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Por onde anda a poesia?

Alexandre Amorim

A pergunta pode parecer, em si, poética. Afinal, em tempos de globalização, crise das instituições políticas e triunfo de uma economia perversa, a poesia parece ter se perdido. O tempo da delicadeza e de enlevo passa despercebido. Mas a questão é menos existencial e mais prosaica, embora também importante: trata-se de saber onde podemos encontrar textos poéticos hoje em dia.

Sabe-se que comunidades poéticas estão sendo formadas, que poetas estão escrevendo, que as oficinas literárias estão tentando ensinar a escrever. Mas em que clareira da floresta está a tribo dos poetas? Onde se encontram as discussões, as leituras e, principalmente, a escrita poética? Ao que tudo indica, os poetas saem pouco, se reúnem quase que de modo clandestino e, ao contrário do que se possa esperar, não fazem muita questão de serem lidos. Pode parecer assim, uma vez que movimentos e lançamentos poéticos são pouco divulgados. O CEP20000, movimento de poetas do Rio de Janeiro, funciona há décadas como ponto de concentração dos escritores, mas seu Twitter tem menos de 30 seguidores. É um sinal da marginalidade da poesia ou o movimento não se adaptou bem ao mundo virtual?

Nem uma coisa, nem outra. A poesia é pouco divulgada por ser um mercado de parco retorno financeiro, além de requerer do seu consumidor uma formação estética mais elitizada do que cinema ou shows de música, por exemplo.

A antiga discussão sobre letra de música ser poesia também afasta quem se aventura pelas melodias e tem medo de não ser aceito como escritor. Mas o principal problema, como sempre, é o preconceito que se expressa em declarações de senso comum: ouve-se sempre nas escolas, em conversas de bar e em desabafos de pais preocupados, que os filhos não leem mais porque o computador lhes toma todo o tempo. Assim como a televisão já foi apontada como culpada pela falta de leitura, hoje o computador é o vilão mais procurado pelos xerifes que teimam em lamentar a decadência da literatura. Uma decadência que eles não conseguem enxergar como transformação.

O artigo Da poesia visual concreta à poesia virtual concreta: a ciberliteratura na sala de aula, da doutoranda em Linguística Aplicada Cynthia Agra de Brito Neves, vem justamente mostrar que existe, sim, uma nova fase de leitura e escrita. A autora classifica essa fase de “ciberliteratura” e afirma que há uma “continuidade ao experimentalismo universal na escrita, no som e na imagem, inaugurado pelas vanguardas europeias e pela poesia concreta – embrião da poesia virtual”.

É interessante que se trate a poesia como metamórfica sem perder sua natureza metafórica. A força poética da afirmação de que o “concreto gerou o virtual” é, ao mesmo tempo, simples e carregada de significados. Está claro que o virtual é baseado e simula o concreto, além de ser óbvio que a informática pode ajudar em muito a construção plástica da poesia concreta. Mas a frase também significa que entramos em uma fase de relações virtuais, de diferentes valores das relações concretas. Poetas colaboram com sites e blogs diversos, publicam mais do que nunca e podem ser lidos por qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo sem ter que enviar páginas impressas para Portugal, Angola ou Macau. Se não há mais o livro daquele poeta, existe aquele poeta distribuído em vários locais virtuais.

A poesia em si mesma se metamorfoseia em letras não mais impressas em tinta, mas em bytes. Os concretistas afirmam que até mesmo o tipo de letra escolhida pode influenciar na interpretação do texto poético; imagine então um meio tão diferente do papel quanto um monitor. O site http://vidabreve.com, resenhado na última edição da revista, é um exemplo.

Cynthia Neves aponta, inclusive, um caminho conhecido para a formação literária, que é a educação, mas que deve ser trilhado de modo novo, diferente do que tem sido: “promover a interação do aluno com a poesia animada pelo computador – eis um novo desafio para a educação”. Se hoje em dia alguém pergunta por onde anda a poesia, é sinal de que não sabe usar o Google ou de que não quer deixar a rabugice intelectual de lado e partir para novas descobertas.

Publicado em 25/01/2011

Publicado em 25 de janeiro de 2011

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