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Adultos rumo à terra do nunca

Mariana Cruz

Ou eu estou ficando velha e ranzinza ou as pessoas estão ficando cada vez mais infantilizadas. Dentre as várias demonstrações desse complexo de Peter Pan generalizado um exemplo clássico é a histeria de que alguns adultos são acometidos quando um novo modelo de celular, tablet, ou qualquer aparelho de última geração chega ao mercado. Filas são formadas mundo afora para obter o tal objeto do desejo. “Querem por que querem” o aparelho da vez, como crianças que se esperneiam numa loja de brinquedo. Assombra-me essa histeria coletiva que toma marmanjos como se fosse uma questão de sobrevivência. Parece-me que o mercado, já tendo sacado isso, lança produtos visando esse tipo de consumo infantilizado.

Quem tem filho ou convive com crianças pequenas certamente conhece um sapato – de gosto duvidoso – chamado Crocs. Algumas crianças que usam esse sapato (nelas fica bonitinho) gostam de enfeitá-lo com umas pedrarias e botões de bichinhos conhecidos como Jibbitz. Apesar de os apetrechos não terem serventia prática, para as crianças pode ser divertido. O problema é quando os adultos tomam para si tais hábitos pueris e os transformam em algo de extrema necessidade. Assim, não podem viver sem os penduricalhos para “enfeitar” seus celulares e acham de suma importância comprar do cordão de barriga “da Suelen da novela”, que, assim como os pequenos, vão usar duas ou três vezes e depois esquecer no armário. Um caso recente que ilustra bem a avidez de consumir coisas sem importância alguma são as latinhas de Coca-Cola zero que vêm com um nome próprio gravado. Já presenciei cenas de adultos perderem preciosos minutos de suas vidas escolhendo aquela que tem o seu nome ou nome de alguém querido. Agora me pergunto: qual o sentido disso? Se é para ver o nome escrito, basta pegar uma papel e escrever. Agora, comprar uma lata de refrigerante por que está escrito “André”; “Marcela” ou “Eduardo” está além da minha compreensão. O engraçado é que vende. Não é difícil imaginar a cena: alguém que se dirige a um estabelecimento com o intuito de comprar um guaraná, mas vê que tem uma Coca-Cola zero com o seu nome gravado, deixa de comprar o que queria inicialmente para ter aquela latinha por alguns instantes, para... nada. Dentre esses casos de vergonha alheia participei de um recente: estava com umas amigas em um restaurante e uma delas mostrou um celular com uma animação de um gatinho que repete nossa fala, porém com voz distorcida, como se tivesse ingerido gás hélio. E não bastasse ficar escutando minutos a fio a demonstração do felino virtual, ainda tive que presenciar todo mundo rindo diante desse “ultimo grito” da tecnologia para retardados.

Tal comportamento infantiloide se estende para as redes sociais, que, se de um lado têm uma função importantíssima de tornar mais rápida e abrangente a comunicação entre os seres humanos, por outro abre margem para as pessoas exerceram seu narcisismo infantil ao relatar passo a passo de seu cotidiano como se fosse algo do interesse de todos. Aí temos que nos deparar com frases emblemáticas como: “vou tomar banho”, “que calor” e “adoro sorvete de chocolate”. Nessa Disneylândia virtual, a divulgação de uma notícia fútil como “estou com sono” pode ter o mesmo peso de fazer uma denúncia de racismo ou exploração sexual – e periga que uma foto da pessoa bocejante ter mais “curtidas” do que um texto relatando a denúncia, pois as pessoas terão “preguiça” de ler. Outro reflexo disso está nas músicas que agora fazem sucesso: a cada verão aparecem pérolas como Rebolation; Eu quero tchu, eu quero tcha; Ai se eu te pego... Ok, podem argumentar que tais músicas não são para serem levadas a sério, mas e as que são, como Meteoro da paixão, de Luan Santana? Veja o refrão: ”te dei o sol, te dei o mar para ganhar seu coração, você é raio de saudade, meteoro da paixão”. O que dizer dessa poesia astronômica? Para não sair do tema meteórico da letra, parece-me que esta está a anos-luz das letras de Noel, Chico, Caetano e Gil. Tudo é facilitado para vender, refrões repletos de metáforas rasas e fáceis de decorar. Quase um “xuxuxu-xaxaxa”.

Tenho cá para mim que essa infantilização é algo muito bem amadurecido no mercado: transformar os adultos em consumidores sem reflexão, reflexão esta que cada vez tem menos espaço na cabeça das pessoas, dada a quantidade de informação e estímulos externos de que somos alvos a todo tempo. Quem anda em transporte público já deve ter notado o número de pessoas ocupadas com iphone, celular e internet. Todos os espaços e momentos que usávamos para pensar, ler livros ou jornais agora são ocupados pelos celulares; as pessoas mandam mensagens sem parar ou ficam vendo o Facebook a viagem inteira, com os ouvidos sempre ocupados. O silêncio é evitado a todo custo. Parecem crianças que têm medo de ficar sozinhas. E o medo da solidão é tão grande que até quando estão presencialmente com amigos não raro estão grudados no celular, comunicando-se com outros. Nunca se está inteiro em algum lugar. Por vezes, até o encontro com os amigos, um almoço cujo intuito é trocar ideias, impressões da vida e do mundo, é interrompido por constantes chamadas de celular e conferidas no Facebook.

É irônico, mas justamente nesta época em as pessoas nunca se comunicaram tanto tenho a impressão de que, parafraseando Renato Russo, se “fala demais por não ter nada a dizer”.

Publicado em 2 de outubro de 2012

Publicado em 02 de outubro de 2012