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Ver as horas

Darcy Cruz

O jovem passando por mim, suarento:

– Poderia me dizer as horas?

Respondi, olhando no meu pulso um quadrado preto, achatado, o resquício do que ainda poderia ser chamado de relógio de pulso:

– Dez e quarenta e oito (fiquei com uma certa culpa por ter omitido os segundos).

Não esperava por agradecimento, já que o rapaz me parecia apressado, mas deu para ouvir um “muito obrigado” esbaforido. O inesperado agradecimento fez-me sorrir e engolir o que estava parado na minha garganta: “Pô, meu filho, não está vendo o relógio logo ali na tua cara?”. Saí andando mergulhado nas reminiscências que um simples perguntar de horas desencadeou em minha caminhada solitária. E tome elucubrações.

Antigamente a gente tinha que aprender a ver as horas; às vezes, como no meu caso, era um aprendizado doloroso. Muito me custou, muito me fez sofrer, decifrar o enigma de aprender a ver horas. Quantos vexames me seriam poupados se eu pudesse, como hoje, somente ler as horas. Dizer as horas, de tão familiar, não parece esquisito, mas, tentando dissecar a frase, podemos mergulhar numa série de indagações instigantes: por que dizer as horas? Na mesma linha, poderíamos analisar outra pergunta com igual finalidade, a familiar “que horas são”? No primeiro caso me soa algo poético: dizer horas, pensando bem é muito bonito. No segundo caso, as horas realmente são? São o quê? O destino de cada um se esvaindo, menos uma hora de vida? As horas são ou voam ou soam, mesmo que não em badaladas de torres envolvidas em fantasmagóricos nevoeiros.

As horas ditas assim, depois de lidas num prosaico relógio (ou o que restou dele) digital, soam superficiais, sem demonstrar o mais leve incômodo aos nossos já preguiçosos neurônios, que não o de uma rápida leitura. Na realidade, hoje em dia leem-se as horas como se lê uma frase, vide a precisão que eu dei para o nosso jovem herói, dez horas e quarenta e oito minutos; li literalmente, como poderia arredondar para um menos preciso dez para as onze ou um menos preciso ainda, dez e quarenta e cinco, se assim eu portasse no meu pulso um dos antigos relógios que nem precisaria ter algarismos em romano em fundo de louça ou mostrador luminoso, como se dizia na época (recurso que permitia que as horas fossem vistas na mais profunda escuridão de um quarto).

Aí sou assaltado por uma dolorosa lembrança da minha infância: a minha dificuldade em aprender a ver as horas. Sofri muito com essa deficiência, pois tinha que escondê-la, envergonhado dos professores e até de outros meninos de minha idade. Não me entrava na cabeça a história de que o ponteiro pequeno era para marcar as horas e o ponteiro grande marcava os minutos, ainda mais que os números teriam que ser multiplicados por cinco. Se o ponteiro pequeno estivesse no número dez (um pouquinho pra lá, um pouquinho pra cá), eram dez horas, e o grande também no dez, quase um em cima do outro, eram cinquenta minutos. Portanto, dez e cinquenta ou dez para as onze. Quanto à conversão, não havia problemas; eu sabia bem multiplicar por cinco, mas até hoje não atino por que aquela operação tão fácil, que todos faziam na maior tranquilidade não me entrava na cachola. Sofri muitas situações constrangedoras por não saber ver horas. Uma delas ficou gravada indelevelmente em mim: quando a professora, que esquecera o relógio, mandou ver as horas no relógio do gabinete da diretora. Era um belo relógio antigo de pêndulo com mostrador quadrado em algarismos romanos. Fiquei pálido quando me vi em frente àquela caixa negra com o seu pêndulo de cobre zombando da minha ansiedade, rindo pra lá e pra cá da minha cara de idiota. Foi assim que a diretora me encontrou, petrificado. Felizmente tive a presença de espírito para falar:

– A dona Marisa mandou perguntar as horas.

Ela, sem cobrar a minha ignorância, olhou o seu relógio de pulso e me respondeu com toda a delicadeza, mesmo com o enorme relógio ali em frente a berrar as horas. Até hoje me emociono com a sutileza daquela senhora que, com sua sensibilidade, sem nenhuma reprimenda, tipo “você ainda não aprendeu a ver horas, não?”, me ajudou a sair daquele meu desespero.

Hoje em dia basta eu ler as horas, como há pouco fiz. Não só gostaria de ler as horas, mas também tê-las no meu bolso como trazia minhas bolas de gude que tilintavam, à medida que eu andava, uma cantiga alegre de vencedor de quem ganhara no jogo de gude. Quanto mais bolas, maior o atrito, mais alegre a canção que saía do meu bolso. Assim, hoje, gostaria de pegar as horas, metê-las no bolso e mantê-las sob meu inteiro controle como fazia com as bolas de gude. E gastá-las pouco a pouco, parcimoniosamente, nesse jogo chamado vida. 

Publicado em 08/11/2011

Publicado em 08 de novembro de 2011

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