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Mia Couto

Alexandre Amorim

Filho de portugueses emigrantes, Mia Couto nasceu em 1955, na Beira, uma das maiores cidades de Moçambique. Ainda estudante de Medicina, foi chamado para trabalhar em um jornal pró-independência e sempre trabalhou com literatura. Após a independência de Moçambique, Couto se formou em Biologia.

Seu estilo se firmou com forte influência do realismo mágico, mas sua origem africana trouxe uma riqueza de palavras e uma nova forma narrativa para sua escrita. Mesmo que a realidade da pobreza e o peso das tradições africanas sejam retratados, há sempre um lirismo que se exerce nas metáforas do texto, ainda que elas sejam pessoas mortas por leões, mulheres reprimidas por leis culturais ancestrais ou pela incapacidade de convivência pacífica entre o novo e a tradição.

Mia Couto conheceu a luta de um país contra o jugo do colonizador, sendo ele mesmo filho de portugueses, mas a favor da independência. Sem se deixar levar por panfletarismos em sua obra literária, o autor verifica as questões de nação e de territórios culturais com uma visão bastante humanista, observando os dois lados da repressão e sempre preocupado em expor a crise como protagonista – todos os lados de uma crise devem ser observados e analisados, ainda que (e principalmente, no caso de Couto) pelo viés da poesia. E se as fronteiras (políticas ou culturais) são causadoras de crises, elas são, ao mesmo tempo, nossas formadoras. Por isso, é impossível ao autor esquecer a face humana por trás da crise.

Em um debate no Fórum Literário de Ouro Preto, o escritor tentava acabar com a curiosidade a respeito da África, especialmente porque essa curiosidade nasce de uma ideia exótica e errada do continente. O mistério acerca do misticismo que se propaga do continente acaba por torná-lo um mundo de fantasia – e Couto briga contra isso. No entanto, ele sabe que as religiões africanas são uma forte contrapartida à racionalidade europeia. Por isso, aproveita-se de seu lado biólogo e explica que a ciência não é resposta para todas as dúvidas. “Nosso corpo, por exemplo, é formado por mais bactérias do que por células humanas”. Como explicar isso?

E como definir o homem e suas fronteiras se, nele mesmo, as fronteiras estão constantemente em mutação? A leitura das obras de Mia Couto ajuda a ver a África como um continente mais próximo de nós do que pode parecer. Como as bactérias que também nos formam, somos todos constituídos pelos primeiros humanos a ficar de pé e observar os horizontes africanos.

Mia Couto é filho de europeus nascido no continente que deu origem à humanidade. Por certo viés, uma contradição em forma de homem. O que, para o escritor, não deixa de ser um elogio: só engrandece sua própria visão do homem como eterna contradição.

Publicado em 27/11/2012

Publicado em 27 de novembro de 2012