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Interessado ou interesseiro: como identificar e lidar com o excesso de bajulação?
Tatiana Serra
“E o cordão dos puxa-sacos cada vez aumenta mais”,trecho de marchinha de carnaval composta por Roberto Martins e Frazão
Se não foi num baile de carnaval ou num bloco de rua, certamente você já cantou O cordão dos puxa-sacos em aniversários, enquanto o primeiro pedaço do bolo era oferecido a alguém especial. Seja na brincadeira ou na vida real, quem homenageia alguém ou mesmo dá mais atenção a quem é importante para ele muitas vezes é rotulado como puxa-saco e, uma vez assim chamado, qualquer que seja sua atitude só irá reforçar esse rótulo.
Mas de onde vem o “puxa-saco”? De acordo com o professor de português e estudioso da língua Ari Riboldi, a expressão puxa-saco surgiu nos quartéis. É que, nas rotinas diárias e nas saídas a campo de provas, os soldados rasos eram obrigados a carregar seus próprios sacos de suprimentos e os dos seus superiores hierárquicos.
Desde a época de escola, já identificamos os chamados puxa-sacos. Sabe aquela imagem do aluno que levava uma maçã para a professora? Ali estava um puxa-saco. Aquele que muito participa das aulas e o primeiro da fila também são classificados assim, mesmo que suas justificativas estejam mais para alunos interessados em prestar o máximo de atenção do que para bajuladores de plantão.
A verdade é que ninguém gosta de ver um puxa-saco em ação; contudo, não adianta não gostar; seja aonde você for, sempre encontrará um deles. É do ser humano, ou melhor, o puxa-saquismo pertence à personalidade de determinados indivíduos. Mas você já imaginou que isso pode ser genético?
Em entrevista à revista Educação Pública, o blogueiro Marcello Cabral, que escreveu a crônica Puxa-saquismo genético, fala a respeito: “A irresistível necessidade de bajular, sobretudo alguém em posição mais influente que a do sujeito da adulação, certamente é um traço de personalidade. Mas, como a maioria das características de um indivíduo é de fundo genético, herdadas e transmitidas, penso que o mesmo possa se aplicar ao puxa-saquismo. Talvez precisamente por isso se trate de atributo ‘irresistível’”.
Numa reunião de trabalho, o chefe diz: “Bonita camisa, Fernandinho”. O funcionário, então, agradece. No dia seguinte, o chefe novamente elogia a camisa de Fernandinho, que responde: “A do senhor também é linda”. Ao perceber que chefe e funcionário usam o mesmo modelo de camisa, os outros funcionários decidem imitá-los e, dias depois, todos estão com a mesma roupa e se entreolhando.
Quem não se lembra desse comercial dos anos 1980? É um daqueles que ficam guardados na memória mais pela mensagem do que pela marca anunciada (eu mesma não me lembro qual era). O anúncio é marcante porque, em outros contextos, vimos essa cena se repetir bastante no nosso cotidiano. Tanto o puxa-saco quanto quem tem seu “saco puxado” tem responsabilidade nessa relação; será que se trata de um jogo consciente entre os dois?
Marcello acredita que tudo depende da natureza do puxa-saquismo. “Se nos referimos àquele atributo comportamental geneticamente estabelecido, a recompensa é incidental – o puxa-saco não necessariamente se pautará por interesses, mas tão somente pelo irresistível impulso de adular. Todavia, se o exercício da bajulação é ardiloso, astutamente estabelecido para uma finalidade, para um interesse específico, estamos aí no domínio do maquiavelismo, não da genética. Quanto ao bajulado, idem – ele se submete à bajulação por gosto inato ou por interesse”.
Muitas vezes, por ser tratado como puxa-saco pelos colegas, o aluno ou funcionário dedicado muda seu jeito, como uma espécie de defesa. Mas seria possível chegar a um meio-termo entre ser o queridinho do professor ou do chefe e ser querido pelos colegas? “A possibilidade do meio-termo dependeria, em última análise, da disposição de espírito dos próprios colegas e da qualidade do relacionamento no ambiente escolar ou de trabalho. Ocorre que, nesse caso, há que ser considerados outros fenômenos também encontradiços nas relações interpessoais: inveja, despeito, ciúme. Muitas vezes atribui-se a alguém a pecha de puxa-saco não pela manifestação de fato do puxa-saquismo, mas por inveja, por despeito, por ciúme e que-tais”, diz Marcello.
Quase todo professor já se deparou com um puxa-saco em sala de aula; a questão é saber como deve lidar com alunos desse perfil. Seja no ambiente escolar, no meio político ou em qualquer lugar ou ocasião, o limite do puxa-saquismo pode ser determinado por quem recebe a bajulação; e é bom lembrar que há aqueles que gostam de ter seu ego massageado e de tirar outros proveitos. Há também os que desprezam qualquer tratamento desse tipo. Para Marcello, “se a faceta abjeta do puxa-saquismo, qual seja aquela pautada pelo interesse escuso, pela hipocrisia, pela subserviência, se essa é a fisionomia que se apresenta ao bajulado, a ele é de alvitre ético evitar a bajulação. Senão, se o puxa-saquismo for apenas caricato, inócuo em suas consequências, cabe ao foro do incensado decidir se lidará com o seu adulador com gosto ou com desprezo”.
Um puxa-saco estará sempre elogiando você e lhe dando razão em tudo; ele daria a “vida” por você; sempre se antecipa aos seus desejos; é participativo em excesso; e tem ar submisso... Espere um pouco: é bom ter cautela na hora de identificar um deles. Talvez o segredo para lidar com um puxa-saco esteja em saber identificar suas características em primeiro lugar e, só assim, saber lidar com ele. Afinal, podemos confundir interessados com interesseiros, dedicados com bajuladores e atitudes apenas caricatas com as repletas de “segundas intenções”.
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Publicado em 8 de fevereiro de 2011
Publicado em 08 de fevereiro de 2011
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