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Esporte e dialética – a agonística como base para a ética

Alexandre Amorim

Algumas lutas trazem alcunhas que podem causar estranhamento. O boxe, por exemplo, é conhecido como “nobre arte”. Talvez a noção de nobreza tenha vindo pelo fato de o boxe ressurgir, após um esquecimento de séculos, na Inglaterra – um país de aristocracia e realeza. O fato é que, mesmo com tanta pompa, o boxe é uma luta que nasceu bem mais agressiva do que é hoje. Na Grécia, e mesmo depois, no Império Britânico, as luvas não eram propriamente acolchoadas e ganhava quem derrubasse o oponente até que este não conseguisse mais se levantar. A curiosidade, aqui, é saber por que uma briga de socos permanece como nobre.

Outro bom exemplo de espanto é saber que o termo jiu-jítsu significa "arte suave" em japonês. Para quem observa dois lutadores no tatame, é difícil detectar suavidade em seus gestos. Mas, se pensarmos em outras artes marciais que utilizam espadas e golpes que visam degola ou perfuração, a técnica do jiu-jítsu (baseada em submissão e imobilização), por meio de alavancas com o próprio corpo, pode ser vista como mais branda. Além disso, a suavidade baseia-se na capacidade do lutador de controlar uma situação de confronto com golpes de guarda, e não de golpes de ataque aberto ao adversário.

E por que dão a essas lutas o título de arte? Aqui é preciso voltar ao grego e ao latim para entender que arte e técnica sempre foram dois termos entrelaçados. A técnica estará sempre ligada à formalização do estado artístico. E a luta traz em si o estado artístico: a composição feita de esporte e dança, a relação entre superação de limites próprios e agonística, a tensão entre os desenvolvimentos pessoal e lúdico são elementos formadores da luta como representação do desejo humano de transcender-se.

Dos foros religiosos ao além-homem de Nietzsche, existe a noção de que o homem não se basta. Resolver esse anseio pela metafísica ou pela busca de uma conscientização da noção de suas possibilidades está nas mãos do homem como sujeito autônomo. Talvez o olhar além de si mesmo seja o que há em comum entre as formas de resolver o anseio de transcendência, seja olhar para um deus, seja olhar para a potência de si mesmo, seja olhar para o devir.

O termo “agonística” tem como raiz a palavra “agonia”, que, em grego, significa luta, como superação por meio do conflito. Assim, essa luta pode ser uma questão interna – um momento de crise do sujeito, em que ele “luta” consigo mesmo para superar algo que o agonia – ou uma questão externa, como uma discussão dialética, as guerras ou os jogos olímpicos. Mas o termo em si surgiu para designar a competitividade entre atletas da Grécia Antiga. Ou, como escreve Deleuze em O que é a filosofia?, Atenas “inventa o agôn como regra de uma sociedade de ‘amigos’, a comunidade dos homens livres enquanto rivais (cidadãos). É a situação constantemente descrita por Platão: se cada cidadão aspira a alguma coisa, ele encontra necessariamente rivais”. Isto é, as lutas fomentadas entre atletas gregos eram reflexo de uma ética maior, que preconizava a rivalidade não como fonte de opressão, mas de uma busca de equilíbrio de forças que formaria a cidadania. Não é possível que todos os cidadãos aspirem ao mesmo bem comum (a cidadania em equilíbrio) sem perder suas características individuais, e por isso é necessário desenvolver seu dom de luta, sua capacidade de argumentar (física e intelectualmente) por seus desejos.

Aos poucos, a agonística se tornou um termo ligado à dialética. O valor ético da luta física passou a dar lugar ao valor da argumentação intelectual. O iluminismo tratou de derrotar o valor da experiência física em favor do elogio da razão.

Hoje, é fundamental compreender o resgate das artes marciais e dos jogos de lutas como um elemento compositor da ética da cidadania. É difícil associar a essa ética estereótipos de lutadores cheios de químicas embrutecedoras do corpo e mesmo aqueles que usam o esporte para a promoção de valores mercadológicos, como a venda de modeladores corporais, dietas empobrecidas feitas apenas para emagrecimento e enrijecimento muscular ou aqueles cujo discurso cai apenas no vácuo de “ser o melhor”.

Não se trata de ser o melhor, em nenhum sentido da agonística. Em nenhum momento a superação por meio da luta significa ser melhor do que o outro, mas superar o outro naquele momento e naquela técnica para fazer valer seu argumento (ou sua escolha). Importa, pela ética, saber que a escolha utilizada para essa superação atravessará novos desafios e pode não ser mais a melhor escolha. Não existe o melhor atleta, mas o atleta que, em determinado momento, supera os outros. Essa superação só não será ultrapassada nos manuais e almanaques que pretendem vender um mundo de egos inflados e prepotência, ao invés de desafios e potencialidade.

A quem interessa manter heróis em pedestais? A quem interessa manter mitos? A agonística é uma aula ética de como conviver com forças opostas. Basta saber usá-la.

Referência

DELEUZE, Gilles. O que é a Filosofia? São Paulo: Ed. 34, 1992.

Publicado em 10 de julho de 2012

Publicado em 10 de julho de 2012