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A Condição de Haver o Pós-Modernismo

Alexandre Amorim

Vivemos em meio ao Pós-Moderno. Essa afirmação pode causar objeções, basicamente por dois motivos: muitos não consideram “Pós-Modernismo” um termo correto para definir as mudanças culturais ocorridas após o modernismo, desde a crise da segunda fase do capitalismo, durante as Guerras Mundiais, e não concordam que esse termo tenha uma definição per se. Por esse ponto de vista, a palavra não deveria ser usada como denominação para conceituar uma época. Para que possamos persistir em nossa primeira proposição, portanto, tentaremos responder as críticas feitas ao termo utilizado.

Entendemos que o Modernismo ajudou a derrubar as certezas de regras impostas até então pela chamada evolução da ciência e pelo pensamento metafísico que, de certo modo, mantinha dogmas religiosos. O moderno vai ser sempre o conceito em que cabe a ruptura com o anterior. Segundo Lyotard:

a modernidade, seja qual for a época de que date, é sempre inseparável do enfraquecimento da crença e da descoberta do pouco de realidade da realidade, associada à invenção de outras realidades (1993, p. 21).

O moderno sempre duvida da realidade atual e propõe uma nova verdade através do descaminho de um rumo até então tomado. Habermas atesta que o moderno “expressa a consciência de uma época que se relaciona ao passado, para que se veja como o resultado de uma transição do velho para o novo” (1993, p. 92, tradução minha). Não existe a modernidade sem o conceito de realidade anterior a ela, conceito que deve ser considerado como premissa para sua própria desconstrução e reconstrução de algo novo a partir dele.

Nesse sentido, o termo pós-moderno pode ser criticado por duas razões. A primeira desconsidera a fundamentação do moderno como subversivo e transformador, já que existe o “pós-moderno”, i.e., algo que também se propõe a transformar a realidade mas vai além da própria modernidade para obter seu êxito. A segunda razão diz respeito à dependência do termo sugerido em relação ao termo que ele vem tentar substituir: não é aceitável denominar uma época anexando ao seu nome o que ela pretende deixar para trás. O prefixo “pós” atrelado ao termo “moderno” liga por demais intimamente uma suposta nova época à sua anterior. Nas palavras de Ihab Hassan, o termo “evoca o que ele deseja superar ou suprimir, o próprio Modernismo. Assim, o termo contém o seu inimigo em si mesmo” (1993, p. 276, tradução minha).

As críticas se baseiam na noção de que o Modernismo deveria ser desprezado pelo movimento seguinte, o que não acontece: esse desprezo pressuposto está muito mais visível nas críticas do que no próprio Pós-Modernismo. A resposta de McHale enfatiza o significado do prefixo como consequência e não como posterioridade: “o Pós-Moderno segue a partir do Modernismo, de certo modo, mais do que segue após o Modernismo” (1987, p. 5, minha tradução). Mesmo que todos os movimentos culturais possam ser consequência direta de um olhar crítico lançado ao seu anterior, o Pós-Modernismo engloba um valor fundamental do Modernismo: o poder de transformação do que é moderno. A inovação continua a existir na época em que vivemos. Se essa inovação foi a mola propulsora do movimento anterior, ela continua sendo palavra-chave para definir nossa época. Como atesta Linda Hutcheon, “não é uma ruptura nem uma continuação do Modernismo; funciona como ambos e como nenhum” (1993, p. 259, minha tradução). Concluímos, então, que a modernidade existe, sim, inoculada no Pós-Modernismo, e que a dependência deste (explícita em seu nome) em relação ao Modernismo está vinculada a um conceito de transição, a partir de sua origem e transformação, herdado de seu antecessor.

