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Cristo Redentor, agora em cores

Alexandre Amorim

O Cristo branco em contraste com o céu azul do Rio de Janeiro, sobre as montanhas azuladas e verdes. É mesmo uma redenção do dia a dia, um resgate da beleza que a gente se esquece de notar enquanto cuida da vida. Mas que me perdoem todos os leitores que esperavam apenas doces imagens – quando a noite baixa na cidade, a estátua octogenária recebe dos refletores uma paleta de cores que vai do branco ao roxo sem nenhuma harmonia estética. É olhar para cima e ver uma tentativa de transformar a maravilha carioca numa espécie de monstro japonês, que vai ficando verde, azul, roxo... Parece que vai sair da ponta do Corcovado e atirar raios laser contra os prédios que circundam a Lagoa Rodrigo de Freitas. Já não bastassem as milícias e os traficantes, ainda teríamos que lidar com brigas entre o Redentor e Ultraman ou Godzilla.

A nova iluminação do nosso velho e querido monumento pode ser acionada pelo celular do arcebispo do Rio. É quase uma linha direta com Deus. Mas, pela variedade das cores escolhidas, o teólogo não parece ter simpatia pelos acordos cromáticos. Quando Deus, bem lá no início dos tempos, desejou e verbalizou “fiat lux”, não esperava que seu servo católico e carioca fosse usar essa mesma luz com tamanho despreparo. Entendo que a quaresma tem como roxo sua cor simbólica, mas é mesmo necessário deixar uma imagem de 30 metros de altura roxa dos pés à cabeça? Andando pela Rua São Clemente à noite, temos a impressão de uma alma penada suspensa e multicolorida, que se prepara para assombrar a cidade com um colorido mau gosto.

O controle das luzes está mesmo nas mãos que deveria estar?

É claro, a estátua está em área cedida à Arquidiocese do Rio. Desde o conceito inicial, a homenagem religiosa teve apoio do governo, que doou o espaço. A Princesa Isabel gostou da ideia, mas não deu continuidade. Epitácio Pessoa também gostou, era amigo do bispo e comprou a briga. A Igreja ganhou o direito de mostrar que o povo tem sentimento religioso, mas também ganhou o direito de propagandear sua religião ao povo. A ideia de erguer um símbolo cristão ligando o povo carioca (e, por extensão, o brasileiro) à religião não deixa de ser, também, uma demonstração de força da Igreja Católica.

Por essas e outras, o sempre controverso Paulo César Pereio, de forma debochada ou não, fez campanha pela demolição da estátua. De acordo com o ator, o Cristo interfere na paisagem. Proposta um tanto radical, digamos. Mas que deixa clara a insatisfação de ter que se submeter aos caprichos de instituições que nem sempre nos representam.

Fato é que, após 80 anos de braços abertos sobre a Guanabara, o Redentor é quase unanimidade entre os cariocas e figura simbólica da cidade. Turistas sobem e descem o morro do Corcovado maravilhados, alguns o veem por cima, de avião ou helicóptero, outros enxergam de longe, chegando pela Linha Vermelha ou pela Ponte Rio-Niterói. E a simpatia daquele Cristo que parece sempre pronto para um abraço, acolhe quem vem e deixa saudades em quem vai. O Rio de Janeiro, é sempre bom lembrar, continua lindo.

Resta, então, ir até o Cosme Velho, pegar um bondinho ou uma van, subir no meio da mata atlântica, exercitar as pernas nos degraus até o pedestal da estátua. E, dali, olhar para cima e ver o Redentor olhar para o horizonte, para a baía com seu rosto sisudo, de pedra-sabão. E olhar junto com ele, ver a cidade da Zona Norte à Zona Sul. Não há como resistir a abrir um sorriso vendo o Rio de cima. Até o Cristo deve sorrir quando ninguém está olhando – e quando não o estão colorindo com cores estapafúrdias.

Só recomendo não ir até o Corcovado nos feriados e nos fins de semana. Se puder, prefira dias úteis, quando o lugar fica mais vazio. Se o Juízo Final for tão lotado quanto uma visita ao Cristo Redentor nesses dias, Deus me perdoe, mas prefiro ficar no purgatório.

Publicado em 08/11/2011

Publicado em 08 de novembro de 2011

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