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Hábitos e manias

Alexandre Alves

Quando a idade vai passando, a gente começa a fazer seleções definitivas: só uso esta ou aquela marca, só leio este ou aquele autor, não compro nesta ou naquela loja... E a ter opiniões definitivas.

Hoje estava pensando na importância de dois jogos bastante conhecidos pelas crianças – e pelos adultos também: quebra-cabeça e memória. Acho que são fundamentais para a nossa vida porque ajudam a marcar a importância de cada peça na organização do todo e de manter os objetos e componentes no local adequado. Explico: no quebra-cabeça, se uma peça não está na posição correta numa figura “quebrada”, essa figura não se forma.

Transplantando para o mundo real: a pessoa que não guarda seus talheres sempre no mesmo lugar corre o risco de não encontrar um garfo na hora H ou de ter que ir ao vizinho pedir um abridor de garrafa porque não sabe onde enfiou o seu, novinho, que ganhou de presente et cetera e tal.

Do mesmo modo, quem respeita no dia a dia as regras do jogo da memória sabe onde guardou aquele CD que quer botar pra tocar pra impressionar aquela visita, sabe onde estão os ingredientes no exato momento em que começa a preparar aquela receita que faz tanto sucesso...

O pai de uma ex-namorada minha tinha no seu escritório uma mesa só para seus quebra-cabeças. Na mesa principal ficavam vários processos empilhados. Pelo que me lembro, ele sabia perfeitamente onde estava cada um deles e a situação em que se encontravam.

Outro exemplo ótimo para isso são os carrinhos de alimentos dos aviões comerciais. Cada item merece um espaço específico, com as medidas exatas. Não adianta tentar recolher uma bandeja que esteja com um copo em cima. O copo tem que ser recolhido separadamente, pois se não for assim não encaixa na prateleira.

É impressionante ver a quantidade de trabalhos acadêmicos em que nas referências não são respeitadas as normas de registro – muitas vezes não têm sequer uma lógica interna. Alguns trabalhos citados são relacionados pelo nome do autor; outros, pelo sobrenome. Há outros em que as informações de cidade, editora e ano de publicação não acompanham qualquer sequência... Quando não faltam essas informações! Fico pensando (ainda tenho essa prática): se um cientista não consegue manter regularidade nem em aspectos estáticos e simples como esses, como confiar em um experimento realizado por ele?

Certamente essas orientações soam óbvias para profissionais como contadores ou cirurgiões (já pensou não encontrar um bisturi na posição esperada? Ou colocar uma conta fiscal na coluna errada?). Mas acredito que não sejam inúteis para os outros. Se um professor de Geografia não sabe em que armário guardou o mapa-múndi usado na última aula, vai gastar preciosos minutos procurando-o, sob os apupos de alunos exigentes ou o desinteresse de alunos impacientes... É mais ou menos como aquele vendedor que não localiza a gaveta onde há vários exemplares do produto que você pediu ao entrar na loja.

Ok, ok, tenho consciência de que é preciso dar espaço para o inesperado, para o improviso, para a diversidade da vida cotidiana. Concordo, mas pra tudo tem limite. Não podemos ser tão rígidos, nem tão liberais.

Tenho um amigo que organiza suas camisas no armário por ordem alfabética de cor: abóbora, amarelo, azul... Isso certamente é um exagero, mas não justifica o fato de uma vizinha frequentemente encontrar a escova de cabelo na mesa da cozinha, porque sai do banho se penteando e vai tomar seu chá de camomila...

Lembro de um colega meu de trabalho que frequentemente chegava ao escritório mancando. E reclamava: “Essa mania da Ritinha de mudar os móveis de lugar... Vivo dando topadas em mesas, cadeiras, armários de noite!”

Parodiando (e pedindo perdão a) Renato Russo, quem um dia irá dizer que não vive pra se organizar? E quem irá dizer que sem organização não dá pra viver?

Publicado em 11/09/2012

Publicado em 11 de setembro de 2012