Este trabalho foi recuperado de uma versão anterior da revista Educação Pública. Por isso, talvez você encontre nele algum problema de formatação ou links defeituosos. Se for o caso, por favor, escreva para nosso email (educacaopublica@cecierj.edu.br) para providenciarmos o reparo.

Tempo

Palmyra Baroni Nunes

Mestre em Linguística (UFF)

Com o passar do tempo, achei que as coisas ficariam mais fáceis. Que toda a insegurança e medo iriam, finalmente, ter um fim. Que me sentiria mais confiante nas minhas escolhas e que a vida deixaria de ser um atemorizante ponto de interrogação, um só lado visível da Lua, um grande desafio, um terreno acidentado. Que as situações, de tanto se repetirem, se tornariam experiências já vividas e não trariam nenhuma novidade além daquilo que eu já conhecia. Fui envelhecendo achando que o tempo curaria minhas neuras. Que os livros que eu li dariam conta dos paradoxos e incoerências e que, em algum deles, estaria aquela resposta para aquela pergunta crucial que acabaria com minhas dúvidas. Tive a plena sensação de que, com o avanço da idade, os fantasmas diminuiriam, até que desapareceriam por completo e eu, vencedora de mim, teria num manual algo palpável, definível, objetivo que me levaria a encontrar a peça que falta no meu quebra-cabeça.

O tempo passou, a idade chegou, o corpo mudou e os sentimentos nem tanto. As dúvidas, inseguranças e medos se mostram bem parecidos. Aquela pergunta perdura sem aquela resposta, e os mesmos livros trazem outras questões. As situações, mesmo que se repitam, dão-me a sensação de que eu nunca vou saber como agir. E o tempo não para. Nem espera que eu mude, mas muda meu rosto, meu cabelo, alarga meus quadris. Vai me atropelando e trazendo incumbências que eu nem sei se algum dia vou ser capaz de cumprir.

Tempos velhos de roupa nova. Está tudo aqui dentro. Fico do avesso, olho do outro lado e a essência apenas se molda. A inconstância e imprevisibilidade da vida é o que fazem dela única, donde concluo, provisoriamente, que felicidade é encarar e aceitar a mudança como algo permanente que traz em si expectativas misturadas de novos e velhos sentimentos e que, mesmo com todo esforço, sempre me surpreenderei com o que vem, pois, mesmo que seja velho, a magia da vida vai fazer com que se pareça novo. O que dói, de vez em quando, é a consciência que tenho de que nunca serei dona das circunstâncias, sequer sua vítima. Serei levada por elas, tentando domá-las, segurá-las, controlá-las; aprender com elas e o resultado dos meus esforços, só o tempo trará.

Publicado em 18/12/2012

Publicado em 18 de dezembro de 2012