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A Marchinha Carioca, uma história resumida – parte 1

Alexandre Amorim

A marchinha nasceu no Rio de Janeiro, no dia 17 de outubro de 1847. Ou, pelo menos, nesse local e data nasceu sua mãe, Chiquinha Gonzaga. No final do século XIX, o carnaval carioca ainda era composto por grandes sociedades, em que desfilavam as classes média e alta, utilizando carros alegóricos e cavalos, e os ranchos e cordões, de classes mais baixas. O Rosa de Ouro, um dos ranchos mais conhecidos da cidade, localizado no Andaraí, pediu um hino para a já respeitada compositora, que também morava no bairro e sempre foi afeita à cultura popular. No carnaval de 1899, o cordão saiu às ruas cantando sua marcha-rancho:

Ó abre alas
Que eu quero passar
Eu sou da Lira
Não posso negar
Ó abre alas
Que eu quero passar
Rosa de Ouro
É quem vai ganhar...

A primeira marcha de carnaval se tornou um cartão de visitas do povo carioca. Abram espaço para o povo passar, um povo ligado à música (à “lira”), que conseguiu transformar uma festa violenta e sem graça (o entrudo, que consistia em jogar farinha, areia e bolas de água suja uns nos outros, sem música) em uma manifestação cultural que o mundo admira. E que se renova, como prova o atual renascimento dos blocos. Como dizia o sambista: “agoniza, mas não morre”.

É claro, a marcha carnavalesca não nasceu do nada. A maioria dos historiadores e músicos concorda que Chiquinha Gonzaga trouxe das marchas portuguesas a inspiração para escrever uma música mais festiva e abrasileirada. Essas marchas portuguesas eram conhecidas pelos brasileiros frequentadores dos espetáculos teatrais que as companhias “d’além-mar” traziam ao Brasil. A compositora já havia escrito peças para o teatro, operetas e polcas, que logo se tornaram conhecidas. Mas a grande influência sobre Chiquinha foi a crescente participação musical no carnaval: a fusão de gêneros musicais, o encontro de percussão e intrumentos de corda com um andamento mais vivo e acelerado – além da óbvia participação dos batuques africanos, que se inseriam nos festejos momescos e se misturavam às composições de partituras de origem europeia.

A face jocosa e irônica do carioca logo apareceria nas composições carnavalescas. Freitinhas, um compositor que, como Chiquinha, também escrevia para o teatro de revista e trabalhava em uma editora musical, lançou em 1926 a marchinha “Zizinha”. Com o auxílio de uma banda com metais e comparecendo aos desfiles de foliões levando cópias de sua marcha, o autor conquistou o povo com a letra maliciosa. A música é uma coautoria com Carlos Bittencourt e Cardoso de Meneses:

Por ser deveras conhecida / palavra, eu ando aborrecida
em qualquer lugar / quando passear
sou muito perseguida / o meu tormento não tem fim
nunca pensei sofrer assim / velhos e mocinhos
pedem-me beijinhos / dizendo, enfim , prá mim
Zizinha, Zizinha / Zizinha, Zizinha
ó, vem comigo, vem / minha santinha
também quero tirar uma casquinha

A partir daí, a marcha se tornou mais acelerada e as letras começaram a ter um tom de bricadeira e/ou malícia. Mas também começou a se institucionalizar. Na década de 1930, a Casa Edison (primeira gravadora de discos no Brasil) realizava concursos do gênero, assim como a prefeitura do Rio. Tocando nas rádios e fazendo parte das trilhas sonoras de filmes brasileiros, a marchinha se popularizou e ganhou a bênção dos grandes nomes da música. Carmem Miranda, Francisco Alves, Marlene e sa “arquirrival” Emilinha Borba são alguns nomes de cantores do primeiro time da MPB que gravaram esse estilo de música de compasso binário e de letras quase sempre divertidas. Braguinha, Wilson Batista, Lamartine Babo foram compositores dessa época. Suas marchinhas são famosas até hoje. Quem não sabe cantar “Mamãe eu quero” ou “Taí”? Até mesmo o carrancudo sambista Ary Barroso escreveu “Dá Nela”, que ganhou o primeiro concurso da Casa Edison.

As letras, embora jocosas, sempre foram reflexo de questões sociais. Ainda nos anos 30, uma sequência de letras trata, mesmo que de forma superficial, uma velha questão nacional: o preconceito racial. “O teu cabelo não nega”, “Linda morena” e “Linda lourinha” foram lançadas em carnavais diferentes, uma respondendo à outra. A primeira é uma exemplo claro do preconceito ainda existente no Brasil. “O teu cabelo não nega que tu és mulata da cor, mas como a cor não pega, mulata, quero o teu amor”. Como se a cor fosse uma doença ou pudesse contaminar o outro. Não se sabe se Lamartine e os irmãos Valença a escreveram com tom irônico ou hostil. O que podemos afirmar é que a questão racial está estampada em plena festa popular.

A marchinha passou a ser um retrato do Brasil, mais especificamente do Rio de Janeiro, e espelhava o que há de bom e de ruim nessa sociedade. A maneira brincalhona de lidar com seus problemas é uma das maiores características do nosso povo, e nisso a marchinha é nossa expressão ideal.

Fontes:

Leia também:

A Marchinha Carioca, uma história resumida – parte 2 (final)

Publicado em 28/02/12

Publicado em 28 de fevereiro de 2012