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Pierre Verger, muito mais que fotógrafo

Alexandre Amorim

Em novembro de 1902, nascia em Paris uma criança que se tornaria mestre na arte da correspondência. A correspondência entre a vida e a arte, entre o racional e o místico, entre a Europa, a África e a Bahia. Pierre Verger, aos 30 anos, entendeu que sua cidade natal seria apenas um ponto de referência e que o mundo era muito maior do que o que ele até então havia visto.

Assim, trabalhando como fotógrafo, conheceu a Córsega, a União Soviética, foi preso na Espanha (tido como espião alemão), admirou-se com a Itália e com vários países seus vizinhos na Europa. Partindo para a Oceania, foi também à Ásia e conheceu Japão, China, Vietnam, Camboja, Filipinas. Em cada lugar, Verger pôde viver a vida comum de seus nativos e fotografar culturas que o impressionavam e reforçavam sua vontade de experimentar diferenças. Mas a África e a Bahia o seduziram mais do que qualquer outro lugar.

O francês cidadão do mundo conheceu primeiro o norte do continente-mãe, mas foi a cultura da Nigéria e do Benin que o cativaram, principalmente depois que ele pôde perceber as relações daqueles países com um novo lugar, a que ele chegou em agosto de 1946 – a Bahia de Todos os Santos.

Verger chegou para ficar. Fez sua casa em Salvador, foi amigo de Mãe Senhora e babalorixá de sua casa, Opó Afonjá. Atuou como mensageiro entre a religião aculturada no Brasil e o candomblé africano e foi chamado, no Keto, de Pierre Fatumbi Verger; “Fatumbi” é aquele nasce de novo graças ao Ifá.

O título do filme de Lula Buarque de Hollanda, Pierre Verger: mensageiro de dois mundos, mostra argúcia e sensibilidade, porque o francês sabia justamente estabelecer a comunicação entre os mundos pelos quais transitava.

É Mãe Stella (iniciada por Mãe Senhora) quem, no filme, resume essa inter-relação: “nós herdamos da senzala, onde um é obrigado a apoiar o outro, para poder resistir. A religião foi nosso ponto de resistência, então, todos ligados ao candomblé, aos orixás, têm dentro de si essa cosia de ser irmão, de ser protetor”. Verger tinha plena consciência do que o candomblé, no Brasil, pode fazer pelos descendentes africanos.
Sabia que a África e a Bahia eram irmãs no passado e no presente e demonstrava isso pelas suas fotografias de cultos e de personagens desses cultos. Mas o tão clamado sincretismo religioso, a fusão de cultos, no Brasil, era negado por ele. Experiente em observar e conviver com várias civilizações díspares, o fotógrafo dizia que “não existe sincretismo, mas aproximações de culturas diferentes”.

Mas não foi apenas pela correspondência entre Brasil e África que Verger soube transitar tão bem. Ele mesmo percorreu longas distâncias entre suas origens francesas e seu destino, no Brasil. O próprio candomblé era, para ele, uma eterna fonte de questões particulares. Sua sensibilidade como artista da fotografia demonstrava a beleza de um mundo místico que se apresentava no nosso mundo material, e ele próprio participou das cerimônias metafísicas e religiosas. Porém, apesar de babalorixá e de seu conhecimento dos segredos, o fotógrafo afirmou até o fim da vida não acreditar nas incorporações e nos transes. Dizia-se um “idiota racionalista francês” que não podia crer, e lamentava por isso.

O homem que impressionou o mundo com fotografias e textos belíssimos em livros, como Notícias da Bahia e Fluxo e refluxo, soube escutar, conviver, se integrar sem usar o estranhamento como ponto de partida para essa integração. Sua lente fotografava o que lhe parecia belo e, mesmo sendo estrangeiro àqueles mundos, Verger sabia reconhecer neles o que havia de comum e de cativante. Mais que um fotógrafo, seus olhos eram de um homem que procurava humanidade e não rótulos sociais ou religiosos. Pierre Verger soube ser um mensageiro, como todo artista tem que ser. Perguntado como conseguiu conviver com tantas diferenças, ele respondeu: “eu não perguntava o porquê. Via tudo com naturalidade”.

Publicado em 27/11/2012

Publicado em 27 de novembro de 2012