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Traçando o perfil dos alunos

Tatiana Serra

Noutro dia, conversando com duas amigas, me vi unindo lazer e afazer. Num misto de boas risadas e vários questionamentos, lá estava eu num bate-papo informal, mas diante de um prato cheio de bons assuntos a serem explorados. Afinal, éramos duas professoras, eu e muitas coisas em comum.

Num discurso simples, porém nada simplório, lá estavam duas educadoras de personalidades fortes e muito divertidas... E lá estava eu tendo uma aula de como lidar com cidadãos em construção – em sua maioria com um perfil bem definido desde muito pequenos.

Durante cerca de uma hora e meia, foram várias as histórias hilárias que as duas contaram, e várias também foram as conclusões. Os pensamentos das duas professoras se encontravam quando o assunto era personalidade. Segundo elas, a criança é fruto do meio, mas já tem características de sua personalidade muito bem definidas, cabendo ao professor perceber e ajudar os alunos a trabalhar as dificuldades trazidas por algumas dessas características.

“No ano passado, encontrei duas alunas de cinco anos maltratando uma terceira aluna, portadora de deficiência mental, no banheiro da escola. Elas puxavam os cabelos da menina, empurravam-na e diziam palavras horríveis. Quando me viram, fingiram que nada estava acontecendo, mas estavam explícitos arranhões e outras marcas pelo corpo da menina. O que eu fiz quando vi aquela situação? Estava claro que qualquer limite já havia sido ultrapassado, e foi preciso ‘falar a mesma linguagem’ para ser ouvida e respeitada por aquelas duas meninas, que nessa e em outras atitudes demonstravam ser dissimuladas e agressivas. Agi com firmeza, segurando as duas e exigindo que elas se retratassem com a menina agredida. A partir de então, senti que as duas passaram, no mínimo, a repensar suas atitudes... Não tenho a ilusão de acreditar que aquela minha postura tenha sido um divisor de águas para elas, afinal são muitas e ainda maiores as influências familiares e do meio onde vivem. Mas me cabe acreditar que alguma semente posso ter plantado em suas vidas. Pelo menos preciso acreditar nisso”, afirmou uma das professoras, dando uma pausa nas risadas e refletindo sobre a seriedade da história contada.

Enquanto ouvia os casos das minhas amigas professoras, eu me perguntava sobre onde começa a educação de um cidadão, quando se forma a personalidade de alguém e se o caráter é adquirido ou já nasce com o ser humano. Demos continuidade ao assunto, buscando explicações teóricas e chegamos até a recorrer ao dicionário.

De acordo com o Michaelis, caráter é o mesmo que índole, qualidade inerente a certos modos de ser ou estados. E, segundo a Biologia, o caráter seria adquirido pelo indivíduo sob a ação de fatores ambientais, que não se tornam hereditários. Enquanto o caráter pode ser adquirido, a personalidade já nasceria, então, com cada um? Ainda recorrendo ao Michaelis, vimos que lá estava o caráter novamente, pois personalidade seria o mesmo que caráter essencial e exclusivo de uma pessoa, aquilo que a distingue de outra. Para a Sociologia, trata-se da estrutura de hábitos adquiridos na vida social; já para a Psicologia, personalidade é a organização integrada e dinâmica dos atributos físicos, mentais e morais do indivíduo; compreende tanto os impulsos naturais como os adquiridos e, portanto, hábitos, interesses, complexos, sentimentos e aspirações.

A busca por explicações nos ajudou a entender melhor os conceitos e, daquele bate-papo com minhas duas amigas, ficou a ideia de que há tudo dentro de cada ser humano e que, dependendo dos estímulos e dos exemplos vivenciados por ele, sua personalidade, caráter, seus valores, enfim, seu perfil será traçado. Como diz o compositor Arnaldo Antunes, “nem todas as respostas cabem num adulto”; mesmo assim, fica a certeza de que os pais, os amigos e os educadores têm importância fundamental na formação de qualquer cidadão.

Publicado em 08/11/2011

Publicado em 08 de novembro de 2011

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