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QUANTO ELAS ESTÃO PESANDO

Paulo Cesar

Músico profissional e poeta

As mulheres andam à beira de um ataque de peso.
Elas se pesam em casa, na farmácia, na academia.
Em qualquer lugar onde haja gravidade.
Escondidas ou escancaradas, elas se pesam.
Coitadinha da balança, tão pequena e tão odiada.
Nosso corpo é um atalho às vaidades que não duram.
Um culto ao espelho que se quebra.
E, de quebra, nos traz a pele que,
mais cedo ou mais tarde, resseca.
Portanto, vamos ao que realmente pesa,
na mulher que, hoje, anda deserta.
Desculpas não faltam. Equívocos também não.
Inúmeras tarefas de um cotidiano exigente
trazem-lhe uma tristeza permanente.
Elas rejeitam a leveza da espera.
A feminilidade deu à luz uma quimera.
E a delicadeza anda tão escassa,
Que nem de longe lembra a primavera.
O que sobra é um futuro de passado sem pegadas.
E um presente sempre ausente.
De vez em quando, é preciso rir naturalmente,
pra esquecer o combinado dos retratos.
Então vamos combinar,
não se pode ter a certeza da beleza
com tanto subjetivismo a ser explorado.
Só pra variar, a beleza só é bela quando a igualdade se distrai,
e contrai, em todos os sentidos, a desobediência do improviso.
Definitivamente, a beleza não é uma medida física.
Nossas meninas precisam rever seus conceitos atuais,
pra reencontrarem suas mulheres acolhedoras.
O mundo já nos é demasiadamente brutal,
o que nos restará se flores não se permitem florescer.
Que vocês esqueçam de vez a submissão,
mas não custa lembrar que a natureza selvagem necessita de carinho.
Para isso, felizmente, ainda temos o bom humor
e alguns vestidos retalhados no caminho.
Só assim, colocaremos a beleza no destino da espontaneidade,
e seu segredo, na mágica de ser o que se sente.
Ninguém sabe de onde vem.
Ninguém sabe pra onde vai.
Eu, pelo menos, nunca soube.
E você, sabe?

Publicado em 22/03/2011

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Publicado em 15 de fevereiro de 2011