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PROFESSORES E A EDUCAÇÃO AMBIENTAL

Eduardo Beltrão de Lucena Córdula

Especialista em Educação licenciado em Biologia (UFPB); pesquisador (UFPB/CE-CNPq); professor de Ciências da Prefeitura de Cabedelo-PB

Atualmente, os esforços para mudar a percepção do ser humano e da sociedade perante o meio ambiente é universal, com esforços de vários setores da própria sociedade, tendo como foco a Educação Ambiental (EA) formal, a fim de sensibilizar cidadãos verdadeiramente ativos, participativos e conscientes para, com isso, garantir a sobrevivência do ser humano nas próximas décadas (DIAS, 1998).

Muito se vem discutindo sobre a EA interdisciplinar no ensino formal, mas para implantá-la é necessário unir os vários campos das Ciências Humanas, e não apenas as disciplinas escolares (BRANCO, 2003).

Em 1980, a EA começou, no Brasil, a ter incentivo governamental, com a criação do Conama (BRASIL, 1997a), mas, em 1994, foi criado o Pronea – Programa Nacional de Educação Ambiental, que elaborou e traçou estratégias de atuação da EA para o ensino formal e a gestão ambiental, com campanhas específicas de cooperação e articulação, além da criação de redes e centros especializados para canalizar, implantar e dar suporte à sua implantação em diversos setores da sociedade (BRASIL, 1998).

Em 1999 foi promulgada a Lei n° 9.795, que “Dispõe sobre a Educação Ambiental, institui a Política Nacional de Educação Ambiental e dá outras providências” (BRASIL, 1999, p. 1), garantindo em lei a efetivação da EA e como referência a todas as esferas da sociedade para que possam implantar e desenvolvê-la tendo em vista a preservação de nosso patrimônio ambiental.

Portanto, a EA deve estar presente na escola para garantir a construção de valores voltados à qualidade de vida e à sustentabilidade, graças a programas que atendam às reais necessidades da sociedade contemporânea (BRASIL, 1997b).

A Educação Ambiental na escola pública deve ter caráter conservacionista, biológico e crítico para uma sociedade sustentável, para, atuando com o aluno, a partir de seus conhecimentos, ter sucesso no desenvolvimento da consciência crítica e autossustentável (ABÍLIO, 2005). Para tanto, deve-se partir do currículo escolar para inserir, nas disciplinas, informações que tragam mudanças de atitude e contribuam para a formação do cidadão.

A Educação Ambiental no município de Cabedelo vem sendo tratada, segundo pesquisas de Guerra e Abílio (2006), com formação continuada de professores, com enfoque experimental, crítico, práxico, interdisciplinar, colaborativo e participativo. Dessa forma, por meio da Pedagogia de projetos, os autores mencionados propuseram uma forma de trabalho que favoreceu a articulação entre conteúdo da matriz curricular com os conteúdos transversais. Com isso, identificaram a necessidade de modificação na prática docente, incorporando a ampliação da visão de mundo, mudando a maneira de realizar o trabalho escolar, desenvolvendo a capacidade participativa e de se relacionar com o mundo, organizar comportamentos de maneira a ampliar e diversificar a participação de pessoas e fazer da informação um instrumento de conhecimento para o aluno refletir a partir do saber experimental (GUERRA; ABÍLIO, 2006, p. 25-26).

Segundo Guerra e Abílio (2005, p. 102), os professores do município de Cabedelo possuem uma percepção dualista dos problemas ambientais do entorno de sua escola, onde expõe a questão do lixo, seguida pela degradação ambiental dos mangues e a falta de saneamento básico, pois há duas visões aqui relacionadas: a “preservacionista (preservar a natureza) e a conservacionista (“conscientizar” os alunos)”.

Segundo Branco (2003), muito se discute sobre ecologia ou preservação do meio ambiente nas escolas, porém, preservá-lo perpassa a educação da população em todas as faixas etárias, com a Educação Ambiental, iniciando no seio familiar e não “finalizando nos bancos da escola básica ou da academia” (p. 1).

Na Escola Municipal Major Adolfo Pereira Maia, participaram da pesquisa 9 professores do Ensino Fundamental II do turno da tarde (Matemática, Ciências, Geografia, História, Português, Inglês, Artes e Educação Física), que lecionam para 124 alunos.

A pesquisa pode ser caracterizada como: qualitativa, pois tem como foco a interpretação que os próprios participantes têm da situação sob estudo (MOREIRA, 2004); e como fenomenológica, ao trabalhar com os significados das experiências de vida sobre uma determinada concepção ou fenômeno (SATO, 2001).

Para a obtenção dos dados de análise fenomenológicos, foram utilizados questionários pré-elaborados com perguntas objetivas e discursivas, para levantar, no público pesquisado, as informações que possuem acerca da temática ambiental, da escola e dos procedimentos didático-pedagógicos (André; Mediano, 1988; Marconi; Lakatos, 2002).

