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Alexandre Amorim

Depois de visitar Inhotim, conversei com alguns amigos que já haviam ido ao grande museu a céu aberto. As obras provocam discussões acaloradas, e as diferenças estéticas são um ótimo ponto de partida para relembrar o prazer de passear pelos mais de cem hectares de área construída, cercada de mais de 700 hectares de uma mistura de Mata Atlântica e Cerrado. A área construída inclui os pavilhões com as obras e o trabalho paisagístico de forma harmoniosa, e é difícil saber qual parte da visita é mais impressionante.

Aliás, é muito difícil descrever Inhotim. Os termos usados pelos visitantes ficam entre “paraíso”, “maravilha” e “lindo”. Mas adjetivos não ajudam muito a dar uma noção do lugar – e, para falar a verdade, faltam palavras para passar a ideia da beleza e da grandeza do museu. Mesmo as fotos distorcem a realidade dos jardins e da visita em si, além de não permitir a completude das experiências sensoriais em relação às obras. Na Cosmococas de Hélio Oiticica, por exemplo, você pode entrar em uma piscina, chutar balões de gás e pular em colchões. As obras polifônicas de Janet Cardiff e o Sonic Pavilion, de Doug Atkin, só podem ser apreciados de corpo presente, com ouvidos atentos. Mesmo as obras mais visuais perdem sua magnitude se apenas descritas ou fotografadas. No final das contas, serve a paráfrase: você já foi a Inhotim, nega? Não? Então, vá.

Reza a lenda que Inhotim vem de “Nhô Tim”, corruptela de “Senhor Timothy”, o responsável pela fazenda que havia no local, no século XIX, e pertencia a uma empresa mineradora. Situado em Brumadinho, a 60km de Belo Horizonte, em 2006 o museu foi aberto ao público, com obras pertencentes a Bernardo Paz. O empresário das áreas de mineração e siderurgia é também um grande colecionador de arte contemporânea. Autodenominado um “eterno insatisfeito”, Paz achou em Inhotim um motivo para investir suas energias, tentando harmonizar arte e cultura com Educação e Botânica, de modo que o parque possa ser uma fonte múltipla de prazer e aprendizado.

Pelo projeto de inclusão e cidadania, Inhotim promove capacitação para ONGs, artesãos locais e para a rede de turismo da região, além de visitas guiadas para escolas e outros grupos. Associado a mineradoras e órgãos como Sebrae, Bernardo Paz não é apenas um mecenas e admirador de arte, mas traz um modo mais abrangente de gerenciar uma empresa que trabalha com o lado emocional e sensível das pessoas.

São vários os modos de convênio que uma empresa pode ter com Inhotim. No próprio site do museu está listada uma série de possibilidades: recursos diretos, investimento com benefício fiscal, doações e parcerias institucionais. Pessoas físicas também podem contribuir e se associar ao lugar por meio do programa Amigos do Inhotim.

Fica claro que o museu tem uma gestão experiente – mesmo porque seu proprietário é um empreendedor que já foi ao fundo do poço da economia e aos poucos conseguiu se recuperar. A ligação entre um museu contemporâneo/parque botânico com mineradoras que desfiguram boa parte de Minas Gerais, no entanto, gera estranhamento. A relação cidadão x mineradoras é bastante complexa e não cabe discuti-la neste espaço. Em um resumo bastante sucinto da situação, vale dizer que a interdependência de ambos é uma das fundações do estado mineiro: as mineradoras extraem do solo e alteram o ecossistema, mas geram empregos e impostos. O estado tem regras de preservação ambiental, mas nem sempre consideradas eficientes ou suficientes.

De qualquer modo, Inhotim é um lugar a ser visitado e um exemplo a ser seguido. Além do parque em si, seria interessante seguir também a ideia de localizá-lo geograficamente longe dos eixos urbanos. O Estado do Rio de Janeiro tem tradição em investimentos culturais, mas esses investimentos se concentram quase que somente na Região Metropolitana – pelo menos os de maior vulto. Uma exposição permanente de obras que fuja ao centro cultural do estado e faça a população se deslocar para novas experiências seria, no mínimo, uma mudança proveitosa no etnocentrismo carioca. Viajar e respirar obras de arte, deslocar-se física e sensorialmente. Novos ares são sempre bem-vindos.

Publicado em 13/11/12

Publicado em 13 de novembro de 2012

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