Este trabalho foi recuperado de uma versão anterior da revista Educação Pública. Por isso, talvez você encontre nele algum problema de formatação ou links defeituosos. Se for o caso, por favor, escreva para nosso email (educacaopublica@cecierj.edu.br) para providenciarmos o reparo.

A carta subiu no telhado

Tatiana Serra

“Que injusto é o mundo: tanta saliva gasta discutindo se o Kindle acabará com o livro e se o iPad engolirá o jornal, mas nem uma lágrima rolada pela carta, essa personagem central dos últimos séculos, que foi solapada pelo e-mail e sumiu sem que nos déssemos conta, sem que pudéssemos velá-la ou guardar luto” (Antonio Prata, para a Folha de S. Paulo).

Hoje acordei com saudades de escrever uma carta para alguém e de receber umas palavras numa folha de papel envolvida por um envelope cheio de selos e trazido pela clássica figura de um carteiro, figura essa quase poética em minhas lembranças.

Provavelmente ainda continuaremos recebendo correspondências em casa. Vez ou outra pode ser que cheguem alguns cartões-postais, mas a caixa de correio só ficará repleta mesmo é de contas de banco e de panfletos; com sorte, anúncios de restaurantes com desconto... O que um dia também subirá no telhado. Cartões de aniversário, cartas de amigos distantes? Esses estão cada vez mais raros e, para muitos, já não existem ou logo não existirão.

Quem está nas redes sociais será convidado para os eventos. Quem não está não será incluído nas baladas e não saberá como as fotos ficaram no dia seguinte... Ou melhor, enquanto a noitada estiver rolando. Quer saber onde essas pessoas estão? Basta se conectar para saber onde andam fazendo check-in por aí.

Talvez tivessem que nos contar com cuidado o que acabaria por acontecer: a carta subiu no telhado, e não foi para pegar uma pipa e deixar os homens encantados, como a Gabriela de Jorge Amado. Esse papel, que ficou marcado como símbolo da comunicação, não só subiu no telhado como caiu dele e se perdeu.

E quem de nós pode dizer que também não perdeu com sua morte? Deve ser como lembrou o escritor Antonio Prata: “quem mais perdeu com a morte da carta não foi a amizade, meus caros, não foi o amor nem a profundidade: o grande órfão do declínio postal foi o carteiro” (personagem que ainda sobrevive, mas me pergunto até quando).

Publicado em 07/08/2012

Publicado em 07 de agosto de 2012