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Vendo TV no sábado de manhã

Alexandre Amorim

Sábado, dez horas da manhã. Tempo meio chuvoso. O pai está com o filho, os dois sentados no sofá, tomando um suco de laranja e vendo TV. O filho já tem 10 anos, mas ainda gosta bastante de ver desenhos.

– Por que eles falam desse jeito tão diferente no desenho, filho?

– Diferente, como?

– A gente não fala assim: “Investigaremos o esconderijo do Green-Slime”.

– Como a gente fala?

– Fala assim: “A gente tem que achar onde o Melecão se esconde”. Ninguém usa “investigar” ou “esconderijo”, nem conjuga a primeira pessoa do plural enquanto conversa. E nem fala o nome todo da pessoa.

– Você às vezes me chama de João Ricardo.

– Só quando vou te dar bronca.

– Ah, é. “Slime” é melecão, em inglês?

– É quase. Aliás, por que todos os desenhos têm nome em inglês, hoje?

– Bob Esponja não tem. E todos eles são americanos, por isso os nomes são em inglês.

– Mas podiam traduzir, né?

– Assim sem tradução é bom, a gente aprende inglês mais rápido.

– E quem não quer aprender inglês?

– Vai viver na Lua. Ou na China.

– Ou em Cuba, né, meu filhinho capitalista?

– Que que é isso?

– Nada. Aqui no Brasil fazem coisas muito boas pra crianças.

– Lá vem você falar do Sítio do Picapau Amarelo, de novo.

– É a melhor obra infantil do mundo!

– Você já leu todas?

– Deixa de ser bobo. Isso é modo de falar.

– Bobo é você, que não gosta de americano, nem quer me levar pra Disney.

– Tem muito lugar no Brasil melhor do que a Disney.

– E nesses lugares tem o Epcot? Tem o Mickey?

– Nesses lugares tem rios, praias, tamanduá-bandeira, onça, lobo-guará...

– É, deve ser legal. Vamos, nas férias?

– Claro!

– E aí, nas outras férias, vamos pra Disney?

– É longe, filho.

– Tem avião, pai. Você tem medo?

– Um pouquinho.

– Então posso ir com o Gabriel? Ele vai com o pai dele.

– Vamos ver, vamos ver.

– Vamos ver, na sua língua, quer dizer: “não”.

– Filho, não tem desenho melhor passando em outro canal, não?

– Ah, não muda, não! Esse é o desenho que eu mais gosto.

– Antigamente tinha Papa-Léguas, Corrida Maluca...

– É, devia ser ótimo. Por que você não gravou?

– Não tinha videocassete.

– O que é videocassete?

– Não tinha como gravar, João.

– Como assim?

– Só tinha TV, não tinha DVD, pendrive, internet, celular, iPad.

– O mundo era em preto e branco...

– Deixa de gracinha. Era muito melhor naquela época.

– Eu acho hoje melhor.

– Você não pode saber, você não viveu naquela época.

– E você não é criança, hoje.

– Aproveita, filho. Depois dá uma saudade danada. Muda tudo, a gente não consegue mais entender direito as coisas que os filhos gostam.

– Mas a gente não precisa brigar por causa disso.

– OK, meu filho. Não discutiremos por isso.

– Você falou OK, de americano. E ainda usou esse “discutiremos” esquisito, aí. Parece personagem de desenho.

– João, vou te ensinar um negócio do meu tempo...

– O quê?

– Vai ver se eu tô lá na esquina.

– ?

Publicado em 19/06/2012

Publicado em 19 de junho de 2012