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O livro eletrônico e o mercado de livros no Brasil: números, projeções e comentários

Juliana Maria Carvalho

O sociólogo, historiador e escritor Umberto Eco, na ocasião do lançamento de Não contem com o fim do livro, comentou que os jornalistas sempre o procuravam para perguntar sobre o fim do livro impresso: “o desaparecimento desse suporte de escrita é uma obsessão, pois me fazem essa pergunta há 15 anos. Para mim, o livro é como uma colher, um machado, uma tesoura, esse tipo de objeto que, uma vez inventado, não muda. Continua o mesmo e é difícil de ser substituído. O livro ainda é o meio mais fácil de transportar informação. Os eletrônicos chegaram, mas percebemos que sua vida útil não passa de dez anos. Quem poderia afirmar, anos atrás, que não teríamos hoje computadores capazes de ler os antigos disquetes? E que, ao contrário, temos livros que sobrevivem há mais de cinco séculos?”.

O autor está certíssimo. Volta e meia lemos matérias que discutem o futuro imediato da edição de livros. Entre as várias discussões apresentadas, uma coisa é certa: o mercado fará o que o leitor quiser. Os editores sempre tiveram a opinião dos leitores como alicerce. Entretanto, depois de tanto esforço e investimento, o que podemos afirmar sobre esse mercado quando já nem o editor é mais necessário? Hoje em dia é difícil afirmar com certeza até se o número de leitores está aumentando. Algumas pesquisas dizem que sim, que atualmente se lê mais, mesmo que sejam vendidos menos exemplares impressos, porém ainda permanece a dúvida se estamos lendo mais com o livro eletrônico.

Sabemos tão pouco – e provavelmente aí esteja radicado o segredo da nova indústria editorial: saber o que oferecer a esses novos leitores para que leiam mais. E faz anos que falamos disso. Há mais ou menos uma década, provavelmente motivados pelo boom da Educação a Distância, foram feitos diversos congressos, seminários e conferências com o livro eletrônico como principal tema. Mesmo nas bienais do Rio e de São Paulo e nas feiras de livros pelo país, esse é um assunto recorrente desde então. Aqueles foram momentos nos quais já se dava por certo que o livro eletrônico era uma aposta imprescindível para o futuro editorial.

Naquela ocasião, já se dizia que 18% da população habitualmente liam textos (livros ou revistas) na internet, e a maior parte do setor apenas entendia como necessidade imediata mudar suas estratégias empresariais. Enquanto isso, se enredavam mais com o preço fixo, a falta de liberdade de criação e edição e, além de tudo, com fomentar a leitura e aumentar a presença em bibliotecas. Tudo isso foi (e continua sendo) fundamental, porém, frente a isso, havia uma proposta distinta e a real necessidade de concretizar as informações do que se chamava “novas tecnologias”.

O tempo passou e, depois de uma década, afirma-se muito mais categoricamente a necessidade de acelerar essa mudança, apesar de que os valores de vendas de livros eletrônicos sejam, neste momento, ainda muito modestas. Parece, entretanto, que os deveres de casa não foram feitos adequadamente e que algo obriga o setor a correr atrás de um mercado que ficou na promessa.

Que está ocorrendo mudança no setor editorial é quase uma obviedade. Também é óbvio que qualquer mudança produz incerteza e desassossego. Por isso o mundo dos livros e da edição se encontra em um momento de intranquilidade e de difíceis decisões.

Há alguns dias, li um artigo do escritor mexicano Jorge Volpi que chamava a atenção para mudanças importantes e necessárias para a atualização do setor do livro: mudança no papel dos editores, eliminação da cadeia de distribuição, desaparição de livrarias e abertura imediata ao leque do virtual e da internet. Ainda que tudo isso pareça um pouco apocalíptico, se nos colocamos nessa situação, fica a dúvida de onde situar o mercado atual de livros impressos. Pois bem, segundo ele, em nostalgias. E essas nostalgias, por vez, são o que parece estar freando o desenvolvimento do livro eletrônico, segundo sua respeitável opinião.

