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A carne é fraca se a cabeça também é

Mariana Cruz

A acrasia, também chamada de fraqueza da vontade e incontinência, é um fenômeno estudado por diversos filósofos, de diferentes épocas; apesar disso, pode ser considerada um fenômeno corriqueiro, já que todos nós passamos por situações dessa natureza.

De acordo com o senso comum, é possível agir de forma intencional contrariamente ao seu conhecimento do bem, pois as emoções e paixões sobrepujam tal conhecimento. Daí expressões populares já consagradas por esse hábito, tais como “caiu em tentação”; “não resistiu”; “a carne é fraca”, “se deixou levar pelos prazeres” serem amplamente usadas no nosso dia a dia.

A fraqueza da vontade parece algo paradoxal pelo fato de o indivíduo, após escolher um juízo por considerá-lo melhor entre todos os outros que pensou, agir em desacordo com ele sem estar sendo coagido por nenhuma força externa. Quer dizer, o indivíduo deseja algo, acredita que para conseguir esse algo deva agir de determinada forma e, no entanto, age de maneira diferente sem que tenha mudado de opinião. Ele continua achando o juízo antes escolhido a melhor opção entre todas, e vai contra ele na hora de executar a ação. Não podemos, contudo, excluir da pessoa a intencionalidade de agir do jeito que agiu, porque, dessa forma, não há fraqueza da vontade.

Se em um dado momento a pessoa achava que agir de acordo com X era o melhor a fazer, e depois decidiu agir de acordo com Y, o que ocorreu foi uma simples mudança de opinião, não havendo nenhum conflito, nenhuma incontinência, pois ela agiu segundo aquilo que depois acreditou ser o melhor. Se a pessoa não teve a intenção de agir contra seu melhor juízo e agiu acidentalmente (foi coagida, estava inconsciente, sonâmbula, desconhecia melhor opção ou qualquer outro fator que lhe fuja ao controle), sua atitude também não pode ser caracterizada como fraqueza da vontade. Nem se a pessoa tiver deixado de agir de acordo com seu melhor juízo por esquecimento – por exemplo, alguém que deixa de fumar e, apesar de tal abstinência a deixar nervosa e ansiosa, acha que é o melhor a fazer, mas um dia, ao encontrar-se em alto estado de tensão, fuma automaticamente um cigarro, esquecendo-se momentaneamente de sua decisão de abandono do vício. Só pensa, nesse momento, em resolver um problema imediato – o estresse –, não se lembrando que tal gesto não era o melhor a ser feito.

Nenhuma dessas descrições, porém, caracteriza a fraqueza da vontade. Esta aparece como paradoxal, pelo menos enquanto não é encontrada uma justificativa racional para ela, isto é, para a situação na qual o sujeito escolhe X e faz Y.

Além de um problema teórico, a acrasia torna-se um problema prático na medida em que é causadora de um desconforto no agente. Se não fosse geradora de um certo arrependimento ou, pelo menos, de um questionamento sobre o fato de a pessoa agir contra o que quer e o que sabe ser o melhor, não seria tão tematizada na história da Filosofia. Nem todo ato acrático, porém, resulta necessariamente em algo moralmente condenável, embora todos prejudiquem os interesses do agente. Por exemplo, no caso de uma pessoa que esteja deitada, com muito sono e acredite que o melhor a fazer seja dormir, pois, caso se levante, poderá perder o sono. Mesmo assim, contrariando seu melhor juízo, sai da cama e vai desligar as luzes da casa.

Na concepção socrática sobre a fraqueza da vontade, o indivíduo, uma vez que tem o melhor juízo sobre algo, jamais irá agir contra isso. A única possibilidade de fazê-lo será se o agente ignorar qual seja esse melhor juízo (alguns acreditam poder submeter este princípio ao Princípio de Aristóteles, no qual o agente, ao invés de ignorar qual seria o melhor juízo, tem um "esquecimento" deste, o que faz agir contra ele). Não há, na interpretação de Sócrates, um conflito entre o juízo que ele decidiu implementar por acreditar ser o melhor e o que ele realmente fez. Esta visão, ao justificar tal escolha, acaba com o problema da irracionalidade e da acrasia. A ação do agente foi coerente com a sua intenção, uma vez que ele agiu pensando (de maneira equivocada) estar de acordo com o melhor juízo, por desconhecer de fato a melhor opção. Não há, portanto, nenhum paradoxo em tal princípio nesse sentido, a não ser o fato de negar a existência de atos acráticos, contrariando aquilo que é vivido pela maioria das pessoas. Esta teoria é chamada de doutrina da racionalidade pura (DAVIDSON, D.“Paradoxos da Irracionalidade”, p. 7.), pois defende que nenhum ato intencional pode ser, de forma alguma, irracional.

