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Moleque na parada

Alexandre Amorim

Ídolo de poeira, marafo e farelo,
Um deus de bermuda e pé de chinelo.

(Tiro de Misericórdia, de Aldir Blanc e João Bosco)

Moleque já desceu. Desceu sozinho, como baixa um santo guerreiro. E ele sonha com o dia de ter a idade certa para ser o cavalo do santo que tiver a armadura e a espada mais reluzentes. Desceu para a guerra, mas de bermuda, chinelo e boné. Camisa enrolada na cintura até encontrar a patrulha municipal. Mandaram colocar a camisa, só para humilhar. Derrotado na primeira batalha, mas por pura estratégia. Moleque bom, querendo só trocado, nada de caco de vidro, bala ou faca. Vestiu a camisa de marca forjada e com dito em inglês que ele não entendia, mas que tinha a palavra music. Já desceu cantando letra que ele inventava dentro do ritmo quadrado de bateria virtual. Funk sem alma, bom pra meter suas próprias palavras. Moleque que fazia mais de dez poesias por semana, naquele quadrado invariável que o batidão formava. Tá na rua, por ele só. Detestava descer com bonde ou com sua mãe. Era sempre zoado, de um jeito ou de outro. Queria andar e cantar sozinho e ganhar seu troco do seu jeito.

Mas nesse dia tava danado. Cidade vazia. Esqueceu do feriado. Pouca gente para pedir. Da Providência, ele costumava pegar a Bento Ribeiro e vinha direto para o Campo de Santana, lugar de encontrar gente de mais idade, que dá dinheiro mais fácil. Cruzava a Presidente Vargas quase sempre entre os carros, para não esperar sinal fechar. Mas nesse dia, antes de chegar na avenida, reparou a diferença. Rua fechada, carros da polícia, grades montadas para separar as famílias do desfile de sete de setembro.

Passava um esquadrão vestido de dragões da independência, ele riu das roupas vermelhas e do chapéu cheio de plumas. Implicava com os rapazes em traje de gala militar e as famílias em volta olhavam para o moleque com cara feia, sem saber se reclamavam, com medo de ele reagir com violência. Moleque ria de escárnio, feliz de estar em sua área, mesmo com tanta gente estranha em volta. Com medo, também, mas cheio de atrevimento. Xingou os guardas de cavalinhos de circo e riu alto, mas cansou. Agora olhava os homens de terno sentados em uma arquibancada montada no Panteão de Caxias.

Nunca soube que aquele muro grande com uma estátua de um homem a cavalo se chamava Panteão de Caxias. Nunca vai saber o que é um panteão, não vai procurar saber quem foi Caxias. Procurou atravessar a avenida antes de os carros de guerra passarem e viu um guarda correndo na direção dele. Voltou pra Central do Brasil, mas o guarda não desistiu. Teve que sumir no terminal de ônibus. Mas não desceu da Providência para ficar de bobeira, sem poder visitar seus lugares costumeiros só porque os soldados resolveram desfilar. Esperou até perderem o interesse nele – o que foi rápido – e voltou para a Presidente Vargas. O Bope desfilava, roupas pretas e gritos de guerra. Daquilo ele gostava. Olhava de boca aberta. Mas quando um espaço se abriu entre os soldados e cavalos da Polícia Militar o moleque pulou o alambrado e correu para o outro lado. Alguns aplaudiam rindo, como se aplaude um palhaço que se atreve a desafiar seu superior em um número de picadeiro. Mais uma corrida de guardas, mais uma vez ele escapa, agora para o meio da Praça da República, fugindo entre as árvores. Escolheu um arbusto para deitar e ficou de olho nos uniformes acinzentados que passeavam por ali. Levantou quando não viu mais nenhum, mas esqueceu da Guarda Municipal.

Foi pego pela calça; um guarda levantou sua camisa. Não acharam nada, moleque não tinha nada. Levou dois cascudos atrás da Kombi dos guardadores da ordem. Antes de ir embora, um tapa na cara. Saiu de cabeça baixa, rumo à Praça XV, mais com raiva do que com dor. Raiva de sofrer humilhação. Raiva de sofrer covardia. Um dia ia ser cavalo de santo, um dia ia ser guerreiro. Um dia ia andar na rua sem medo de apanhar. Um dia, mesmo sem saber que palavra era aquela, ia desfilar a sua independência.

Publicado em 04/09/2012

Publicado em 04 de setembro de 2012