Este trabalho foi recuperado de uma versão anterior da revista Educação Pública. Por isso, talvez você encontre nele algum problema de formatação ou links defeituosos. Se for o caso, por favor, escreva para nosso email (educacaopublica@cecierj.edu.br) para providenciarmos o reparo.

O Feriado do professor

Alexandre Amorim

Jorge Ben foi sensível e muito poético ao dizer que “todo dia era dia de índio, mas agora ele só tem o dia 19 de abril”. Uma justa homenagem aos silvícolas. Sei que, hoje em dia, pouca gente usa “silvícola”, mas sou professor de redação e, por força do hábito, acabo trazendo palavras do fundo do baú para enriquecer o vocabulário dos meus alunos. Força do hábito, você sabe. Eu sei, essa expressão “fundo do baú” também não é mais usada. Mas eu divago. Voltemos à música de Jorge Ben. O que talvez você não saiba é que Jorge Ben poderia muito bem escrever uma canção similar para os professores. A música seria mais ou menos assim:

Todo dia
O professor trabalha
Até no seu dia
É a mesma batalha.

Sim, porque mesmo no 15 de outubro – aquele dito feriado em homenagem aos docentes – nós não podemos esquecer provas a serem corrigidas, aulas a serem planejadas e a maldita coordenadora que precisa conversar com a gente sobre o bendito aluno que não para de roer as unhas desde que tirou zero na última redação. Um zero merecido, aliás, porque ninguém deveria dar um ponto sequer a quem constrói a frase “eu ouço som do q eu quizer no busão, eh na moral, td mundo tem direito a liberdade, falei”. Mas eu divago...

O fato é que deveria haver uma lei que proibisse o professor de trabalhar no seu dia. Se a diretora pegasse o professor levando trabalho para casa no dia 14, poderia chamar a polícia militar:

– Esse pedagogo está levando trabalho para casa no seu próprio feriado.

– Esse o quê, minha senhora?

– Pedagogo, meu filho. É sinônimo de professor.

– Não é a mesma coisa que político?

– Não, político é “demagogo”. Pedagogo é com a letra P.

– Ah.

– Ele está desobedecendo à lei. Pode prender esse homem.

– O que ele fez?

– Está levando 200 redações para corrigir no dia 15 de outubro.

– Ih, não pode. Dia 15 é dia de descanso do mestre. Teje preso.

E lá vai o professor descansar, enfim. Na delegacia. Pelo menos, ninguém vai pedir que ele corrija e-mail ou que ele leia um livro, para fazer um resumo depois. O professor vai ter a tarde livre, enfim. Embora preso.

E o 15 de outubro ainda fica pertinho de outro feriado, o 12 de outubro – que acumula o status de Dia das Crianças. Isso significa que o trabalho vai acumular, que as crianças não vão querer fazer nenhum dever de casa e que o professor vai ter que imaginar alguma coisa criativa para fazer na volta dessas folgas todas. Como relaxar, ir à praia, sair para almoçar ou pegar um cineminha com essa ameaça sobre sua cabeça? Aquelas crianças todas esperando sua ideia genial na volta do feriado. Não adianta pedir uma redação sobre os dias de folga, porque eles já acabaram de escrever redações sobre as férias de julho. A cabeça não para, o almoço não desce, o filme perde a graça. Você corre para casa e planeja uma aula sobre as férias de Pedrinho no Sítio. Você só consegue pensar sobre férias.

Se o índio só tem um dia, o professor tem todos os dias do ano. Todo dia é dia do professor. Todo dia é dia de professor... Trabalhar!

Publicado em 16/10/2012

Publicado em 16 de outubro de 2012