Podemos estar ou não de acordo com as afirmações anteriores, porém, penso que tais previsões soam um pouco fatalistas, ainda que, evidentemente, o autor tenha razão ao afirmar a necessidade e a importância de incluir de uma vez o livro eletrônico no mercado.

Naturalmente, muitas dessas mudanças já estão acontecendo. E o problema não parece ocorrer em função desse passado nostálgico, mas sim das oportunidades e estratégias de cada editora. Da noite para o dia não se modificam instituições nem se ampliam os horizontes, ainda mais em um momento de grande incerteza, quando se deve agir com prudência. Nesse caso, qualquer decisão pode resultar mais custosa do que o previsto, circunstância esta que, ao longo do artigo de Volpi, se baseia bastante em sua opinião e na de outros muitos defensores da mudança imediata para o livro eletrônico.

Isso não significa que não se avance para o novo cenário do livro eletrônico. O que ocorre é que existem muitos elementos para modificar e, depois de anos – e nestes momentos de crise econômica mundial –, não devemos ser nostálgicos, mas sim tentar dar esses passos com o maior equilíbrio, o que vai terminar por redesenhar esse novo cenário. Não podemos esquecer que outra variável, o tempo, é um fator que geralmente joga contra.

Para compreendermos melhor o mercado de livros no Brasil, apresento dados de uma pesquisa recente, realizada pela GFK e publicada pela revista Exame, que demonstrou que 10 editoras representam 30% do faturamento total do mercado. Nessa análise foram incluídas 4.500 empresas do ramo. Esse estudo foi realizado no primeiro semestre e considerou as vendas em livrarias, sites e outros pontos de venda.

Não só os livros impressos entraram no estudo, como também e-books e audiobooks nas categorias não ficção, ficção e infantojuvenil (ficção e não ficção). A pesquisa mostrou, por exemplo, que, dentre 150 mil títulos, somente 20 representaram 8% do faturamento do setor. Os 10 títulos mais vendidos foram responsáveis por 5,8%, enquanto três deles responderam por 3,6% da arrecadação total.

As vendas foram maiores no mês de janeiro, devido ao período de férias escolares e a compra de livros didáticos. Fevereiro registrou queda de 24,7% e em março houve alta de 4,8%. O mês de abril apresentou queda de 5,2% nas vendas e maio apresentou alta de 7,5%.

Um livro de ficção no Brasil custa, em média, R$ 32,00, enquanto na França o valor médio é de R$ 26,10. O preço médio do livro de não ficção no país é de R$ 49,40; na França, R$ 34,60. O livro infantojuvenil, comercializado em média por R$ 28,60 nas livrarias brasileiras, é vendido por R$ 18,50, em média, na França. Concluindo a pesquisa, o livro no Brasil custa, em média, R$ 45,00, e nosso país possui renda per capita média menor do que R$ 30 mil por ano. Na França, o livro custa aproximadamente a metade e a renda per capita é três vezes maior do que a brasileira.

Pela pesquisa, conclui-se que essas editoras de menor dimensão apresentam indicadores econômicos bastante precários, se comparados à maior parte do setor, e com características muito similares: menor margem de vendas, incidência importante de gastos e, em geral, coordenadas que mantêm baixas as rentabilidades de seus investimentos (taxas inferiores a 3%, e mais de 50% delas com rendimentos negativos e com uma cifra de vendas muito inferior à de uma década atrás).

Tudo isso, por sua vez, levanta duas questões importantes que não devemos deixar passar: de um lado, uma estrutura setorial muito dividida e condicionada, em sua formação, tanto pelo faturamento das entidades maiores como pela contínua entrada de novos autores e textos das menores. De outro, é preciso anular a ideia tão difundida de um mundo editorial como grande negócio, com esse glamour de notáveis autores que cobram caro por seus direitos autorais e de que quando falamos de edição nos refiramos quase exclusivamente às obras de criação literária – ideia muito generalizada na imprensa e em suas crônicas. Esta última resulta em uma distorção importante do setor. A realidade é que temos que ter em conta, diante da mudança, a heterogeneidade do setor e, sobretudo, que esse majoritário conjunto de pequenas editoras tem que fazer um exercício de posicionamento em função de sua própria economia, porém sabendo que não se ampliará o comércio de livros eletrônicos sem elas.