E, no entanto, o Pós-Modernismo apresenta também sua própria constituição. Apesar de ser comumente definido por termos como “ponte” e “transitório”, seu estudo, desenvolvido em meio ao seu acontecimento, se aprofunda cada vez mais nas questões essencialmente pós-modernas, dando a ele a feição de um movimento cultural. Hassan define o Pós-Modernismo através de negativas, como “uma série de tendências culturais relacionadas, uma constelação de valores, um repertório de procedimentos e atitudes”, mas não “um movimento, paradigma ou escola” (1993, p. 274, tradução minha) que contenha nele uma ideologia original e independente o suficiente para que se mantenha por si próprio. Essa visão tende a se dissipar quando os termos aglutinadores usados por Hassan (que levam à generalização) são desprezados e se passa ao exame mais incisivo do que acontece na cultura contemporânea. Ocorre uma desconstrução contínua na época pós-modernista em consequência da multiplicidade de pontos de vista em relação a verdades, que deixam de ter um status intocável e passam a ser verificadas constantemente. O Pós-Moderno apresenta sua face negativa, sim, porque desagrega, mas se reafirma positivamente quando aponta para a possibilidade de viver nessa fragmentação, como afirma Nizia Villaça: “é momento de discussão, de multiplicidade de perspectivas sem queda no relativismo. É perda, é desagregação, mas é também aposta na multiplicidade” (1996, p. 28). Se existe uma “constelação de valores”, ela se apresenta sob o manto de um único valor, que é essa possibilidade sancionada pelo Pós-Modernismo, de uma “multiplicidade de perspectivas”:

o Redentor, a solução e a verdade são postos de lado numa relação em que à submissão aos poderes maiores e universais se sobrepõem o diálogo, a retórica da sedução, os envolvimentos mais próximos, o ludismo interpares, as verdades provisórias e os acordos pontuais. (...) Nem por isso tem procedência a crença anarquista do anything goes (1996, p. 28).

O pós-moderno não se perde em uma intercorrelação de propostas sem objetivo, mas abarca a variedade de perspectivas e suas consequentes propostas como uma nova maneira de subverter a realidade concebida até então. A nova realidade experimentada é a fratura da verdade. A partir dessa visão, cria-se um pilar para a fundamentação de um movimento pós-moderno. É revelador que a definição de um movimento possa ser acompanhada de uma inumerável lista de prefixos de negação, tais como “descontinuidade, deslocamento, descentralização, indeterminação” (Hutcheon, 1993, p. 243, minha tradução), mas essas palavras tornam-se mais expressivas quando lidas como termos que incorporam o que querem contestar, assim como o próprio termo “pós-moderno”. O Pós-Modernismo “usa e abusa, instala e subverte os próprios conceitos que desafia” (Hutcheon, 1993, p. 243, minha tradução). A subversão do que é utilizado, a negação do que já foi aceito e instaurado são a marca registrada dessa época. Nada pode ser estabelecido impunemente, porque nada pode ser visto de apenas um ângulo. Ao aceitar a cultura clássica como influência, o autor pós-moderno usa seus componentes para o pastiche e a paródia. Não há mais o cânone – nem para ser adorado, nem para ser destruído. Linda Hutcheon verifica que:

passar do desejo e da expectativa de um significado certo e único para um reconhecimento do valor de diferenças e mesmo de contradições pode ser um primeiro passo tentador na direção de aceitar a responsabilidade da arte e da teoria como processos significativos (1993, p. 263, minha tradução).

A arte e a teoria se engajam na significação das diferentes perspectivas da verdade e são ferramentas poderosas em um mundo onde o ponto de vista é fundamental para o desenvolvimento do pensamento. Arte e teoria têm o poder da linguagem, que se torna soberana a partir do momento em que a expressão subjetiva é o meio pelo qual a multiplicidade da verdade se torna real.

Essa verificação do real se dá de forma que o receptor entenda sua incapacidade de reconhecer uma verdade única. Quando Hutcheon afirma que o Pós-Modernismo “não é um retorno nostálgico, mas uma revisão crítica, um diálogo irônico com o passado da arte e da sociedade” (1993, p. 244, tradução minha), ela conclui que existe uma nova investigação a respeito do efeito crítico exercido sobre o homem contemporâneo. Essa conclusão nos leva à preocupação de Lyotard acerca da diferença entre as recepções moderna e pós-moderna:

a estética moderna é uma estética do sublime, mas nostálgica; permite que o ‘impresentificável’ seja alegado apenas como um conteúdo ausente, mas a forma continua a proporcionar ao leitor ou ao espectador, graças à sua consistência reconhecível, matéria para consolação e prazer. (...) O pós-moderno seria aquilo (...) que se recusa à consolação das boas formas, ao consenso de um gosto que permitiria sentir em comum a nostalgia do impossível (1993, p. 26).

