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Por uma educação deleuziana

Mariana Cruz

No seu artigo, O que Deleuze quer da educação?, a professora Sandra Mara Corazza, da Faculdade de Educação da UFRGS, busca mostrar a forma como o filósofo francês vê as crianças e parte desse ponto de vista para mostrar a sua interpretação sobre a Educação e o ofício do professor.

Esse texto, porém, não é apenas uma explanação teórica das ideias do “Filósofo da Diferença”. Vai além. A autora se apropria de tal forma do pensamento deleuziano que até sua escrita se confunde com a dele, não só pela utilização dos termos utilizados pelo filósofo (a muitos dos quais ele dá um novo significado) como também pela forma de escrever que, por vezes, ultrapassa os limites da Filosofia e chega ao campo da poesia e da literatura.

De acordo com Corazza, em Deleuze as crianças não são pensadas como “embriões originários do ser humano cognitivo e psíquico nem com fontes da sociedade e da cultura, mas que se anunciam como cartógrafas, impessoais e artistas”. O leitor ainda não acostumado ao vocabulário de Deleuze e dos deleuzianos pode considerar um tanto estranha essa afirmação; afinal, o que a autora quer dizer com “crianças cartógrafas”? Seriam, como ela mesma explica em seguida, crianças estimuladas a explorar o meio em que vivem, o espaço por onde transitam, as ruas, as praças, a vizinhança, o campo. Corazza considera que para Deleuze as crianças são também artistas na medida em que “realizam viagens histórico-mundiais sem saírem do Continente da Infância e da Arte (...), abrem e fecham portas, telhados e planos, enlouquecendo totalmente o pensamento do bom senso da Infância e do senso comum da Arte”.

Diz a autora então que, ao pensar o conceito de professor sob a perspectiva do Princípio da Identidade – em relação ao qual Deleuze vai em direção oposta –, ele é visto como alguém que não tem nada que seja distintivo. Mas, ao considerá-lo sob a ótica da Filosofia da Diferença, ele é único e original. Alguém que não segue modelo algum, que “problematizou, com e diante dos alunos, o que até então não era considerado problemático por ninguém; ele fez os alunos desaprenderem as besteiras-verdades que lhes tinham sido ensinadas e que eles assimilaram para assim poderem aprender algo que não fosse senso comum nem opinião, ele conseguiu mostrar que a dificuldade de pensar é algo de direito do pensamento”.

Assim, a autora defende a não petrificação do professor, a não etiquetação do docente como aquele que tem a fórmula certa de dar aula, planejar, avaliar, pois cada um tem o seu próprio processo particular e que cabe unicamente a ele descobrir qual é.

Ao ofício do professor podem se somar várias outras funções, tais como educador, pedagogo, artista. A cada momento um transforma-se em outro e como tal consegue despertar os alunos para a criação e a originalidade. Diz então Corazza: “que desde a chegada do pensamento de Deleuze à educação (...) já não é mais possível operar com qualquer tipo de currículo: a não ser currículos plurais”, que seria, em outras palavras, um currículo versátil, em movimento perpétuo, aberto ao novo, um currículo crítico e questionador das limitações. Corazza, então, mostra que, para a educação defendida por Deleuze, a educação plena e dinâmica deve “juntar o pensar, aprender e viver, procura tornar o pensamento possível outra vez, pois acredita que, assim, pode retirar o pensar de sua imobilidade e de sua separação da vida”.

Publicado em 6 de novembro de 2012.

Publicado em 06 de novembro de 2012