As pequenas editoras têm que fazer um exercício de posicionamento que estará em função da sua própria economia. É importante não esquecer isso, porque a mudança para a edição eletrônica requer pensar que seguramente terá velocidades diferentes; ao contrário, um importante acervo temático e de qualidade editorial pode ficar à mercê da “nuvem”, com o único futuro de ficar, no melhor dos casos, esquecido, desaproveitado ou, inclusive, “pirateado legalmente”.

Com essa distância entre umas e outras editorias, me propus a pensar em como pode ser essa mudança para as editoras de menor dimensão. Parto do pressuposto, com alto grau de razão (e apoiada por Umberto Eco), de que a coexistência do livro impresso e do digital será por longo tempo. E não somente isso, mas sim que, ao menos nos primeiros anos, a maioria dos títulos será mantida na forma impressa e em formato duplo, impresso e digital, e, em todo caso, será o ritmo do digital o que derivará no abandono da edição menos sustentável. Enquanto isso não ocorre, ambas conviverão, pelo interesse do mercado e do editor, e, pouco a pouco, muitos dos títulos ficarão em edições de baixa tiragem (mais como edição de tiragem baixa nas mãos do editor do que como edição baixa demanda em âmbitos de terceiros).

De maneira muito sintética, e em termos gerais, o resultado da exploração desse mercado é obtido da diferença entre a arrecadação por vendas e os gastos necessários para desenvolver a atividade: custo dos produtos vendidos, direitos de autor, gastos de pessoal, gastos gerais e amortizações e/ou depreciações de exploração. Esse resultado econômico que obtemos do negócio, por sua vez, se traduz em uma taxa de negócio como porcentagem da arrecadação de venda.

Como hipótese a estudar, continuarei acompanhando o efeito que se produzirá nas economias das pequenas editoras com a mudança de uma determinada porcentagem de edição impressa para a digital. A incorporação da edição digital mudará a cifra de negócio que teria a editora em condições de fazer a edição impressa, porém creio que, nesse novo cenário, a editora buscará manter ao menos a mesma taxa de negócio como rentabilidade necessária. Assim, uma parte das vendas de livros impressos se perderá e aparecerão vendas da obra em formato digital. Teoricamente, nessa circunstância, o custo do produto se reduzirá, tanto pela diminuição da tiragem impressa, que se ajusta, como porque a parte digital requer proporcionalmente menos custos, uma vez montado o livro impresso.

Em um trecho de Não contem com o fim do livro, Umberto Eco e Jean-Claude Carrière conversam sobre a função e a preservação da memória – que comparam com um músculo que deve ser exercitado para não atrofiar. “De fato, é importantíssimo esse tipo de exercício, pois estamos perdendo a memória histórica. A minha geração sabia tudo sobre o passado. Eu posso pormenorizar o que se passava na Itália 20 anos antes do meu nascimento. Se perguntar hoje a um aluno, ele certamente não saberá nada sobre como era o país duas décadas antes de seu nascimento, pois basta clicar no computador para obter essa informação. Lembro-me de que, na escola, era obrigado a decorar dez versos por dia. Naquele tempo, achava uma inutilidade, mas hoje reconheço a sua importância. A cultura alfabética cedeu lugar às fontes visuais, aos computadores que exigem leitura em alta velocidade. Assim, ao mesmo tempo que aperfeiçoa uma habilidade, a evolução põe outra em risco, como a memória”.

Diante dos dados de pesquisas apresentados, é possível perceber que investir no livro eletrônico pode ser vantajoso para as editoras, sim. Mas e para a sociedade? Será que estamos tão ávidos assim por ler em suporte eletrônico? O avanço do mercado de livros digitais pode interferir na preservação da memória? Creio que essas são mais perguntas que se juntam às questões iniciais deste artigo, cujas respostas estarão sempre nas mãos (e nos olhos) de nós, leitores.

Publicado em 25 de setembro de 2012

Publicado em 25 de setembro de 2012