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Aprender Física com arte: uma luz na vida dos alunos

Mariana Cruz

Física talvez seja a matéria mais temida pelos estudantes do ensino médio. Eu mesma sempre tive problemas com tal disciplina. A dificuldade ainda se agrava na medida em que a Matemática – outra temível disciplina – é apenas uma das ferramentas da Física, que, por sua vez, já parte do ponto que se deve ter pleno domínio da Matemática para então decorar aquele monte de fórmulas.

Na minha época de estudante, muitos de meus colegas, nos dias de prova, já tratavam de escrever as fórmulas a lápis na mesa para não correr o risco de esquecê-las, mesmo podendo ser flagrados colando. Eu não fazia o mesmo, mais por medo de ser pega do que por ética – devo confessar –, pois achava que, de uma forma ou outra, seria descoberta. Mas compreendo e me solidarizo com meus colegas de então. Anos depois, já formada, uma amiga disse-me que era uma típica cdf nos tempos de escola e que, na época do vestibular, para decorar as famigeradas fórmulas de Física, escrevia cada uma em um post-it e colava-os todos na parede ao lado de sua cama. Assim, ao dormir e acordar sempre passava os olhos nos papeizinhos amarelos. E deu resultado: passou de primeira em um dos vestibulares mais concorridos do Rio de Janeiro. Mas nem todo mundo tem saco de dar de cara com aquelas letrinhas ininteligíveis ao acordar e logo antes de dormir.

Por tudo isso, a Física parece algo inatingível, de outro mundo. Tanto assim que, vez ou outra, meus amigos e eu, revoltados com os baixos resultados nas provas, perguntávamo-nos qual a utilidade de saber que m=f.a. Só hoje, sem a visão ofuscada pela vermelhidão das notas, consigo perceber como tal disciplina está presente em nosso dia a dia. A começar pelo próprio nome, que vem do grego Physis, que nada mais é que natureza, porém, em um sentido muito mais amplo do que entendemos hoje em dia. Diz respeito à realidade que nos cerca e suas transformações. Desse modo, é possível ver que não há algo mais próximo de nós do que a Física, ela está presente em todo momento de nossas vidas, seja quando pegamos um elevador, quando fechamos a cortinas para não deixar o sol entrar, quando dirigimos, quando assamos um bolo... Enfim, nas ações mais corriqueiras, lá está ela.

E por que mesmo assim ela continua tão distante? Como lecionar Física de modo que ela se aproxime dos alunos? Apesar de pouco entender dessa Física dada nas escolas, e de já não me lembrar de fórmula alguma, sei da sua onipresença em nossa vida. Desse modo, estudá-la pela arte pode ser uma forma de desmistificar tal disciplina. Quem sabe tentar entender a Física a partir do estudo de quadros feitos por grandes pintores que utilizaram a luz como componente principal de suas obras?

Arte e ciência nasceram e caminham juntas ao longo da história. Desde a Pré-História, quando o homem queimou osso para ter um carvão para desenhar, ele já estava fazendo ciência. E buscar essa relação entre ciência e arte talvez seja um incentivo para o aluno apreciar a ciência.

Foi a exposição Luz, arte e ciência, que aconteceu em 2005, realizada por professores e alunos do departamento de Física da UERJ, que me chamou a atenção sobre como se poderia trabalhar Física através da arte. Lá estavam expostas diversas reproduções de quadros do pintor holandês Jan Vermeer (1632-1675), considerado por alguns o primeiro a fazer da luz o elemento essencial do quadro. Por isso foi o artista escolhido para introduzir o visitante no mundo de luz e cores. A partir dele, o quadro passa a ter interesse na questão da perspectiva, da profundidade, da terceira dimensão. A riqueza de detalhes contida na obra de Vermeer, as sombras, os detalhes nos levam a crer que ele recorreu às inovações científicas de seu tempo. Como podemos ver na pintura Vista de Delft, que retrata a cidade em que ele nasceu. Trata-se de uma visão topográfica da cidade com todos os detalhes que, nos dias de hoje, seriam captados por uma câmara fotográfica. Talvez essa riqueza de detalhes indique que ele tenha tido auxílio de uma câmara escura para compor a pintura. Isso poderia ser outro ponto a ser trabalhado com os alunos: a câmara escura.


Vista de Delft

Em diversos trabalhos do pintor é possível ver que há um ponto de luz muito forte, como no quadro Moça com brinco de pérola, em que a luz está bem focalizada no brinco. Tal quadro serviu de inspiração para um filme homônimo, de 2003, que fez considerável sucesso no cinema. Nele, em determinada hora a moça pergunta a Vermeer o que é aquilo que está apresentado na câmara escura, e ele responde: isso é uma imagem. Então ela pergunta o que é uma imagem, ele diz: “uma imagem é um retrato feito de luz”.

O filme também pode ser exibido aos alunos para trabalhar a questão da luz com eles. Nada como aprender com prazer. Os alunos agradecem. E os professores, também.


Moça com brinco de pérola

Publicado em 28 de junho de 2011

Publicado em 15 de fevereiro de 2011