas finjo ter paciência. Eu mesmo faço minhas bobagens. Muito do que eu faço não penso, me lanço sem compromisso. Vou no meu compasso. Mas acho que a gente sempre tem que estar consciente do outro. Gosto de pensar que vou certo de estar no caminho e desperto. Esperto, com clareza do que faço. A verdade é que relacionar-se com o outro é muito difícil. É sempre assim: a gente espera do mundo e o mundo espera de nós um pouco mais de paciência.

Mas nem sempre eu estou nessa calma toda. Muitas vezes parece que a cabeça deu um nó. Parece que algum atavismo canino me obriga a sair. Como se a lua me chamasse e eu tivesse que ir prá rua, sair só. Tem dias em que a gente está tão necessitada de sair e despejar o que existe dentro de nós. As belezas, que são coisas acesas por dentro; as tristezas, que são belezas apagadas pelo sofrimento. Às vezes dá vontade até de chorar. Umas lágrimas pesadas, de uma água suja de tanta coisa que a gente guarda. Lágrimas negras saem, caem, dói. Isso de chorar sozinho no carro por um lado é bom, pra ninguém ver. Mas muitas vezes a gente quer mesmo é chorar na frente de alguém, pra mostrar a dor que a gente sente.

A música parou e eu continuo cantando, inventando uma letra sem sentido. Medusas, telefonemas, crianças no jardim, nuvens formando espetáculos teatrais para quem observa por trás de um para-brisa. Essa música não existe. Meu filho, um dia, me disse que as nuvens também não existem. O teatro, mesmo, é uma ilusão. A música volta a tocar, mas agora eu tendo a pensar que a única coisa real é o amor. Porque, em um engarrafamento, a gente se sente só, amando alguém que está longe. Alguém que também sente saudade. Que também quer um beijo. E aí a gente sente que o amor é mesmo real, mesmo que seja da mesma matéria das pontes, dos trens, da memória, dos sonhos. E a gente se sente real, se sente amando. Eu sou amor da cabeça aos pés, e agora tenho pressa de chegar, para beijar quem amo. Beijar o rosto de quem dá valor a isso.

Ainda bem que fiquei tanto tempo parado, mas ainda bem, também, que agora estou andando. E tenho música para me acompanhar em meus caminhos.

PS.: Este texto é uma homenagem. Um retalho de versos pinçados em músicas de Otto, Lenine, Lula Queiroga, Mu Chebabi, Caxa Aragão, Dudu Falcão, Abujamra, Moraes Moreira e Galvão, costurados com linhas minhas. Se é uma crônica, se é plágio, pós-moderna, antropofágica não me interessou saber. Foi um prazer costurar, espero que seja um prazer apreciá-lo. Espero, também, que se divirta adivinhando as frases que são de outros autores e a que músicas pertencem. Dou a dica com o nome das canções: Pelo engarrafamento, Crua, Lágrimas negras, Imaginação, Infinito de pé, Essa música não existe, A ponte, Martelo bigorna, Hoje eu quero sair só, Olhos negros, Paciência, Dê um rolê.

Publicado em 27/09/2011

Publicado em 27 de setembro de 2011