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O Mundo depois do mensalão

Pablo Capistrano

Escritor; professor do IFRN

Ilustração

Hegel escreveu: “é uma loucura moderna alterar um sistema ético corrupto, sua constituição e sua legislação, sem mudar a religião, fazer uma revolução sem reforma”.

Neste atual estado da arte da disputa política nacional, ando pensando um bocado em Hegel e em sua radicalidade. Hegel sabia que não se muda um sistema sem uma boa dose de coragem revolucionária. Ele nos ensinou, com o último grande esforço totalizante do pensamento ocidental, que a aposta na mudança requer a ousadia estrutural de aprofundar a crítica às instituições e de modificá-las em sua radicalidade, não apenas na cosmética de sua superfície. Por isso eu me pergunto, toda vez que entro nas redes sociais para sentir o termômetro político destes dias: como estará o mundo após o julgamento do mensalão?

A única resposta que eu posso pensar é: igual ao que estava antes.

Hoje o mensalão se tornou o centro de uma batalha ideológica entre petistas e antipetistas. Um espaço de confronto cujo núcleo é a defesa de uma tese política que poderá ter efeitos eleitorais agora, em 2012, ou mais tarde, em 2014. De um lado há os que defendem ser o mensalão um “factoide”, criado para desobstruir o acesso ao poder central de certos grupos políticos que haviam sido relegados a um segundo plano de importância no começo do primeiro governo Lula. De outro lado, há os que defendem ser o mensalão “o maior escândalo de corrupção da história do Brasil”. O atestado da falência moral da política brasileira. O indicativo de que o PT, com seu discurso protofascita de monopólio da ética (que atuava nos anos 1990 como uma espécie de narcótico para a classe média brasileira), não seria um partido, mas uma quadrilha treinada por uma conspiração esquerdista internacional para tomar o poder e construir um império de corrupção.

Entre esses dois extremos atua a ideologia que esconde o real. A ideologia que mascara e que desvia o foco da discussão pública para uma pseudopolarização, um esconderijo perfeito daquilo que não se pode mostrar por ser mais escandaloso do que o escândalo que se pretende combater.

O debate público sobre o mensalão tem uma função muito importante na manutenção do status quo do sistema político brasileiro. Ao fulanizar a corrupção, ao dar nomes e cores partidárias ao uso privado da coisa pública, ele esconde uma verdade desconcertante: em uma economia de mercado não há fronteiras sólidas entre público e privado. O mercado e o Estado se retroalimentam em uma simbiose que envolve a ocupação e a privatização dos recursos públicos por meio de práticas políticas que põem o Estado a serviço do mercado e dos que o controlam. Em um sistema como o nosso, o mercado empurra seus agentes para o interior da coisa pública, para que as disputas que se manifestam no interior do próprio mercado possam se resolver a partir do monopólio político do Estado.

A corrupção não é meramente um erro moral de alguns canalhas (esse é o discurso fascista que quer resolver o problema da corrupção mantendo intactas as estruturas que a alimentam na medida em que encenam seu combate no circo público das execuções penais). A corrupção é o sintoma que aponta para uma brecha no discurso ideológico que dá sustentação ao sistema. A corrupção aponta para a contradição que existe entre aquilo que as instituições pregam como discurso oficial e aquilo que a estrutura econômica e política que serve de base a essas mesmas instituições produz.

Por isso, quando o julgamento do mensalão estiver encerrado, com ou sem as condenações esperadas, o mundo continuará o mesmo. O país se manterá na expectativa dos próximos sintomas da desordem retórica. Aguardando o próximo escândalo, as próximas gravações, as novas denúncias e os julgamentos que virão. Vamos nos manter os mesmos, até que ecloda outro escândalo de proporções cósmicas, um novo caso de corrupção, uma nova etapa na novela ideológica do ENM (Estado Nacional de Mercado) tupiniquim. Ou, quem sabe, na pior das hipóteses, até que a democracia e seus riscos desapareçam mais uma vez do horizonte nacional para reestabelecer a confiança dogmática no discurso hegemônico de nossas instituições.

14/08/2012

Publicado em 14 de agosto de 2012