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Lirismo em tempo de tragédia

Pablo Capistrano

Filósofo, professor do IFRN

Os trágicos, amigo velho, ensinaram que a vida é um drama que se desenrola em condições muito desfavoráveis. Nascemos sem saber o porquê de termos vindo ao mundo. Estamos soltos neste planeta hostil, à mercê do destino e do acaso, com o chão sob nossos pés e o céu amplo e vazio sobre nossas cabeças. Não sabemos quando vamos sair deste mundo, mas temos certeza de que nosso tempo é limitado e de que precisamos fazer logo aquilo para que fomos destinados, se é que há algum sentido predeterminado para a nossa existência.

O sentimento trágico do mundo é o sentimento de um fluxo, de um contínuo, em que passado, presente e futuro se sobrepõem e se sucedem, em uma linearidade marcada pela temporalidade.

Se a vida é um drama, ela é um drama do tempo. Se ela é trágica, é a tragédia desse intervalo, dessa falta de significado que ocupa o espaço entre o nascimento e a morte.

Para alguns, o tempo da humanidade é o tempo da tragédia. Para os europeus, os gregos, os alemães, a tragédia é a mãe da humanidade. Mas, nestes tempos de violência sombria, de surto coletivo, de ansiedade que antecipa as grandes conflagrações, não é auspicioso imolar a humanidade no altar da tragédia.

O poético é o maior antidoto para o trágico.

Se o bode expiatório do drama é o homem lançado no tempo, imerso no fluxo da vida que o leva sem pausa ou negociação do passado desconhecido para o futuro incerto, no poético a linguagem emerge no absoluto agora, no presente total, na eternidade de todos os instantes.

Quando a gente mete o lírico no meio da tragédia, o peso da condição humana ganha o arejamento do instante. A linguagem se liberta de sua obsessão narrativa e a gente não precisa mais se comprometer com o antes e com o depois. Não temos mais futuro, não temos mais passado. Estamos imersos, boiando no mar da eternidade, no fluxo sem curso definido, sem linha determinada que nos leva a um lugar ou outro.

Toda linguagem que nos põe na direção de alguma coisa é trágica. Toda vida que se estrutura para um futuro projetado é parte de uma longa e dramática construção de um narrador trágico, que quer nos prender à velha e densa linha da vida e da morte. Do berço ao túmulo, em um curso rígido, que nos empurra em uma única e exclusiva direção, como se fôssemos personagens de um romance cósmico escrito por um demiurgo do mal.

A poesia nos liberta porque ela nos leva a perceber o momento, o instante, o agora em um arrebatamento de eternidade que contamina o espaço e que transborda pelas bordas do tempo. É o místico, o sagrado, o absoluto, o particular, o que transgride as fronteiras, o que distorce a consciência, o que entrega o pensamento, em toda a solidão de seus afetos ocultos, na bandeja infinita das possibilidades humanas.

Dê um tempo na sua tragédia particular, amigo velho. Tome uma dose de poesia e segure o infinito na palma da tua mão que a eternidade aparece pra você na densidade solar de um inexpugnável segundo.

Publicado em 22 de maio de 2012

Publicado em 22 de maio de 2012