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Pesquisa na escola: Utilização de plantas medicinais pela comunidade escolar

Adriana Oliveira Bernardes

Mestre em Ensino de Ciências (UERJ)

Introdução

Alvo de interesse de muitas pessoas e assunto constante em programas de televisão, a utilização de plantas medicinais está presente em qualquer boa feira de ciências realizada por escolas de Ensino Fundamental e Médio.

Neste trabalho, além de dar informações sobre o assunto – o que foi feito quando o mapeamento da utilização das plantas medicinais na cidade de Nova Friburgo terminou – interagimos com a comunidade discutindo como essas plantas poderiam ser utilizadas.

Nesse sentido, desejávamos valorizar o saber popular, discutindo e relacionando-o às novas descobertas da medicina homeopática.

Com depoimentos de pessoas que utilizam plantas medicinais desde a infância e de médicos e pessoas da comunidade, conseguimos promover dentro da escola uma discussão sobre a importância e a relevância do saber popular.

Na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, o trabalho foi apresentado em evento municipal promovido pela Universidade Federal Fluminense – Campus Nova Friburgo, incluindo os dados obtidos.

Iniciamos este projeto com o intuito de conhecer quais plantas medicinais eram utilizadas pelos alunos do Colégio Estadual Dr. Tuffy El Jaick (CETEJ), localizado em Nova Friburgo, na região serrana do Estado do Rio de Janeiro.

Como estamos abordando o trabalho de um professor dentro da escola, vale ressaltar a importância de que ele reveja seu papel na escola, que se veja não só como alguém que orienta o processo de ensino e aprendizagem dos alunos, mas que também pode produzir conhecimento.

No novo contexto educacional no qual estamos inseridos, é fundamental que possamos nos ver como professores pesquisadores, no Ensino Fundamental ou no Médio.

A escola oferece inúmeros meios e possibilidades de pesquisa, pesquisas estas que podem beneficiar principalmente a comunidade escolar, porque fala dela, de seus anseios, de problemas vivenciados no dia a dia, enfim, coloca-a em foco.

Quando a escola é colocada em foco, são valorizados o aluno – porque ela existe para ele – e o professor, porque mostra sua importância naquele espaço.

Antes de tudo a ideia era produzir conhecimento sobre a escola e seus atores; esse conhecimento pode ser produzido pelo olhar de qualquer disciplina.

No nosso caso, desenvolvemos um projeto na área de Ciências da Saúde com conotação interdisciplinar, vinculado a Química, Biologia e Português.

Objetivos do projeto

  1. Conhecer as plantas de que os alunos faziam uso e com que finalidade; saberíamos então se as plantas eram utilizadas para as indicações corretas;
  2. Conhecer a forma de preparo da planta; queríamos saber se ela era preparada adequadamente.

Metodologia

Iniciamos nosso trabalho com a pesquisa realizada na escola; desejávamos investigar o uso de plantas medicinais, conhecendo: quais eram as mais utilizadas pelas pessoas, de que maneira realizavam o preparo e para que fim a utilizavam.

Formamos então um grupo de iniciação à pesquisa de Ensino Médio, formado por dois alunos do 2o ano do Ensino Médio. As atividades seriam então desenvolvidas por eles, orientadas por um professor da escola, a partir de projeto previamente elaborado.

A pesquisa foi realizada por meio de questionário, e o grupo de alunos responsáveis pela pesquisa foi recebido em todas as turmas de Ensino Fundamental e Médio. A seguir está o questionário aplicado aos alunos:

Questionário: Utilização de plantas medicinais

  1. De quais plantas medicinais você faz uso?
  2. Com que fim você as utiliza?
  3. Como você as prepara?

Algumas dessas entrevistas foram gravadas em vídeo pelos alunos e serviram como depoimentos que foram apresentados nas palestras realizadas na escola.

Essa interação do grupo de pesquisa com a totalidade de alunos da comunidade escolar foi muito positiva para ambas as partes; a valorização daquele conhecimento pela escola incentivou a participação das pessoas, que colaboraram com os alunos demonstrando grande interesse.

Após a realização das entrevistas, começamos a fazer uma série de palestras dentro da escola sobre plantas medicinais, discutindo seus princípios ativos e seu uso.

Palestras na escola, divulgação do projeto

Depois da pesquisa, realizamos palestras na escola com o intuito de falar sobre a regularização de remédios e passar informações sobre sua utilização.

Queríamos esclarecê-los sobre os tipos de plantas existentes, para que serviam e como poderiam ser preparadas.

Os dados da pesquisa foram apresentados na Semana Nacional de Ciência 2011 em mostra científica realizada pela escola, sendo também apresentados na Feira de Ciências da UFF – Campus Nova Friburgo, além de ter participado da FECTI.

As palestras apresentadas sobre plantas medicinais foram vistas por toda a comunidade escolar. O envolvimento era intenso e observamos que o assunto era de grande interesse, afinal não havia quem nunca tivesse experimentado alguma daquelas plantas para algum problema de saúde que fosse.

Estes foram os tópicos desenvolvidos nas palestras:

  1. Visão da OMS (Organização Mundial da Saúde) sobre a utilização de plantas medicinais pela população;
  2. O que é a Anvisa;
  3. Princípios ativos das plantas;
  4. Principais plantas medicinais;
  5. Plantas mais utilizadas pela comunidade escolar.