A linguagem artística pós-moderna renega o prazer da verdade única e de uma forma comum que a represente. O fato sublime de que não há “presentificação” do que foi representado leva à invenção. É o deleite proposto por Edmund Burke acerca do sublime. O deleite do receptor pós-moderno é “inventar alusões ao concebível que não pode ser ‘presentificado’” (p. 27), i.e., imaginar a ideia a seu modo, mas ter a consciência dolorosa de que sua criação dessa ideia não corresponde à realidade. Justamente porque a realidade não corresponde a uma verdade apenas, quando a conformidade com o real se tornou múltipla, não existem regras estabelecidas para a interpretação, nem mesmo para a expressão subjetiva da arte. Assim, não deveria haver um parecer determinado a priori na arte pós-moderna: a obra ocorre envolvida pela liberdade do artista, que reconhece sua total responsabilidade sobre seu trabalho. É no artista que a obra pós-moderna deveria se iniciar, sem amarras a críticas ou regras anteriores. É por isso que Lyotard determina que tais obras “tenham as propriedades do acontecimento” (1993, p. 26). A obra ocorre e se deixa observar, ao invés de seguir regras a serem observadas para poder existir. A arte pós-moderna ocorre buscando suas próprias regras.

O Pós-Modernismo é uma época, enfim, em andamento, e nós estamos em meio a ela. Uma época que pode ter sido classificada prematuramente, mas que certamente existe – ou melhor, está existindo – e se desenvolve com características próprias, ainda que sejam mescladas com elementos herdados de outras épocas, por exemplo, a herança da dialética moderna. Nizia Villaça esclarece que “nas artes, como nas ciências, a ideia moderna fundamental era a de ultrapassagem, identificada com o processo dialético” (1996, p. 23). O pós-moderno ainda é dialético, na medida em que utiliza passado, presente e futuro para criar – seja através de paródias e pastiches, seja pela intertextualidade pura e simples, como em Rosencrantz and Guildenstern are dead (1964), de Tom Stoppard, numa referência a Hamlet, de Shakespeare, ou Em Liberdade (1981), de Silviano Santiago, que vestiu a persona de Graciliano Ramos e romanceou seus dias entre a saída do cárcere e a chegada do Estado Novo. A dialética pós-moderna, porém, não tem como fim a síntese que leve à verdade, mas a síntese como mais um elemento que se forma a partir de cotejamentos, sem a preocupação de acumular verdades ou valores.

Não há uma verdade a ser buscada; portanto, não há valores a serem acumulados nesse sentido: os dias de Graciliano são contados por um narrador que seria ele mesmo, o que se torna impossível, mas os fatos são verificáveis, i.e., a síntese entre ficção e realidade não é resultado de um confronto para a verificação da verdade, mas é a representação de uma possibilidade. Assim, o autor insere sua obra no pós-moderno ao atestar o que existe na essência desse movimento: não há verdade a ser alcançada, mas verdades a serem propostas. O autor pós-moderno parece estar sempre ciente de sua condição: “o traço surpreendente do saber pós-moderno é a imanência a si mesmo, mas explícita, do discurso sobre as regras que o legitimam” (Lyotard, 2002, p. 100).

Existe hoje uma época de características próprias. Ela pode estar apenas preenchendo um lapso de ideias concorrentes, quando as ideologias e as crenças parecem confundir-se entre si e terem seus valores dissipados, mas pode também se consolidar como movimento, é cedo para se determinar. Entretanto, o papel da linguagem como instrumento de poder e a fragmentação da verdade como perspectiva de mundo são embriões suficientemente fortes e não podem ser desprezados como fundamentos de uma cultura que aos poucos se realiza.

Publicado em 22 de fevereiro de 2011

Publicado em 22 de fevereiro de 2011