Todos os dados foram obtidos com autorização da gestão escolar e dos participantes envolvidos, respeitando a ética na conduta da pesquisa com base na Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde (BRASIL, 2009).

A análise e a interpretação dos dados obtidos com os questionários foram em percentuais de ocorrência em virtude do público participante (AZEVEDO; CAMPOS, 1981).

Com base nos dados obtidos, obtivemos que:

  • 50% dos professores realizam projetos pedagógicos (PP) na escola, porém 37,5% afirmaram que só às vezes é que realizam tais projetos com seus alunos, enquanto 12,5% não responderam à pergunta;
  • 62,5% dos docentes realizam a interdisciplinaridade, em virtude da interação entre eles, enquanto 37,5% afirmaram que às vezes a realizam; uma parcela ainda não adota interdisciplinaridade como forma didática de trabalhar o conteúdo;
  • 50% dos professores não realizam trabalhos ou projetos em Educação Ambiental na escola; 25% do corpo docente afirmam realizar trabalhos ou projetos em EA e 25% só os realizam às vezes;
  • 75% citaram como componentes do meio ambiente a natureza, em que a visão naturalista e fragmentada sobre o meio ambiente ainda permanece presente. Já a visão antropocêntrica, aqui considerada como componentes humanos, está presente em 12,5% dos professores; apenas 12,5% consideram a totalidade do meio ambiente – visão holística – incluindo nele o ser humano, a natureza e a preservação ambiental.

O presente estudo mostrou relutância de parte dos professores em realizar projetos pedagógicos em suas disciplinas com seu alunado, e ainda ocorre falta da interdisciplinaridade no ensino formal. Dentro da grande problemática ambiental vivenciada hoje no planeta, se faz necessário atuar através da Educação Ambiental para a promoção de atitudes pró-ambientais no nosso alunado, o que ainda pouco vem ocorrendo nas escolas ou apenas é desenvolvido pelas ciências da Terra (geografia e ciências).

Percebemos que há também, desconexão fenomenológica dos docentes com a necessidade de uma formação cidadã do seu alunado, eles mesmos necessitando se autoavaliar e mudar sua concepção de ser humano, meio ambiente e planeta, para que adquiram uma visão holística e, dessa forma, trabalhem corretamente com o alunado, com práticas para promoção de atitudes ambientalmente corretas.

Referências

ABÍLIO, J. F. P. Pedagogia de projetos e a temática ambiental no ensino de ciências: formação continuada de professores do ensino fundamental de Cabedelo. In: ABÍLIO, J. F. P. & GUERRA, R. A. T. A questão ambiental no ensino de ciências e a formação continuada de professores do ensino fundamental. João Pessoa: UFPB/FUNAP, 2005. p. 47-62.

ANDRÉ, M. E. D. & MEDIANO, Z. D. O cotidiano na escola: elementos para a construção de uma didática fundamental. In: CANDAU, V. M. (Org.). Rumo a uma nova didática. 8ª ed. Petrópolis: Vozes, 1988.

AZEVEDO, A. G. & CAMPOS, P. H. B. Estatística básica: cursos de Ciências Humanas e de Educação. 4ª ed. Rio de Janeiro: LTC, 1981.

BRANCO, S. Educação Ambiental: metodologia e prática de ensino. 2003.

BRASIL. Educação Ambiental. Brasília: MEC/Unesco, 1997a.

_______. Educação ambiental: as grandes orientações de Tbilisi. Organizado pela Unesco. Brasília: Ibama, 1997b.

______. A implantação da Educação Ambiental no Brasil. Brasília: MEC, 1998.

______. Educação para um futuro sustentável: uma visão para ações compartilhadas. Brasília: Unesco/IBAMA, 1999.

______. Diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos. Brasília: CNS/MS. Disponível em: http://www.ufrgs.br/bioetica/res19696.htm. Acesso em: 21 fev. 2009.

DIAS, G. F. Educação ambiental: princípios e práticas. 5ª ed. São Paulo: Gaia, 1998.

GUERRA, R. A. T. & ABÍLIO, F. J. P. A. A percepção ambiental de professores de escolas públicas de ensino fundamental de Cabedelo, Paraíba. In: GUERRA, R. A. T. & ABÍLIO, F. J. P. A. [Orgs.]. A questão ambiental no ensino de Ciências e a formação continuada de professores de Ensino Fundamental. João Pessoa, 2005. p. 91-104.

GUERRA, R. A. T.; ABÍLIO, F. J. P. Educação Ambiental na escola pública. João Pessoa: Fox, 2006, 234p.

MARCONI, M. A.; LAKATOS, E. M. Técnicas de pesquisa. 5ª ed. São Paulo: Atlas, 2002.

MOREIRA, D. A. O método fenomenológico na pesquisa. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2004, 152p.

SATO, M. Apaixonadamente pesquisadora em Educação Ambiental. Educação, Teoria e Prática, v. 9(16/17), 2001, p.24-35.

Publicado em 24 de abril de 2012

Publicado em 24 de abril de 2012