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A praia e o escritório

Alexandre Amorim

“Aqui, o mar e as plantas oferecem oxigênio”, dizia o dono da pousada em que eu estava, fazendo gestos largos com as mãos, tentando dar uma forma à abundância de ar puro em volta de nós, e continuava: “no escritório, vocês têm que brigar pelo oxigênio rarefeito, têm que respirar o ar-condicionado. Condicionar o ar é um absurdo”.

Eu mastigava um pão de centeio feito em casa, sentia o rosto arder do sol que queimava a ilha inteira e já sentia uma tristeza grande de ter que ir embora, voltar de um lugar esquecido na costa da Bahia para o centro comercial do Rio de Janeiro. Aquela frase do dono da pousada era quase sádica; impossível não conter nela alguma porção de crueldade. Ou talvez fosse o modo seco daquele alemão que saiu de Berlim há trinta anos para me fazer ver que minha vida na cidade grande não fazia muito sentido.

Depois do café da manhã, andei pela praia, voltei para a pousada e tomei um banho, arrumei minha mochila, me despedi do alemão e de algumas pessoas com quem fiz amizade. A sensação de estar indo antes da hora me acompanhava o tempo todo. Entrei na lancha que ia me levar ao continente com duas francesas e um casal de espanhóis, falantes e felizes de terem conhecido uma parte quase selvagem do Brasil. Viram guaiamuns, aratus, carcarás, vermelhos, tamanduás, bandos de passarinhos. Comeram dendê, pimenta, peixe, pitu, siri, beberam cerveja gelada e caipirinha. Respiraram aquele ar generoso, mergulharam em ondas brandas, ouviram o mar bater e viram a lua deixar a areia azul. Passaram por essa experiência de misturar sensações, de um tipo de sinestesia, como eu. E, também como eu, ainda não haviam digerido metade do que seus sentidos captaram.

A viagem para o Rio é longa e diversificada: barcos, carros, avião. Todo esse trajeto foi percorrido com meus olhos ainda cheios do que tinha visto na ilha. O mar é muito grande, continua na memória. Lembra de quando você, ainda criança, voltava da praia e ainda tinha a sensação de as ondas estarem te balançando? O mar pode continuar em você no fundo das retinas e nos ouvidos também.

O avião pousa no Galeão, à noite. Dois amigos vieram me receber e me levaram para tomar chope no Leme. Um luau na paia, namorados na calçada, conversas em tom mais alto ou mais baixo nos bares. Não acho ruim voltar para o Rio, fico feliz de poder contar histórias a eles e poder ouvir o que se passou por aqui. Mas a frase do alemão não me sai da cabeça. No dia seguinte, o ar-condicionado me espera. Pessoas condicionadas me esperam.

A manhã seguinte no escritório é meio confusa. Trabalhos acumulados pelas férias, cafezinhos tomados às pressas, conversas curtas e objetivas. O ar fechado e na temperatura diferente do que seria o natural. O ritmo diferente do meu, mas a que, aos poucos, eu vou me acostumando. Vou me condicionando. No início, ter essa consciência é doloroso, porque a memória de um lugar e um tempo mais naturais está muito viva. Com o passar dos dias, essa consciência passar a ser quase heroica. Passa a ser um sinal de resistência. É importante manter-se atento e forte.

Talvez a maior diferença entre a praia e o escritório, então, seja mesmo a relação com o ar. Esse ar, que é infinito em um lugar e encaixotado em outro. E talvez a forma de dissipar a crueldade de estar encaixotado seja ter consciência de que outros lugares existem. Que, assim como o ar lá fora, as escolhas são infinitas.

Publicado em 21/08/2012

Publicado em 21 de agosto de 2012

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