Nas fotos a seguir está a apresentação do grupo de iniciação à pesquisa.


Foto 1: Aluna Natyele Gabrib, do grupo de pesquisa Utilização de Plantas Medicinais.

Foto 2: Comunidade escolar reunida para a palestra.

PARTICIPAÇÃO NA FECTI

A FECTI (Feira Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação) é organizada anualmente pela Fundação Cecierj (Centro de Ciências e Educação a Distância do Estado do Rio de Janeiro).

Várias cidades do estado participam do evento; na última, realizada em 2011, participaram trabalhos de Resende, Nova Friburgo, Campos dos Goytacazes e da cidade do Rio de Janeiro, entre outras.

A feira recebe trabalhos em cinco eixos temáticos: Desenvolvimento de Tecnologia, Ciências Exatas, Ciências da Saúde e da Terra, Ciências Biológicas, Trabalhos Interdisciplinares e 8ª série.

O evento acontece no Museu da República, na cidade do Rio de Janeiro, desde 2005.

Na Foto 3, estão alunos de iniciação à pesquisa na FECTI.


Figura 3: Alunas de iniciação à pesquisa do CETEJ: Bárbara Silveira e Natyele Gabrib.

Blog do projeto

Hoje em dia temos a possibilidade de divulgação dos projetos por meio de blogs, que são sites, gratuitos ou não, no qual podemos disponibilizar informações sobre o projeto, eventos vinculados a ele, vídeos e fotos.

O site escolhido foi o Blogspot; nele também é possível que o público deixe comentários. Transcrevemos logo a seguir alguns deles.

Comentários

O blog do projeto foi amplamente visitado pelos alunos do colégio. Eles foram estimulados a acessá-lo com o fim de perceberem que a escola, além de ser um local de ensino e aprendizagem de disciplinas, também pode se transformar num espaço de pesquisa da qual eles podem participar.

Interagindo com o blog, foram registrados os seguintes depoimentos:

“Muito interessante esse contato das pesquisadoras com o público, pois há uma relação de contribuição de ambas as partes. Elas foram beneficiadas com as informações obtidas e nós, público, podemos comprovar os resultados da pesquisa e as informações de como devemos utilizar de maneira correta as plantas medicinais, que podem ser tão eficazes quanto um remédio produzido em laboratório, sendo o natural muito menos agressivo ao nosso organismo! Um ótimo trabalho, parabéns!” Letícia Dittz – Turma 3002.

“Primeiramente parabéns a vocês, meninas! Vocês conseguiram passar a mensagem para os alunos de forma bem tranquila e bacana! Gostei muito quando vocês falaram sobre o boldo; achei interessante como devemos conhecer melhor as plantas para termos eficácia em nossos chás. Parabéns, meninas, fiquei encantada com o trabalho de vocês” Caroline Silva – Turma 3002.

“Gostei muito do projeto, principalmente por ser um projeto de caráter informativo, porque através dele podemos esclarecer muitas dúvidas com relação às plantas medicinais e, claro, aprendemos também como utilizá-las e para que serve um determinado tipo de planta e qual o seu poder medicinal. Gostei muito! O grupo está de parabéns pelo projeto” Gleyson Areas da Silva – Turma 3001.

“Por meio do trabalho nós tiramos dúvidas, aprendemos os tipos de plantas que podem ou não ser usadas, formas corretas de preparo e outros benefícios. Também foi feita uma pesquisa que buscava saber quais plantas as pessoas conheciam e como eram preparadas. O resultado foi surpreendente, pois o modo de preparo quase nunca era seguido de forma correta. Parabéns pelo trabalho” Krishanna Teixeira – Turma 1002.

Acessos ao blog

Foram registrados 1.048 acessos do público, no período de maio a dezembro de 2011.

Conclusões

Acreditamos estar desenvolvendo um trabalho potencialmente inclusivo, pois as divergências entre o conhecimento da escola e o conhecimento do público que a frequenta vêm provocando, entre outras coisas, o distanciamento entre a escola e a comunidade, e sabemos que para oferecer ensino de qualidade necessitamos nos integrar.

Uma das formas que vêm fazendo com que alcancemos bons resultados é a valorização dos saberes populares, o que dentro da disciplina Biologia pode ser realizado no trabalho do conhecimento das plantas medicinais.

Nesse contexto, os alunos puderam observar que a escola poderia oferecer mais que o ensino formal e que, uma vez na escola, o aluno poderá também desenvolver-se por meio de atividades de pesquisa que colaborem com uma formação cidadã.

Referências

AMOROZO, M.C.M. A abordagem etnobotânica na pesquisa de plantas medicinais.

BRASIL. MEC. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais – Introdução. Brasília: MEC/CNE, 2001.

BRASIL. MEC. Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2006.

TAFNER, C. F. et al. Uso de plantas medicinais como alternativa fitoterápica nas unidades de saúde pública de Santa Teresa e Marilândia-ES.

Blog do projeto

http://mapeamentocetej.blogspot.com/

Publicado em 13 de março de 2012

Publicado em 13 de março de 2012