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Vou de bike, quem sabe...

Mariana Cruz

ilustração

Dia desses, na saída do trabalho, acabei descendo do prédio junto com o tatuado de voz grave da sala ao lado; como nos conhecemos superficialmente, já previ que íamos engatar aquele papo de elevador sobre o tempo ou sobre o caos no trânsito do Rio. Eis que me chamou atenção o capacete rosa que levava na mão. Não por achar que a cor destoasse com o porte robusto do gajo (aliás, sempre achei simpático homem de rosa), mas sim pelo fato de ser um capacete de ciclista. Assim, no lugar do clássico “que calor”, perguntei por perguntar se ele estava de bike – algo incomum aqui no Centro do Rio. Ele abriu um sorriso e respondeu afirmativamente, como se fosse algo corriqueiro e simples de ver pelas ruas movimentadas destas bandas. Não, não é.

Disse que vem de bike todos os dias. Haja disposição, pensei, pois encarar diariamente o intenso movimento de carros e ônibus enfurecidos, desviar da multidão apressada que anda desconexa pelas calçadas da Avenida Rio Branco não é para principiantes. E, para completar, o Centro do Rio (cidade que a prefeitura nomeou “capital da bicicleta”) é desprovido de ciclovia. Em um minuto de conversa, o rapaz enumerou, com a maior naturalidade, inúmeras vantagens do uso do camelo: não gasta dinheiro com transporte, deixa o carro na garagem (para quem não sabe, vaga no Centro do Rio é artigo de luxo) e ainda se exercita.

Eu, que nunca vim de bicicleta para o trabalho, costumo ficar parada de 20 a 30 minutos no transito até chegar ao Centro – num trajeto em que, em um dia sem trânsito algum (um feriado, por exemplo) levo uns 15 minutos, durante a semana gasto de 45 minutos a uma hora.

Depois daquele papo-elevador, eu estava começando a mudar minha concepção preconceituosa acerca de tal conduta: se antes achava que era “coisa de maluco” essa aventura diária, agora fiquei na dúvida se quem era o irracional era ele ou eu, que perdia horas da minha semana parada nos engarrafamentos intermináveis da Cidade Maravilhosa. Quem sabe eu mesma não poderia tentar – não diariamente, mas quem sabe once a month – cometer tal excentricidade?

Lembrei-me então de meu vizinho de porta, que também trabalha no centro e que, vez ou outra, vem trabalhar de bike (achei que era o único, agora já conheço dois). Diz que só sai de carro em último caso. Sou testemunha, pois sempre que vou à garagem deparo-me com seu Siena vermelho lá. Meu vizinho diz que só tem o carro por causa dos dois filhos pequenos, fica mais prático em algumas situações. Mas, ainda assim, quando o trajeto é simples ele coloca duas cadeirinhas na sua bike e leva los niños a tiracolo, e quando sua esposa está junto cada um carrega um filho.

Pessoas como ele contribuem para que respiremos menos monóxido de carbono e para que os engarrafamentos diminuam. Chegamos ao limite. Muitos já se deram conta disso, mas ainda são poucos diante do caos que se instaurou na cidade. É incoerente o Rio de Janeiro querer se tornar a mais cosmopolita das cidades e não investir seriamente nisso. Cada vez mais pessoas compram carros e mais motoristas desvairados. Tanto assim que o Dia Mundial sem Carro (22 de setembro) vem ganhando mais visibilidade a cada ano. Esse evento busca fomentar uma discussão sobre a maneira desenfreada (nos várias sentidos) com que as pessoas estão usando os carros: para ir à casa do vizinho, à rua ao lado, ao bar.

Esses dois rapazes me fizeram refletir sobre o quão invertida está a ótica das pessoas – inclusive a minha: ninguém acha estranho que se pegue o carro para ir comprar pão na esquina, exótico é ir trabalhar de bicicleta. Ou seja, utilizar um meio de transporte que não queima combustível fóssil, não emite gases poluentes e não causa congestionamento. Alguma coisa está fora da ordem.

Já na rua, enquanto o tatuado desacorrentava a bike, vi que todos os empecilhos que eu colocava para ele (e se roubarem sua bike? E as pessoas na calçada? E os ônibus loucos na rua?) eram apenas um reflexo da sociedade de consumo em que vivemos: temos que ter carro, de preferência, um novo a cada ano. Bicicleta não dá lucro.

É assim que, por vezes, coisas simples são colocadas como complicadas. E lá se foi o tatuado com seu capacete rosa, flanando pelas ruas do centro como um menino de sete anos na pracinha de uma cidade de interior...

04/09/2012

Publicado em 04 de setembro de 2012