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Ciência versus religião: uma dicotomia manifesta no processo de aprendizagem do educando

Eduardo Beltrão de Lucena Córdula

Especialista em Educação; pesquisador da UFPB; professor de Educação Básica de Cabedelo-PB

A escola, em seu currículo, tem como base os conhecimentos científicos produzidos pela humanidade ao longo do tempo, e suas teorias, registros e fatos passam a integrar os livros didáticos, constituindo assim, os conhecimentos mínimos a serem transmitidos aos educandos para sua formação e preparo para se engajar na sociedade, como indivíduo produtivo e transformador (SCAFF, 2000). No ensino da disciplina de Ciências no Ensino Fundamental II, pelos conhecimentos da natureza e dos fenômenos que nela ocorrem, encontramos uma barreira cultural vinculada aos saberes tradicionais e permeada pelas crenças espirituais incorporadas no alunado, que, inevitavelmente, entram em conflito com os conteúdos da disciplina, principalmente no 7° ano, quando tratamos dos seres vivos: origem da vida na Terra e sua evolução (SERRA, 2012).

Visando identificar se esse conflito ocorre com o nosso alunado, realizamos uma pesquisa de cunho qualitativo com metodologia participante (ABÍLIO; SATO, 2012).

A pesquisa qualitativa tem como foco a interpretação que os próprios participantes têm da situação sob estudo, enfatizando os aspectos da subjetividade e demonstrando flexibilidade no processo de conduzir a pesquisa, no sentido de que o comportamento das pessoas e a situação ligam-se intimamente na formação da experiência (MOREIRA, 2004).

A pesquisa participante “consiste na participação real do conhecimento na vida da comunidade, do grupo ou de uma situação determinada” (ABÍLIO; SATO, 2012, p. 32), em que o pesquisador observador participa, vivencia ou é membro do grupo em estudo.

O estudo foi realizado na Escola Pública Municipal Major Adolfo Pereira Maia, localizada no município de Cabedelo-PB, onde participaram os alunos do 7° ano, turma B, do turno da tarde, composta por 19 alunos, sendo 12 meninas e 7 meninos com faixa etária entre 11 e 15 anos. O estudo ocorreu na segunda e terceira semanas do mês de abril de 2012, sendo dividido em dois momentos: no primeiro, realizamos a apresentação do conteúdo do livro didático de Ciências (CANTO, 2009) adotado pela escola, sobre a origem dos seres vivos, em quatro aulas, com o conteúdo de desenvolvimento da vida desde a protomatéria, os coacervados e as primeiras células, passando posteriormente para sua evolução dos seres procariontes aos eucariontes e finalmente com os seres pluricelulares complexos, enfatizando a gênese destes na água e posterior conquista do ambiente terrestre. As aulas foram ministradas tomando por base a aula expositiva dialógica, com debates didáticos, aplicação de atividades diversificadas para fixação da aprendizagem e revisão final de todo o conteúdo ministrado (LIBÂNEO, 1994). Em média, faltaram 15,8% dos alunos nessas aulas. Após essa semana, realizamos a aplicação de um questionário pré-elaborado (ABÍLIO; SATO, 2012), composto por cinco questões com base em religião e crenças sobre a origem da vida, de forma a diagnosticar os conhecimentos espirituais em contraposição ao conteúdo ministrado na escola. Nesse dia tivemos a ausência de 36,8% dos alunos. Participaram, portanto, 63,2% dos alunos (12 alunos), sendo 5 meninos e 7 meninas.

Na primeira questão, perguntamos se o aluno entrevistado leu toda a Bíblia; apenas 16,7% afirmaram tê-la lido por completo, 66,6% que não e 16,7% não responderam à pergunta; 91,7% afirmaram terem lido trechos da Bíblia e 8,3% dos alunos não responderam à pergunta.

É evidente que todos tiveram acesso à Bíblia, conhecem-na integralmente ou parte dela; provavelmente esse contato com a religião acontece no seio familiar, já que a escola não possui ensino religioso.

Para sobrepor o ensino dos conteúdos selecionados de Ciências ao conhecimento religioso sobre o surgimento da vida na Terra, perguntamos aos alunos se eles acreditavam que Deus criou tudo à nossa volta, incluindo a natureza; 91,7% afirmaram que sim, enquanto 8,3%, que não. Aos que responderam que não acreditavam que tinha sido Deus que havia criado a vida, a pergunta tinha continuidade sobre quem ou o que teria proporcionado o surgimento da vida neste planeta, mas, surpreendentemente, os 8,3% responderam que Deus, entrando em paradoxo com a resposta da primeira parte da pergunta.

