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Atriz

Alexandre Amorim

Eis que a encontro triste, fora do palco, enchendo a garrafa obrigatória de água em um bebedouro para que sua garganta não falhe, de tanta poeira e ácaros com que ela tem que conviver em sua vida de atriz. Mais do que triste, frustrada. A atriz nasceu cantora, soube acompanhar piano e violão, soube levantar a plateia quando levantou seu braço e cantou sambas de empolgação, soube trazer o público pela mão, quando a ofereceu com o braço estendido, cantando canções de amor. Cresceu e se viu carente de representar, de vestir personagens. Fez rir e fez chorar, brincou com roupas várias, foi Julieta, Dulcineia em versões ruins de Quixote, foi a esposa Selminha de Nélson, andou de pernas de pau em montagem com texto de seu próprio grupo. A atriz conhecia seus ofícios.

Não conhecia, ainda, como seria pisar no palco para dançar, sapatear, cantar, atuar, tudo de uma vez, tudo com técnica dolorida e espartana. Hoje ela quer desistir. Impossível cantar e dançar sem que a voz falhe. Impossível agradar a tantos diretores: de cena, de coreografia, de voz, preparadores, o elenco que cobra os passos certos e a voz limpa.

A voz sai tremida, junto ao bebedouro. Enquanto a garrafa se enche, ela quase chora, mas sabe manter o rosto limpo, sabe conter suas emoções porque aprendeu a mexer com a emoção dos outros em cena. “Então, eu prefiro desistir. Eu não sei cantar em um musical, não sei atuar em um musical. Nasci para ser ou atriz ou cantora. Não nasci para fazer tudo ao mesmo tempo”.

É quase um pedido de socorro, não fosse pela cabeça que se ergue, de novo altiva. “É isso. Sou cantora e sou atriz. Não sou de musical”, ela diz, sorrindo como se eu fosse a plateia de sua atuação. Eu também sorrio, por simpatizar com sua fraqueza. Eu, que também tantas vezes afirmei que não queria alguma coisa só porque não havia como consegui-la. Sorrio para a atriz, de olhos que me encaram ao mesmo tempo que não resistem à vermelhidão que o choro traz. Mesmo atriz, não é fácil confessar fraquezas. Mesmo mentindo da boca para fora, não é fácil dizer o que não sente. É claro que a atriz quer ser de musical. E eu só sei consolar, sem saber o que dizer. As palavras que digo saem quase como um texto decorado. Que ela é ótima, que sabe cantar como poucos, que sobe no palco como rainha daquele reinado, que pertence àquele lugar empoeirado e cheio de vida, que ela vai conseguir dançar e rodopiar enquanto acompanha seu par, sapatear sorrindo e cantar as músicas com tons diferentes das notas em que ela se sente confortável. Que é mais uma luta a ser ganha.

Não sei se a atriz também considera uma luta. Em sua disciplina, essa luta é mais um exercício. Está preparada, considera a técnica sua ferramenta e sua amiga, mesmo que seja uma amizade de discussões constantes. E seus treinos de rodopios são sofridos, mas constantes. Suas horas de preparação vocal vão noite adentro, mesmo que digam a ela que isso não faz bem. Ela é quem sabe, pensa. A atriz já se esqueceu do texto que ela mesma criou, sobre não ser de musical. Agora, ela encena o desejo de brilhar com seu sapato boneca de salto e seu vestido por cima da roupa que deixa o corpo aquecido para que os músculos obedeçam às suas ordens de saltos e giros. Eu torço por ela, faço elogios, peço que não desista, mas ela já mudou sua expressão e me diz, feliz: “é claro que eu não vou desistir”. Eu não consigo me acostumar com essa mudança súbita de humor. Não consigo entender muito bem de onde a atriz tira forças para mudar a expressão do olhar e deixar de sofrer para, mais uma vez, ir em frente.

A atriz sabe muito mais da dor de se conhecer do que eu. E vai estrear em breve, dançando e cantando como poucos sabem fazer.

Publicado em 25/09/2012

Publicado em 25 de setembro de 2012