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Uma alegria triste

Pablo Capistrano

Escritor e professor do IFRN

Foi quando eu vi aquela entrevista com Gilles Deleuze para Claire Parnet, se não me falha a memória. Era uma espécie de abecedário. A ideia era simples: cada letra, um tópico para que o filósofo pudesse discorrer. As entrevistas foram concedidas entre 1988 e 1989. É considerado, por quase todo mundo que gosta de Deleuze, como uma espécie de testamento. Uma longa entrevista na qual o pensador francês mistura memória e confissões pessoais com a fina flor do rigor conceitual de um pensamento de fronteira, entre poesia e filosofia.

Lá pelo meio de uma das 22 letras do alfabeto, Deleuze retoma um pensamento de Nietzsche e diz que “todo poder é triste”.

A tristeza do poder nasce pelo fato de que todo poder (Kratos) é uma forma de negar a potência (Dynamis) vital do ser. Todo poder se manifesta no não. Não falar, não dizer, não entrar, não pensar, não fazer, não poder.

Mesmo quando o poderoso diz sim é porque antes, de alguma maneira, o não já estava lá. Só o fato de que alguém necessite de uma permissão para fazer alguma coisa já mostra que, de antemão, a negação havia sido imposta pela simples presença do poderoso.

A potência nos faz vivos, que nos enche de ser, que nos vitaliza, nos empurra em direção a um inexpugnável exercício da vontade. É justamente essa vontade que é o objeto do poder. A vontade do outro que eu controlo. O desejo do outro que eu retenho. O querer do outro que eu domino.

Por isso Deleuze sabia, como Nietzsche soube um dia, que todo poder é triste. Porque, antes de qualquer coisa, todo poder é uma afirmação da morte, que retém, limita, controla a pulsão de vida que nasce em cada desejo, em cada ato de liberdade individual.

Mas, se é assim, por que tanta gente cai vítima do poder? Por que essa fascinação, essa compulsão, essa luta sem freio por algum naco qualquer de poder, por mais miseravelmente reduzido que seja?

Talvez porque existam, na vida, algumas alegrias tristes.

Sempre estamos, aqui ou ali, arriscados a derrapar em certos prazeres mórbidos, em certas seduções sombrias que às vezes costumam nos arrastar com suas delícias para paraísos artificiais.

A grande ironia é que tanto o senhor quanto o escravo são vítimas do poder. A perversão que os liga e que é um pouco a perversão de todos nós que vivemos em bando os faz depender do poder. Ela os alimenta, os instiga, os entorpece e os ajuda a esquecer outras misérias. As mesmas misérias que todos nós costumamos guardar bem disfarçadas pelas tocas do cotidiano.

O grande antidoto contra o poder é a liberdade, a capacidade de as formas existentes nesse mundo de coisas subitamente se tornarem senhoras de si mesmas, autônomas, indomavelmente autênticas.

Nesses tempos de domínio dos desejos, de controle das pulsões, de condicionamentos dos sonhos e da imaginação, andamos esquecidos da velha pedagogia da liberdade. Quem sabe, amigo velho, algum santo ou louco venha nos oferecer, qualquer dia, nesse tempo de consumidores e de consumidos, as chaves para que o poder não nos destrua.

Publicado em 08/11/2011

Publicado em 08 de novembro de 2011

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