Este trabalho foi recuperado de uma versão anterior da revista Educação Pública. Por isso, talvez você encontre nele algum problema de formatação ou links defeituosos. Se for o caso, por favor, escreva para nosso email (educacaopublica@cecierj.edu.br) para providenciarmos o reparo.

AS ONDAS DO PODER E OS CICLOS DA MOEDA

JOSÉ LUÍS FIORI

“The time has come for a new economic policy for the United States… Accordingly, I have directed the Secretary of the Treasury to suspend temporarily the convertibility of the American dollar...”

Speech by Richard Nixon, 15 August 1971

Na história do sistema capitalista, só existiram duas moedas internacionais: a libra e o dólar. E só se pode falar da existência de três sistemas monetários globais: o “padrão ouro”, que ruiu na década de 1930; o “padrão dólar”, que terminou em 1971; e o “padrão dólar-flexível”, que nasceu na década de 1970 e está passando por uma turbulência neste início do século XXI. Os dois primeiros sistemas se apoiaram numa relação fixa entre a libra e o dólar, e uma base metálica comum, o ouro; mas o terceiro sistema, o “dólar-flexível”, não tem nenhum tipo de padrão metálico de referência, apoiando-se apenas no poder dos EUA de definir o valor da sua moeda nacional e internacionalmente, assim como seus títulos da dívida pública.

Apesar de certa imprecisão histórica, pode-se dizer que o “padrão ouro” nasceu depois da vitória inglesa nas guerras bonapartistas, junto com a supremacia econômica britânica na América e na Índia. Por sua vez, o “padrão dólar” só se impõe a todo mundo capitalista depois da vitória americana na II Guerra Mundial. O “sistema dólar-flexível”, entretanto, nasceu de forma diferente, de uma decisão unilateral e “pacífica”, tomada pelo governo americano. No dia 15 de agosto de 1971, o presidente Richard Nixon decretou o fim da conversibilidade do dólar em ouro, estabelecida em Bretton Woods, em 1944. Em discurso à Nação, defendeu a necessidade de um novo sistema monetário internacional. No mesmo discurso, Richard Nixon explicou aos “países amigos” que havia terminado a época dos “desenvolvimentos a convite”, patrocinados pelos EUA e responsáveis pelo sucesso de algumas economias nacionais, que agora competiam com a própria economia norte-americana. Por isto, Richard Nixon apelava aos governos amigos para que colaborassem com a desvalorização do dólar e o restabelecimento do equilíbrio econômico mundial. Alemanha, Japão e França aceitaram a imposição americana e valorizaram suas moedas, aceitando o Smithsoninan Agreement, que vigorou durante 14 meses. Depois disto, a história se complicou, e os EUA tiveram que apelar - no final dos anos 70 - para um política agressiva de valorização unilateral do dólar, que provocou uma recessão e um ajuste radical da economia mundial, durante toda a década de 1980. Mas, apesar dos seus efeitos negativos sobre o “resto do mundo”, é possível dizer que o novo sistema “dólar-flexível” foi um sucesso do ponto de vista dos grandes interesses econômicos americanos – públicos e privados – durante pelo menos 25 anos.

Essa história econômica é bastante conhecida, mas em geral não se incluem na explicação do sucesso dos EUA outros fatos que se passaram no mesmo ano de 1971. Para começar, no mês de maio de 1971, os EUA e a URSS anunciaram o início de negociações sobre vários tópicos de interesse comercial e com vistas à limitação de seus sistemas balísticos. Essas negociações culminaram na reunião de cúpula realizada em Moscou, um ano depois, quando os presidentes Richard Nixon e Leonid Brejnev assinaram o primeiro Tratado de Controle de Armamentos, SALT I, e vários outros acordos comerciais que marcam o início da détente entre EUA e URSS, vigente durante toda a década de 1970. Por outro lado, no mesmo mês de maio de 1971, o governo americano respondeu positivamente à proposta feita pelo primeiro-ministro chinês, Chou En-lai, de iniciar negociações visando uma reunião de cúpula entre os presidentes dos EUA e da China. Os passos dados em seguida pelos dois governos mudaram a face do mundo, começando pela visita secreta de Henry Kissinger a Pequim, em julho de 1971, e culminando com a reunião entre os presidentes Richard Nixon e Mao Tsé-Tung, realizada em fevereiro de 1972. Na época, Henry Kissinger escreveu uma nota para o presidente Nixon, dizendo: “estabelecemos a base para você e Mao virarem uma página da história. O processo que iniciamos agora enviará ondas supersônicas por todo o mundo...” (Kissinger, H. Apud R. Dallek, Nixon e Kissinger, Parceiros no Poder, E, Zahar, RJ, p:292). E, de fato, a relação entre EUA e China que nasceu naquele momento revolucionou a história mundial. O que em geral não se reconhece, entretanto, é a importância que tiveram as novas relações dos EUA com a URSS e com a China, para ampliar o espaço monetário do dólar, fora do sistema capitalista, e impor a nova política monetária dos EUA aos seus aliados do mundo capitalista. Uma boa lição para antecipar os próximos passos, no momento em que os EUA procuram – uma vez mais – “ajustar” sua moeda e sua economia nacional, seguindo a coreografia de 1971.

Publicado em 22 de março de 2011

Publicado em 15 de fevereiro de 2011