Na pergunta nº 4, que indagava se o ser humano estava tendo sabedoria para cuidar do que Deus havia deixado para a humanidade, incluindo a natureza, 75% afirmaram que sim, 16,7% que não e 8,3% não responderam à pergunta. No primeiro bimestre, houve uma revisão dos conteúdos da série anterior – 6° ano – sobre meio ambiente, cujo foco central estava nos problemas ambientais causados pela ação antrópica, sendo, portanto, esperado que os alunos lembrassem dos debates em sala de aula e que isso se refletisse nas respostas a essa pergunta. Há, portanto, desconexão de ideias e conhecimentos, reflexo de pouca participação e empenho dos alunos na valorização dos estudos (CÓRDULA, 2010a).

Na última questão, que trata exclusivamente do meio ambiente, de nós, seres humanos, – se estamos cuidando de forma correta do nosso planeta, 16,7% responderam que sim, enquanto 83,3% responderam que não. Esse percentual do “não” vem corroborar e ratificar o exposto anteriormente, sobre a desconexão de conhecimentos adquiridos, pois, quando é colocado o termo meio ambiente em evidência, aí sim os educandos conseguem realizar a conexão dos conteúdos do início do ano letivo, respondendo de forma satisfatória com o que estamos vivenciando na atualidade sobre, por exemplo, o aquecimento global, que foi debatido amplamente no âmbito escolar e em todos os espectros da sociedade e divulgados pela mídia (CÓRDULA, 2010b).

Conclusão

Ao ensinar ciências no EF II, os conhecimentos científicos chocam alguns alunos, por entrar em conflito direto com seus conhecimentos prévios, que são moldados pelas crenças tradicionais e espirituais da sua comunidade de origem, o que dificulta a aceitação e o entendimento dos conhecimentos produzidos pela humanidade ao longo de sua história, e que, mesmo havendo alguns pontos de divergência, há também pontos de convergência desses conhecimentos. Cabe, portanto, ao professor(a) trabalhar de forma interdisciplinar para que o alunado passe a entender e aceitar o conteúdo científico que é tão necessário à sua vida, respeitando os dogmas religiosos incorporados e inerentes a cada educando, para que não surja uma barreira cognitiva, o que poderia impedir o processo de ensino-aprendizagem dos conhecimentos necessários à sua plena formação e preparo para o exercício de sua cidadania.

Referências

ABÍLIO, Francisco José Pegado; SATO, Michèle. Métodos qualitativos e técnicas de coleta de dados em pesquisas com Educação Ambiental. In: ABÍLIO, Francisco José Pegado; SATO, Michèle. Educação Ambiental: do currículo da Educação Básica às experiências educativas no contexto do semiárido paraibano. João Pessoa: Ed. da UFPB, 2012, p. 19-76.

CANTO, Eduardo Leite. Ciências Naturais – aprendendo com o cotidiano – 7° ano. 3ª ed. São Paulo: Moderna, 2009.

CÓRDULA, Eduardo Beltrão de Lucena. Aulas de (Cons)Ciência e Educação Ambiental na escola. Revista Educação Pública, n° 47, Rio de Janeiro, 21 dez.2010. Disponível em: http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/educacao/0278.html. Acesso em: 21 dez. 2010a.

______. Ser humano, meio ambiente e aquecimento global. Revista Educação Ambiental em Ação, Novo Hamburgo, n° 34, ano X, dez/2010-fev/2011. Disponível em: http://www.revistaea.org/artigo.php?idartigo=922&class=02. Acesso em: 10 dez. 2010b.

LIBÂNEO, José Carlos. Didática. São Paulo: Cortez, 1994.

MOREIRA, Daniel Augusto. O método fenomenológico na pesquisa. São Paulo: Pioneira Thompson Learning, 2004.

SCAFF, Elisângela Alves da Silva. O guia de livros didáticos e sua (In)Utilização no Brasil e no Estado do Mato Grosso do Sul. Revista Educação Pública, Mato Grosso, v. 0, n° 15, jul./dez. 2000. Disponível em: http://www.ufmt.br/revista/arquivo/rev15/Scaff.html.

SERRA, Tatiana. Escolas religiosas: Deus seria a explicação até para o que se aprende nos livros? Revista Educação Pública, Rio de Janeiro, n° 27, 17 jul.2012. Disponível em: http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/educacao/0339.html. Acesso em: 18 jul. 2012.

Publicado em 25 de setembro

Publicado em 25 de setembro de 2012