Este trabalho foi recuperado de uma versão anterior da revista Educação Pública. Por isso, talvez você encontre nele algum problema de formatação ou links defeituosos. Se for o caso, por favor, escreva para nosso email (educacaopublica@cecierj.edu.br) para providenciarmos o reparo.

Embates teórico-filosóficos entre Thomas Kuhn e Karl Popper: como pensar a atividade científica hoje

Janaina Pires Garcia

Mestre e Doutoranda em Educação (PPGE/UFRJ); professora de Sociologia no Ensino Médio

O presente artigo possui como objetivo principal traçar o embate de ideias entre os pensamentos de Thomas S. Kuhn e Karl Popper, refletindo como a atividade científica vem se desenvolvendo na contemporaneidade. Os dois teóricos, que eram contemporâneos, faziam parte da chamada epistemologia anglo-saxônica e mais centrados particularmente na corrente do empirismo lógico, que, por sua vez, possuía forte tendência de ideias da lógica matemática. Nessa corrente de pensamento, o que se buscava era livrar o discurso científico de qualquer forma de ambiguidade (pois isso já acontecia na metafísica), de modo a adequar a lógica do raciocínio abstrato à lógica das experiências práticas. Desse modo, o fenômeno é observado e verificado pela observação empírica e/ou verificação lógica.

Nesse sentido, o empirismo lógico, baseado na experimentação e na lógica, faz uso de uma linguagem específica para a ciência: o discurso metacientífico, isto é, um discurso em que “os objetos da ciência não são criados nem apreendidos, mas construídos” (Epstein, 1990, p. 104). A metaciência possui algumas formas de discurso particulares; as mais importantes são o “metadiscurso especulativo” (Epstein, 1990, p. 105) – que é o discurso próprio da Filosofia, procurando uma verdade última fundamental que seria um ponto de partida de toda a ciência; o “metadiscurso normativo” (idem) – que somente se preocupa com a condução que o raciocínio deve seguir para fazer ciência, questionando quais são as condições que determinam a “boa ciência”, prescrevendo fórmulas de como os cientistas devem praticar a ciência; e o “metadiscurso prescritivo” (idem) – que tem pouca repercussão, pois descreve o seu juízo de valor, demonstrando como se chegou a determinada teoria.

Agora, centrando-nos mais nas teorias de Popper e Kuhn, poderemos perceber seus pontos de críticas e distanciamentos.

Karl Popper, na sua teoria dos três mundos, propõe um método científico não indutivo (que vai do geral para o particular) e racional, porque para ele a ciência opera com o silogismo dedutivo. Os três mundos de Popper são: o primeiro mundo é o mundo dos objetos físicos, dos fatos e dos fenômenos; o segundo mundo é o mundo dos estados de consciência, dos estados mentais; e o terceiro mundo é o mundo dos conteúdos objetivos do pensamento, mundo este normativo ou prescritivo.

Dessa forma, a partir da imagem dos três mundos de Popper, podemos perceber o esquema de funcionamento da ciência: em primeiro lugar, os cientistas são tidos como estados de consciência que, ao praticar a atividade científica, interagem com o mundo de objetos físicos; em segundo lugar, do tipo de interação denominada científica surgem teorias, hipóteses, leis científicas etc.; em terceiro lugar, os filósofos da ciência podem formular normas e critérios para a avaliação das hipóteses, teorias, leis científicas etc.

Porém, a partir do momento que começa a frequentar o círculo de Viena, outras inquietações povoam a mente de Popper. Ele se afasta da ideia de verificação empírica e fala do “falseamento” (ou retorsão).

Ao invés do verificacionismo, Popper propõe o “falsificacionismo” como critério de cientificidade, pois para ele só é científico aquilo que for passível de falsificação. Mas o que vem a ser essa “falsificação”? Para Popper, é um processo metodológico, pois consiste em recolher elementos que podem contestar uma teoria, e uma teoria científica só deve merecer essa designação se for submetida a testes que possam contestá-la. Quanto mais uma teoria resistir às tendências do falseamento, mais ela será corroborável. Logo, a falsificação nada mais é que a introdução de testes para verificar a sua validade. Assim, Popper demonstra que os cientistas que aderem à sua linha de raciocínio buscam os elementos que falseiam a sua própria teoria.

