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Como a Escola dos Bárbaros?

Tatiana Serra

Afirmar que a escola brasileira está em crise não é exagero nem uma novidade, infelizmente. Mas qual seria a razão para tamanho problema? Ao procurarmos explicação para essa crise, nos perdemos na tentativa de definir o que é causa e o que é consequência de tudo.

Violência escolar, violência em casa, descaso na escola e em casa, uso de drogas, indisciplina, desinteresse, desestímulo. O que é motivo e o que é motivado? Onde começa o problema e em que ponto ele poderá se tornar solução?

Em artigo à revista Superinteressante, Luiz Barco, professor da Escola de Comunicação e Artes da USP, analisa possíveis razões da decadência do sistema escolar brasileiro. Ele cita uma cena curiosa que presenciou um dia desses: “uma jovem mãe tentava responder à pergunta de sua filha de cinco anos sobre como nascem os bebês. Em dado momento, a menina cortou-lhe a frase e disse: o que eu quero saber é se eles nascem com roupa ou sem roupa”.

Esse episódio fez Luiz Barco lembrar do ensino nas nossas escolas. “Dependendo das respostas que os alunos recebem dos professores, eles podem se desestimular e desinteressar completamente. Mas a culpa não seria apenas do professor. O sistema escolar brasileiro como um todo parece ter perdido, com o tempo, a dimensão daquilo que é oportuno responder e realçar”.

No livro A escola dos bárbaros, as francesas Isabelle Stal e Fraçoise Thom criticam o sistema escolar na França e analisam as possíveis razões de sua decadência. Esse livro, publicado no Brasil pela Edusp em 1987, apontou um cenário que se agravaria no Brasil nas décadas seguintes, e hoje vemos que essa análise pode ser aplicada em nossa educação.

As autoras, duas professoras francesas, consideram que a falta de disciplina nas escolas reflete uma sociedade que "adota o prazer como o ideal, em todas as direções – para essa sociedade, o objetivo da civilização é se divertir sem limites". Ou seja, a escola teria desistido de conduzir os jovens à vida adulta. Elas destacam ainda o excesso e o aumento de práticas extracurriculares fáceis e sem conteúdo, que servem para matar o tempo do jovem, como um dos grandes problemas da escola de hoje em dia.

"É uma enganação afirmar que a inaptidão para expressar-se, que a ignorância crassa em História, em Geografia, em Literatura e a incapacidade em seguir um raciocínio elementar sejam um preço que tenhamos de pagar para que todos se sintam à vontade na escola, permitindo a ‘inclusão’ dos alunos”. E mais, "a ambição da igualdade a todo preço desencoraja o esforço de aprender, tipicamente individual", dizem as professoras Isabelle e Françoise.

Mas como cobrar da escola o que não se consegue aplicar em casa? Em boa parte das famílias, o que vemos é a falta de limites, seja dos pais com relação aos filhos, seja dos pais em relação às próprias vidas. Educar passa a ter outro peso, passa a ser sinônimo de castigar, repreender... Dizer não hoje é parece proibido; e onde fica a liberdade de expressão das crianças e adolescentes?, é o que perguntam esses pais mais “liberais” (ou desatentos e despreocupados, melhor dizendo).

Outro profissional que relembra A escola dos bárbaros em artigo sobre a situação da educação brasileira da atualidade é Roberto Leal Lobo e Silva, professor titular aposentado do Instituto de Física de São Carlos da USP, presidente do Instituto Lobo e ex-reitor da USP.

Ele ressalta que, sob o pretexto de instaurar a igualdade na escola, o ensino é nivelado por baixo. “Não se pode abandonar o ensino de conteúdo ou deixar que os alunos escolham o que querem aprender. É possível incluir todos os alunos na escola – isto é, democratizar o ensino, criando uma escola que atenda à massa – sem a atual catástrofe". Afinal, o papel principal da escola é tirar o aluno da ignorância.

Roberto também chama a atenção para a possibilidade de esse livro ser ácido e ter adjetivos em excesso. “Pode até ser injusto com relação à importância de democratizar o acesso à educação, algo fundamental para diminuir as injustiças da sociedade”. Mas lembra que “ele é preciso ao defender a destruição de alguns paradigmas tão em moda no Brasil, como: a qualidade inquestionável e universal do trabalho em grupo; a ‘postura crítica’ sobreposta à absorção de conhecimento; a frouxidão e a permissividade em vez de disciplina e cobrança; a prioridade das atividades ‘sociais’ em vez do estudo persistente; a valorização dos pesquisadores de banalidades; e a ênfase nas metodologias em vez dos conteúdos”.

Trazendo a este texto a reflexão deixada pelo professor Roberto em sua análise, perguntamos: “quantas gerações de alunos serão prejudicadas até o estudo persistente e o conteúdo voltarem a ser valorizados?”.

Dica de blog

Para quem está interessado em se informar mais e trocar ideias sobre a situação da educação brasileira, o blog Educação Deficiente garante mostrar as deficiências, o sucateamento, o descaso, a indisciplina, a ausência de autoridade, os baixos salários, a insegurança e a violência que contaminam o ensino, a educação, a cultura, o civismo, a cidadania, a formação e a profissionalização do jovem brasileiro.

Publicado em 6 de novmebro de 2012.

Publicado em 06 de novembro de 2012