Este trabalho foi recuperado de uma versão anterior da revista Educação Pública. Por isso, talvez você encontre nele algum problema de formatação ou links defeituosos. Se for o caso, por favor, escreva para nosso email (educacaopublica@cecierj.edu.br) para providenciarmos o reparo.

A equação mais difícil

Mariana Cruz

Aquela história que nossos pais e avós cismam de repetir, de que “no meu tempo era diferente”, às vezes soa como puro saudosismo; outras vezes, serve para mostrar a mudança de costumes e valores de quando eram jovens para os dias de hoje. Muitos aproveitam para alfinetar: “como as coisas pioraram”.

Meu pai, quando lembra seus tempos de escola, foge um pouco da regra. Ele suprime parcialmente a memória afetiva e fala de certos absurdos vividos naquela época. Algumas passagens que hoje em dia seriam caso de polícia e que outrora eram vistas com naturalidade. Como o caso de um colega seu, negro, e um dos mais baderneiros da turma. Quando ele exagerava na bagunça, a diretora, sem a menor cerimônia, passava-lhe um duro carão e o chamava de “negrinho”. Não bastasse isso, por vezes complementava a reprimenda dando, pasme, cascudos na cabeça do arteiro. Ele, porém, não se sentia nada humilhado com tal agressão (afinal, naqueles tempos, tabefes nos infantes, sobretudo nos atentados, eram considerados corretivos eficazes): assim que a diretora se retirava do recinto, ele começava a praguejar, furioso: “tomara que um avião passe e jogue uma bomba nessa escola”. Era o tempo da Segunda Guerra.

Se a escola de outrora traz essas lastimáveis lembranças – assim como a palmatória, em tempos ainda mais remotos –, tinha também o lado bom: a alta qualidade do ensino e o respeito com que o professor era tratado pelos alunos e pela sociedade. Fico impressionada como meu pai lembra, ainda hoje, de diversos conteúdos aprendidos: de fórmulas matemáticas a acontecimentos históricos, passando por elementos da sintaxe da nossa língua e declinações latinas. Outra coisa que me chama a atenção sobre o alto nível da educação de antes deve-se ao fato de meu pai ter sido um rapaz proveniente de família pobre, estudante de uma escola pública – que não era do nível de um Colégio Pedro II, e sim uma simples escola do subúrbio – e, mesmo trabalhando (como não tinha dinheiro, teve que trabalhar quando terminou o Ensino Médio), conseguiu passar no vestibular de Medicina para a então Faculdade Nacional de Medicina. Claro, não tiro o mérito do meu velho, que ainda hoje é muito estudioso e inteligente, mas ele mesmo divide a responsabilidade de seu êxito com a boa base que sua escola lhe deu.

Hoje em dia, vendo meus alunos e ouvindo o relato de meus colegas de trabalho, penso que, se não fossem as cotas para os estudantes de escola pública (não me refiro à meia dúzia de escolas públicas top de linha como o Pedro II, os colégios de Aplicação e as escolas técnicas, que estão entre as mais bem colocadas do Enem), muitos deles encontrariam sérias dificuldades para passar para uma universidade pública de medicina. Não penso que isso seja por incompetência deles – alguns, inclusive, são bastante inteligentes –, mas pelas lacunas deixadas pela educação que tiveram. Há uns dois ou três anos, por exemplo, dei aula para uma turma que ficou o ano inteiro sem aula de Química e meio ano sem aula de Biologia. Assim, por mais inteligentes que alguns possam ser, fica difícil passar em um vestibular concorrido, que tenha um grau de exigência maior em tais disciplinas.

Nestes anos de magistério presenciei muita coisa: carência de professores, salas sem porta e com as paredes riscadas, cadeiras quebradas, professores faltosos, alunos desinteressados com seus fones de ouvido com volume nas alturas, lousas pichadas, professor ofendendo aluno, aluno ofendendo professor, entre outros absurdos. Alega-se que, com a aprovação automática, muitos alunos não se esforçam nos estudos, pois sabem que vão passar de ano anyway; por outro lado, se não fosse esse sistema, muitos desistiriam na primeira repetência. Como resolver tal teorema? Dou aula para o Ensino Médio e, apesar de não ser professora de Português, não posso deixar de corrigir quando um aluno me entrega uma texto com grafias como “derrepente”, “porisso”, “quiz”, “oque” (este último peguei hoje). Com falhas desse nível, fica difícil tirar uma nota realmente boa numa redação de vestibular.

No tempo do meu pai, as escolas não tinham ar-condicionado, nem sala de vídeo, nem computador. Acho bom que tenha tudo isso, mas é mais fundamental que as escolas tenham professores e que eles sejam mais valorizados. Antes, o professor era reverenciado: todos os alunos se levantavam quando ele adentrava a sala de aula e só se sentavam quando ele mandava. Os professores iam de terno e gravata e as mulheres de salto alto, vestiam-se como os executivos atuais. O professor não precisava implorar por silêncio, pedir repetidamente para o para o aluno sentar, tirar o boné. Por outro lado, eu, como professora, tento ter uma relação tranquila com os estudantes e entendo que os jovens de hoje são mais contestadores – o que é bom, não são como as ovelhinhas reprimidas de outrora. E faz parte desta fase da vida testar os próprios limites e o dos outros; além disso, muitos têm necessidade de se autoafirmar. Nesse afã de ser aceito, por vezes ultrapassam os limites: confundem liberdade com zoeira, amizade com intimidade – exageros de que nem mesmo os adultos estão livres. Difícil saber definir essa linha.

Se antes o salário de um professor era alto o suficiente para que ele não fosse obrigado a trabalhar em cinco escolas e, com isso, tivesse mais tempo para preparar aulas, pedir trabalhos mais elaborados e estudar, talvez muitos alunos de escolas públicas pudessem disputar em condições de igualdade o ingresso numa faculdade concorrida.

Escuto muitos professores dizendo que os alunos “não sabem nada”, sobretudo os docentes da área de exatas, cuja matéria é toda encadeada e necessita de uma base sólida para aprender os novos conteúdos. Vejo que essa falta de fundamento faz com que muitos alunos terminem o terceiro ano do Ensino Médio sem saber fazer sequer uma equação de segundo grau nem diferenciar advérbio de adjetivo. Da parte dos estudantes, escuto reclamações de que alguns professores não ensinam direito, faltam, chegam atrasados. Afinal, de quem é a culpa: dos jovens que colocam os pés em cima da mesa ou dos salários abaixo da média?

Tal descaso com a educação faz com que uma coisa puxe a outra: muitas vezes escutei alunos, reclamarem, principalmente nos últimos tempos de sexta-feira: “pô, professora, você não falta, que saco!”. É a cultura do “sair mais cedo”; mas foram eles que inventaram isso? Ou foram se adaptando à carência constante de professores? O jogo é tão confuso que professores e alunos, ora apontados como vilões, são na realidade verdadeiros heróis: o que dizer do professor que dá aula em diversas escolas, prepara as aulas com esmero, estuda, fica até de madrugada corrigindo trabalhos e preparando apostilas? E do aluno que acorda às cinco da manhã, pega o ônibus cheio – que muitas vezes nem para no ponto –, às sete da manhã já está dentro de sala mesmo cansado (muitos trabalham na parte da tarde), mas não deixam de ir, dia após dia, mesmo que tenham um ou dois tempos de aula?

Na situação em que a escola pública se encontra, como resolver a equação?

Publicado em 14 de agosto de 2012

Publicado em 14 de agosto de 2012