Outra questão interessante a ser abordada diz respeito ao contexto de justificação e ao contexto de descoberta na ciência. Tais contextos nada mais são do que a maneira como o cientista chegou à sua teoria, como ele a apresenta aos seus pares e como consegue adesão: quais argumentos o cientista utiliza para que o auditório possa aderir às suas ideias? Para Popper, o que importa é o contexto de justificação, isto é, “a avaliação exclusivamente do produto da atividade dos cientistas” (Epstein, 1990, p. 106), uma autonomia do contexto de justificação, “livre dos fatores externos, a razão da ciência dependeria apenas da economia interna de seus fatores”, segundo a tese de Duhem-Quine (Epstein, 1990, p. 107).

Thomas Kuhn, por sua vez, não aceitava a ideia de uma supervalorização do contexto de justificação; defendia que os dois contextos – tanto o de justificação quanto o de descoberta – eram importantes, pois eram integrados, no sentido de realizar um movimento dialético. Para Kuhn, a fronteira construída entre esses dois contextos era extremamente artificial.

Thomas Kuhn era categoricamente contra a questão da “falsificação” levantada por Popper, pois para ele o cientista colocaria sua teoria ao abrigo de qualquer crítica, estabelecendo que o mais importante seria manter determinado corpus teórico; nesse sentido Kuhn defende a ideia de “ciência normal” (Epstein, 1990, p. 108).

Thomas Kuhn, em seu livro A estrutura das revoluções científicas, traz à tona alguns conceitos inéditos no campo da Epistemologia; o de “ciência normal” é um dos mais importantes e também alvo de críticas severas por parte de Popper.

Ao contrário da ideia dos três mundos de Popper para pensar o processo científico, Kuhn mostra “estruturas” (Epstein, 1990, p. 108) que determinam as quatro fases de evolução do empreendimento científico. A primeira fase é denominada “ciência normal” (Epstein, 1990, p. 108); é marcada por práticas teóricas e experimentais, em que o crescimento do saber científico é cumulativo e regido pelo paradigma vigente. A segunda fase é chamada de “anomalias” (Epstein, 1990, p. 109); é quando se encontram resultados experimentais não assimilados pela teoria: “as anomalias são a princípio marginalizadas e só abalam a solidez dos respectivos paradigmas quando surge um novo paradigma capaz de explicá-las” (Epstein, 1990, p. 109). A terceira fase é quando ocorre a substituição de um “paradigma”(Epstein, 1990, p. 110), isto é, quando após um período de competição entre o paradigma precedente e o seu sucessor, o sucessor acaba se tornando o paradigma vigente. Nas próprias palavras de Kuhn, “quando se decide rejeitar um paradigma é sempre decidir simultaneamente aceitar outro” (Epstein, 1990, p. 111). A quarta e última fase é a “revolução científica” (Epstein, 1990, p. 112) propriamente dita. Quando o crescente número de anomalias não é absorvido pela ciência normal, gera-se uma crise, que é resolvida pela mudança de paradigma, acarretando a “revolução científica”.

É importante observar que o conceito de paradigma desenvolvido por Kuhn também foi alvo de críticas, principalmente da parte de Popper. No livro A estrutura das revoluções científicas é possível encontrar 21 sentidos diferentes para a palavra paradigma,como é também relatado no texto de Epstein. O conceito de paradigma, segundo Epstein, devido à sua polissemia, foi mais bem entendido no meio científico por meio do conceito desenvolvido por Lakatos de programas de pesquisa (Epstein, 1990, p. 112). O termo paradigma, em si, vem da filosofia grega de Platão; quer dizer “modelo” ou um padrão a ser seguido. Ao usar esse termo, Thomas Kuhn é duramente criticado por Popper, que o chama de irracionalista e relativista.

Popper continua suas críticas contra Kuhn de modo mais incisivo no que concerne à ciência normal, pois acredita que o pensamento científico está sempre procurando refutar a si mesmo – o que ele chama de revolução permanente (ou crítica permanente), termo importado do materialismo histórico. Mais ainda: Popper achava um absurdo que a ciência normal (e não a revolução científica, como muitos pensam) fosse a tônica da atividade científica. Para ele, o cientista é crítico por excelência e não tão apegado assim ao paradigma.

Mas o que é mais importante na revolução científica, na visão de Kuhn? Os fatores internos ou os fatores externos? Os fatores internos são aqueles gerados dentro da própria teoria, quando ela não consegue responder a alguma questão. Os fatores externos são aqueles que estão para além da teoria; seriam, assim, os fatores sociológicos, psicológicos etc.

Thomas Kuhn reflete acerca do que garante a adesão a um novo paradigma e chega à conclusão de que são os fatores externos, isto é, são as razões históricas, sociais e culturais (que são externas à atividade científica) que promovem a adesão ou o abandono de um determinado paradigma. É importante notar aqui mais um ponto de divergência entre Popper e Kuhn, pois, enquanto Kuhn valoriza os fatores externos no processo científico, Popper valoriza os fatores internos.

