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Linguagem como identidade

Alexandre Amorim

Parte 1 – Leandro Konder e a revelação da linguagem

A linguagem pode ser definida como um meio de se comunicar. Um conjunto de símbolos que se tornam signos, codificados de modo que uma comunidade consiga se entender através desse sistema específico. Aristóteles dizia que a palavra falda é um símbolo do estado da alma – e que a palavra escrita é um símbolo da palavra falada. Um nome, portanto, é o símbolo do que a coisa nomeada causa em nossa alma. E tudo é nomeado por nós, porque em nós tudo precisa ser expresso e comunicado. O animal de quatro patas que pode ser selado e cavalgado não “é” um cavalo na natureza, mas “é chamado” de cavalo por nós, simbolizando assim o que aquele animal nos suscita. E tudo no mundo é simbolizado em palavras para que possa haver comunicação entre os componentes de uma comunidade que utiliza a mesma linguagem.

Em artigo da edição 416 da revista online “Brasil de Fato”, o filósofo Leandro Konder demonstra a necessidade de um estado inicial de espanto do homem perante o mundo para que haja pensamento crítico e filosofia. Penso eu que, a partir desse espanto (de um sentimento ainda não codificado), o homem se comove com o que percebeu (isto é, sente a necessidade de internalizar aquilo, de sorver o que percebeu em sua individualidade) e, aí sim, me encontro com Konder novamente, para concordar que, após o sentir e o se comover, o homem precisa expressar essa percepção-sentimento, isto é, essa coisa subjetivada. E a necessidade de comunicação força a subjetividade a se objetivar, criando a sistemática da linguagem.

Ao se deparar pela primeira vez com um leão e pressentir o perigo que aquela coisa representa, o homem sentiu medo e precisou exprimir seu sentimento em relação àquela coisa. A palavra “leão” se tornou símbolo de um animal – e, originalmente, símbolo de um animal que oferecia perigo de vida. Obviamente, nem só animais precisam ser comunicados. Amor, ódio, vergonha, calor, frio, fome, revolta – sentimentos mais ou menos abstratos também precisam ser comunicados. E todos eles foram devidamente codificados em palavras, sistematizados na linguagem. Como afirma Konder em seu artigo:

“O que os seres humanos conquistaram na vida prática só foi mantido e aperfeiçoado por meio da linguagem. Quando o indivíduo usava a palavra “leão”, isso não significava nada para a fera, mas podia alertar nossos antepassados e salvar-lhes a vida. Reconhecido o valor da linguagem, as pessoas passaram a cultivá-la com maior rigor e, eventualmente, com maior prazer (aparecimento da poesia, anterior ao nascimento da prosa).”

Se a linguagem nos faz seres comunicativos, é porque somos seres comunitários. Ambas as palavras têm sua raiz baseadas no termo “comum”, o que é relativo a mais de um ser. Isto é, partilhamos a linguagem porque partilhamos a vida que ela codifica. A identidade de uma comunidade pode ser medida pelo uso da linguagem – afinal, eu e você nos entendemos através destas palavras escritas porque somos da mesma comunidade que usa a língua portuguesa. Um texto em português na internet se dirige à comunidade dos falantes dessa língua, não importa onde eles estejam.

Portanto, é necessário que a linguagem seja clara e que sua comunidade a defenda, para que essa comunidade possa se manter identificada e “reveladora” de sua condição, para utilizar um termo de Konder.

Para o filósofo marxista, essa revelação da condição de uma comunidade feita através da linguagem é condição sine qua non para que a massa trabalhadora possa se impor como principal força de uma comunidade. A linguagem deve ser utilizada pela massa trabalhadora como seu instrumento de defesa perante os detentores do poder, uma vez que a linguagem forma um grupo fortalecido pelos objetivos em comum. Revelar problemas e comunicá-los faz parte do cotidiano de uma comunidade. Comunicá-los com precisão e clareza é dever dessa comunidade, para que não se enfraqueça sua força expressiva.

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Publicado em 22 de março de 2011

Publicado em 15 de fevereiro de 2011