O senso comum tende a acreditar que aquilo que realmente comanda as pessoas são seus desejos, apetites, prazeres, medos e outras emoções, e que esse fato é positivo, relegando ao conhecimento um papel secundário, submetido às paixões. Em desacordo com essa visão, no diálogo Protágoras, este e Sócrates dizem que nem sempre as coisas agradáveis, isto é, aquelas que dão prazer, são boas, como também nem sempre as desagradáveis são más. O conhecimento, para eles, ao contrário da opinião da maioria, é algo sublime, pois mostra a natureza do bem. Uma vez que passa a ter noção do que é bom e do que é mau, o homem, ao se deixar governar pelo conhecimento, aprende a controlar-se, a dominar-se frente às paixões. Daí ambos considerarem a sabedoria a mais elevada qualidade do homem. Não basta, porém, conhecer o que é o melhor, visto que muitos têm noção do caminho a ser tomado e não o fazem. Para Sócrates, pessoas que agem de tal forma, segundo elas mesmas dizem, são as que se deixam dominar pelos prazeres, pela dor, pelo medo ou outro tipo de paixão (PLATÃO. Diálogos: Protágoras. Belém: Editora UFPA, p. 112. XXXVI 355c.). Conhecer o bem não é o suficiente para que necessariamente se faça esse bem. Ao se deixar dominar pelos vícios, tal atitude causa uma satisfação momentânea que, ulteriormente, pode ser ofuscada por um mal maior.

Sócrates e Protágoras, ao discordar de tal visão popular, ressaltam a distância que existe entre os sábios e os homens do povo. Em contrapartida, devem dar uma explicação convincente para tal afirmação. O sofista, por não ter boa argumentação para isso, tenta convencer o filósofo de que não importa a opinião da massa, e sim a deles, enquanto sábios que são, tentando assim dar cabo à discussão, o que Sócrates não permite (JAEGER, W. Paideia. São Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 639.). Este começa seu discurso de forma a esclarecer tanto seu ponto de vista como o da massa. Ele pretende provar, com tal argumentação, que o prazer não pode ser confundido com o bem nem a dor com o mal, como defende o senso comum. Sócrates não acredita na possibilidade de que o homem, uma vez conhecendo o bem, opte por não praticá-lo pelo fato de estar dominado pelos prazeres. A fim de demonstrar tal hipótese, sugere substituir o nome “bem” pelo que chamamos de “prazer”, e o nome “mal” por “dor”. Assim falaríamos que o homem, uma vez conhecendo o mal, optaria por praticá-lo por ter sido vencido pelo bem (PLATÃO. Diálogos: Protágoras. Belém: Editora UFPA, p. 112. XXXVI 355c.). Tal afirmativa, como se vê, soa incoerente. Dessa forma, fica provado que tanto “bem” e “prazer” quanto “mal” e “dor” são coisas distintas.

Pode-se, contudo, ressaltar a diferença entre a dor presente e a dor futura, bem como o prazer. Existem aquelas coisas que, de imediato, são desprazerosas, desagradáveis ou dolorosas, mas cujas consequências que se seguem são boas. Como ocorre no caso dos exercícios físicos, de alimentação comedida, de operação, entre outras coisas que nada têm de boas em si, mas que, ao final, produzem um resultado gratificante. Tais coisas não são consideradas boas pela dor, pelo pesar e pelo desagrado que causam no momento em que estão sendo feitas, e sim pelo bem maior que delas resulta.

Fica claro então que aquilo que termina em dor é um mal e o que termina em prazer, um bem. Desse modo, é possível que em um bem esteja contida uma dor, como em um mal, um prazer. O que distingue um do outro é o grau de cada um desses elementos e a superação de um pelo outro: quando o grau de prazer supera o de dor, trata-se de um bem; quando o contrário ocorre, chamamos de mal. Fica a questão sobre se o conhecimento é capaz de fazer com que o homem aja bem, uma vez que ele, por tal faculdade, tem a possibilidade de diferenciar o bem do mal.

Publicado em 24/01/2012

Publicado em 24 de janeiro de 2012