Visto isso, podemos dizer que Kuhn pensa a ciência de forma diversa da de Popper, porque para ele a ciência é não indutiva e não racional.

A partir dos principais embates teórico-filosóficos entre Thomas Kuhn e Karl Popper, podemos pensar em possíveis desdobramentos críticos de ambos os aspectos sugeridos para pensar a respeito da atividade científica.

A relevância dos estudos de ambos os autores ainda é sentida atualmente no contexto acadêmico, pois nos dá ferramentas para pensarmos como a ciência vem sendo produzida.

Na minha opinião, o pensamento de Thomas Kuhn se torna relevante no meio científico a partir do momento em que ele traz para o debate a questão dos fatores externos (e não somente os internos) para fazer ciência e para pensar na evolução dos paradigmas; e quando ele traz à tona a questão da persuasão para convencer um determinado auditório – neste caso um “auditório particular”, segundo Perelman e Olbrechts-Tyteca (1996) –, porque só por meio da persuasão desse auditório particular é que poderá ocorrer mudança de paradigma ou não, porque quanto maior o número de adesões a determinadas ideias e valores, maiores as proporções de mudança de paradigma e de uma revolução científica.

Entretanto, Thomas Kuhn, mesmo sendo inovador, demonstra certo radicalismo no que concerne a questão dos paradigmas, que ele mesmo intitulou de a “incomensurabilidade dos paradigmas” (Kuhn, 1978). Para ele, os paradigmas são tão opostos uns dos outros que não há uma linguagem comum entre eles; visto que uma parte do processo científico se dá pelos fatores externos, a comunicação entre os paradigmas se tornaria ainda mais improvável.

Tal posicionamento radical é duramente criticado por autores como Denzin & Lincoln (2006), que falam da confluência dos paradigmas. Nas palavras do antropólogo Clifford Geertz, um “obscurecimento dos gêneros” (Denzin & Lincoln, 2006, p. 172).

Desta forma, o que devemos refletir é que novas questões estão surgindo a todo momento em nossa sociedade e que os paradigmas não estão conseguindo dar conta disso. Uma solução talvez fosse a hibridização entre os paradigmas, olhá-los de maneira que possam ser suscetíveis a mudança e transformação e não como algo estável que se mantém imutável ao longo do tempo.

Por outro lado, o pensamento de Karl Popper é muito idealizado, com um tipo ideal de cientista, uma visão romântica do homem e da ciência. Em função da limitação humana, seria impossível aceder a uma verdade universal. Entretanto, levando em consideração a questão proposta por esse mesmo autor, do falseamento, na tentativa de questionar a sua própria teoria, deparamo-nos com uma postura mais ética do fazer científico.

Nesse sentido, acredito ser interessante apostarmos em outras maneiras do processo científico na contemporaneidade. Seguindo as pistas de Gilles Deleuze, “a ciência não tem por objeto conceitos, mas funções que se apresentam como proposições nos sistemas discursivos” (Deleuze, 2010, p. 139). Assim sendo, fazendo uma antítese com a Filosofia, a Ciência romperia o caos para ganhar uma referência capaz de atualizar o virtual, renunciando ao infinito (ao contrário da Filosofia, que está preocupada com o infinito), pois a sua preocupação primeira é um plano de referência, é colocar um limite no caos. Porém devemos refletir sobre a seguinte hipótese: a ciência, ao renunciar a esse infinito para ganhar a referência, no intuito de definir sempre o estado das coisas, não estaria perdendo algo de extremamente valioso – observar os processos? Uma busca de não tentar dar um limite ao caos e não se preocupar tanto na definição de estados de coisas e conceitos seria, talvez, uma outra maneira de pensar a ciência, levando em consideração uma postura mais reflexiva dos próprios cientistas.

Referências bibliográficas

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O que é a filosofia? São Paulo: Editora 34, 2010.

DENZIN, Norman; LINCOLN, Yvonna. O planejamento da pesquisa qualitativa. Porto Alegre: Artmed, 2006.

EPSTEIN, Isaac. Thomas S. Kuhn: a cientificidade entendida com vigência de um paradigma. In: OLIVA, Alberto (org.). Epistemologia: a cientificidade em questão. Campinas: Papirus, 1990, p. 103-129.

KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 1978.

PERELMAN, Chaim; OLBRECHTS-TYTECA, Lucie. Tratado da argumentação – a nova retórica. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

Publicado em 6 de novembro de 2012.

Publicado em 06 de novembro de 2012